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Contradições e equívocos da mídia esportiva

Lucas Dorta

Atualmente a mídia esportiva constantemente é pauta presente nos noticiários dos portais de internet, debates de redes sociais e discussões entre públicos segmentados da área jornalística. Infelizmente nem sempre o motivo da aparição é positivo, pois a editoria vem tendo comportamentos questionáveis.

Não é novidade que muitos veículos estão se perdendo no excesso de gracinhas na busca por audiência, likes, retweets e compartilhamentos. É comum vermos matérias e debates sensacionalistas ou posts sem senso crítico com o objetivo de conseguir engajamento a qualquer custo, mesmo que coloque em risco a credibilidade. O que isso significa? Boa parte da imprensa esportiva precisa reconhecer seus erros e cobrar seriedade de si mesma, antes de ficar com moralismos ou de exigir seriedade no esporte.

O programa esportivo Fox Sports Radio serve de exemplo para as discussões contidas neste texto. Foto: Reprodução/YouTube.

A popularização da internet

Com a popularização da internet e das redes sociais, as mídias alternativas trouxeram o aumento das páginas e sites de temática esportiva, o que significou maior opção para o público, ou seja, a quantidade veio acompanhada de pluralidade. Já na TV, há muitas alternativas de programas de esportes, mas isso não levou ao crescimento da pluralidade e da qualidade. As emissoras se perderam na exploração de polêmicas vazias a todo momento, além dos sensacionalismos e invencionices, o que leva a queda de qualidade e credibilidade quando alguém da mídia esportiva faz cobranças por um esporte mais ético.

Comunicadores criticam a corrupção do esporte brasileiro e realmente vários jornalistas buscam assuntos relacionados ao tema, investigando de maneira aprofundada esse tipo de problema. Mas essa não é a realidade. Na programação esportiva até é possível ter cobranças por moralidade e honestidade no esporte, porém o próprio veículo oferece pouco espaço para pautas relacionadas à corrupção e desonestidade dos dirigentes. Trocam temas que mostram a falta de transparência nas organizações esportivas pelo excesso de assuntos que levam ao riso ou matérias que mais parecem reportagens de revistas de celebridades.

Quando algum atleta brasileiro fracassa nas Olimpíadas, cansamos de ouvir a grande imprensa esportiva falar sobre a falta de apoio e de investimento no esporte olímpico. Também ouvimos lamentações quando equipes tradicionais do futebol entram em decadência devido à desigualdade financeira. Se observarmos a programação de canais de esportes na TV fechada, há inúmeros programas de debates que tratam repetidamente dos mesmos assuntos. Será que não é interessante utilizar alguns horários para dar visibilidade às outras modalidades ou às equipes que não fazem parte da elite do futebol brasileiro ao invés de ficarem o dia inteiro falando dos mesmos assuntos? Quantos debates tratam sobre a péssima gestão do esporte brasileiro e das dificuldades dos times menores? Quantos atletas olímpicos ficam sem visibilidade, já que a regra é a padronização das temáticas? A mídia esportiva tradicional trata pouco desses assuntos. O futebol é a preferência do brasileiro, isso é indiscutível. Mas qual o motivo de várias emissoras com 24 horas de programação esportiva exibirem atrações tão padronizadas – com algumas exceções – que abordam as mesmas narrativas?

Acompanhamos jornalistas exigindo seriedade dos dirigentes do futebol, ética dos jogadores, transparência e união dos clubes. A realidade de parte da imprensa esportiva é a eles exigem no ? Nem sempre. O que vemos são especulações de contratações, tentativas frustradas pelo furo, gritaria sendo mais importante do que a análise, jornalistas clubistas que são personagens caricatos com suas opiniões de torcedores, busca incessante por piadinhas e memes para causar engajamento. Se a mídia alternativa deu a oportunidade de acompanharmos discussões mais plurais e equilibradas, na TV  a opção virou ter que escolher entre o circo e as conversas que mais parecem papo de pessoas dentro do bar após várias rodadas de cerveja.

A arbitragem do campeonato está ruim e cometendo erros? Opa! Oportunidade de audiência! Nesses momentos em vez de a discussão sugerir melhorias ou discutir os lances sem clubismos, alguns “jornalistas” preferem ficar no conforto das acusações de favorecimento a determinado time, inflando ainda mais a paixão dos torcedores.

Neto destruiu um esqueleto que representava Fábio Carille, ex-treinador do Corinthians. Foto: Reprodução.

Treinador é demitido? Reclamam da falta de tempo para o trabalho, mas adoram criar dúvidas a respeito da atuação de determinado técnico quando ele está pouco tempo no clube. Questionam o comando de um treinador em relação ao seu grupo, mesmo que não estejam aprofundados no cotidiano dos jogadores e da diretoria. Insinuam que o time quer derrubar o comandante ou que o grupo está desunido – o que pode até ser verdade –, mas também pode ser falta de assunto e necessidade de caçar views.

Tem entrevista ? É ridícula a atitude de alguns repórteres que tentam encontrar frases polêmicas ou distorcer falas devido à necessidade de criar polêmica por causa da exigência de informações, além do desespero em ocupar o tempo dos vários programas de debate em um mesmo dia com os “mais variados assuntos”.

Como a imprensa esportiva pode exigir ética dos clubes desse jeito?

As críticas não são para ofender todos os profissionais, mas sim questionar algumas atitudes de certos jornalistas e empresas. É hora de determinados veículos e influenciadores da imprensa esportiva reconhecerem seus erros para que não fiquem cobrando dos outros a seriedade e a credibilidade que eles mesmos vêm se esquecendo de ter.