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Contra o Futebol Moderno – 3# FC United of Manchester

Victor de Leonardo Figols

Em 2005, quando o Manchester United FC foi vendido para o empresário americano Malcolm Glazer, parte da torcida sentiu que a relação como o clube não seria mais a mesma. A família Glazer, além de trabalhar na indústria petrolífera, também é proprietária do time de futebol americano Tampa Bay Buccaneers. A compra do Manchester United FC viria para somar o já imenso patrimônio dos Glazers.

Muito antes de a família Glazer comprar o Manchester United FC, o clube foi um dos pioneiros a entrar no mercado de ações, seguindo os passos do Tottenham Hotspur FC. A entrada no mercado só foi possível devido ao caráter empresarial que muitos clubes, principalmente os ingleses, assumiram no começo dos anos 1990.

Do ponto de vista financeiro, ter ações do Manchester United era um investimento seguro. De 1990 a 2005 o clube conquistou 25 títulos, o sucesso futebolístico significa estabilidade das ações do clube e boas possibilidades de valorização da ação. Em 2005, ter uma ação do Manchester United era um bom negócio, o clube já era o mais rico do mundo até então, valorizando ainda mais as suas ações.

Ilustração: Felipe de Leonardo – felipedeleonardo.com.

Os Glazers viram no Manchester United uma possibilidades ímpar de fazer um investimento com bons lucros no futuro. Em 2005, a família Glazer se tornou o acionista majoritário do clube, controlando quase 75% das ações do clube. Do outro lado, torcedores e pequenos acionistas prometeram complicar a vida dos Glazers. Foi organizada uma série de manifestações nos arredores do estádio do Old Trafford, a ideia desses torcedores não era apenas chamar a atenção, na verdade eles buscavam inviabilizar o negócio dos Glazers, uma vez que havia fortes indícios de que a família Glazers estava endividada e a compra do clube seria uma forma de sanar as dívidas.

Somados aos protestos, alguns torcedores até prometeram boicotar o clube, evitando comprar os artigos licenciados pelo Manchester United e os produtos dos patrocinadores do clube. Todavia, a ação desses torcedores foi em vão. Os Glazers se tornaram os donos dos Manchester United, assumindo boa parte das ações. Alguns torcedores viram o negócio com bons olhos, era uma boa oportunidade de enriquecer e fortalecer ainda mais o Manchester United. Entretanto, outro grupo sentiu que os Glazers iriam destruir o clube, e que a diretoria havia traído seus torcedores quando aceitou o negócio.

Naquele mesmo ano os torcedores, que se sentiram traídos e órfãos do Manchester United, se juntaram e fundaram o FC United of Manchester um clube que buscava resgatar as origens operárias que o Manchester United havia perdido ao longo dos anos, e que a após ser comprado, dava indícios de que deixaria cada vez mais as suas origens e tradições em segundo plano. Mais do que isso, o FC United of Manchester seria um clube de torcedores para torcedores.

Um time de torcedores para torcedores, com esse ideal que United of Manchester foi criado. Uma proposta democrática, diferente do grande time de Manchester que agora tinha um único dono, o clube recém-nascido era de todos para todos. Além disso, o clube não busca nenhum benefício financeiro, pelo contrário, os torcedores defendem a bandeira conta o futebol moderno.

Como clube, o FC United of Manchester começou a sua trajetória futebolística em uma liga regional e de caráter amadora, mas que é equivalente a nona divisão inglesa. Em pouquíssimo tempo o clube foi subindo gradativamente de divisão, foram três acessos seguidos, chegando até a sexta divisão.

O sucesso futebolístico do o FC United of Manchester pode ser visto não apenas nas acanhadas arquibancadas da sexta divisão inglesa. O clube se popularizou nas cidades próximas à Manchester, ganhando um bom número de novos torcedores. Assim, estabeleceu uma forte relação com a comunidade local, se tornando acessível a todos. Isso implica preços acessíveis de filiação e de ingresso para os jogos. Nessa relação com a comunidade local, o clube aceita jovens jogadores da região para fazerem parte do plantel.

Mike Norton comemora o gol coma torcida do FC United of Manchester. Foto: Matt Wilkinson.

Em seu estatuto, além de prever eleições democráticas para a escolha dos dirigentes – todos os dirigentes são torcedores do clube –, o United of Manchester também prevê que o clube é uma organização sem fins lucrativos e que deve permanecer com esse caráter. Seguindo essa linha, os dirigentes garante que não basta ser um clube sem interesses financeiros, é preciso lutar contra a mercantilização do futebol. Em outras palavras, o clube assume em seu estatuto a sua postura de ser contra o futebol moderno.

A proposta de um clube de torcedor para torcedor, que luta contra o futebol moderno foi vista com bons olhos por diversos grupos. Novos adeptos compartilhavam a ideia de que o clube deveria ser democrático e sem fins lucrativos chamou a atenção de grupos de esquerda. Esses novos torcedores além de serem contra o futebol moderno ainda levantam a bandeira contra o fascismo e contra o racismo. Outras bandeiras de resistência somaram ao clube que nasceu como uma forma de resistência.

O pequeno United of Manchester é completamente o oposto do gigante de Manchester. Enquanto o Manchester United buscou se tornar um grande clube, financeiramente falando, o pequeno clube da cidade está na contramão. Enquanto um busca ser mundialmente conhecido, o United of Manchester busca identificação com a comunidade local, resgatando as origens operárias que o grande esqueceu.

Este é o FC United of Manchester, um clube que nasceu como uma resposta dos torcedores ao futebol moderno. Se os torcedores são contra o futebol moderno, o clube também é, pois no caso do United of Manchester, clube e torcida são a mesma coisa, todos lutando contra o mesmo ideal: Against modern football!.


Esse texto foi originalmente publicado no blog O Campo e cedido para publicação nesse espaço.