08.1

Copa 2014: lições a partir da Copa América da Venezuela

Paulo Miranda Favero

A Venezuela tem o beisebol como seu esporte mais popular. Mas o país sabe que não pode ignorar o esporte mais popular do mundo. Entre junho e julho de 2007, a Copa América foi realizada naquele país. Contou com todas as seleções pertencentes à Conmebol, além de Estados Unidos e México. Primeiramente, é preciso entender a realização da Copa América em um país que não gosta de futebol – e também tirar algumas lições que podem ajudar o Brasil para organizar a Copa do Mundo de 2014. Além do beisebol, basquete, vôlei, rúgbi e boxe também são esportes comuns na rotina do venezuelano. A principal intenção foi popularizar o futebol no país e o interesse na Copa América foi mais por ser um evento esportivo grandioso do que pelo esporte e si. E, claro, por ser também um grande negócio.

Pensando nas questões de geopolítica, o presidente Hugo Chávez fez de tudo para conseguir um uso político da competição. Todas as cidades-sede passaram por processos de mudanças na infra-estrutura, cartazes com propagandas do governo eram vistos nas ruas e nos estádios e material político sobre o Socialismo Bolivariano foi distribuído para a imprensa estrangeira. Estava claro que a tentativa era usar o futebol como forma de popularizar o regime chavista.

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Cartaz com o governador do estado de Anzoátegui, na Venezuela. Foto: Paulo Favero.

Uma situação curiosa foi ver um banner do governador Tarek William Saab, do estado de Anzoátegui, que foi sede do Brasil na primeira fase da Copa América. Ele é muito amigo de Chávez, que o chama de “O Poeta da Revolução”. Tarek tinha fotos espalhadas por todos os lados e declarou: “Minha aprovação (pela população) é de 60%. Depois da Copa América, vai passar dos 70%”. O banner abaixo ilustra bem o uso político do torneio.

Além do uso político, era nítida a intenção de usar a Copa América como negócio. Em alguns estados, a intenção era usar a competição para colocar a Venezuela no mapa turístico do mundo. Muito dinheiro foi envolvido para dar um padrão “europeu” para a competição, principalmente para os campos de jogo. O torneio contou com transmissão para 186 países (em três idiomas – espanhol, português e inglês) e público acumulado de 4 bilhões de pessoas para assistir aos jogos. Com o convite para os Estados Unidos participarem do torneio, o evento teve uma inserção no mercado norte-americano. No total, mais de 4 mil profissionais de imprensa estavam envolvidos na cobertura jornalística.

Para conseguir realizar a Copa América, a Venezuela teve de construir dois novos estádios e remodelou outros sete. Os gastos foram superiores a US$ 500 milhões para as obras dos estádios e todos foram considerados de nível europeu. Houve uma disputa política para ver quem seria sede de partidas importantes, mas a concentração das sedes ocorreu na parte norte do país. Apesar do esforço, muitas obras estavam inacabadas durante a competição e os políticos fizeram a promessa de que espaços (estádio, campos de treinamento) serão usados para escolinhas de futebol para crianças carentes.

Algumas coisas interessantes podem ser relatadas pensando numa comparação com nosso País. A principal delas, grande diferencial em relação ao Brasil, é que a paisagem venezuelana apresenta poucos campos de futebol. Outro diferencial é em relação ao tratamento do torcedor. Apesar da venda problemática de ingressos, havia uma grande quantidade de bilhetes a preços populares e as tevês estatais transmitiram todos os jogos.

A ideologia chavista estava em toda parte, como já colocado. Inclusive em detalhes nos próprios estádios. Em Maracaibo, palco da final da Copa América entre Brasil e Argentina, as paredes estavam pintadas com desenhos de Che Guevara e Simon Bolívar, conforme imagens abaixo:

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Pinturas na parede do estádio de Maracaíbo, palco da final da Copa América 2007. Foto: Paulo Favero.

Ao final da competição, o presidente da FIFA, Joseph Blatter, elogiou a organização do torneio e prestigiou a decisão da Copa América. Sinal de status para a Venezuela e para a Confederação Sul-Americana de Futebol. Aliás, para o projeto geopolítico da Conmebol, isso é fundamental. Assim como o convite para México e Estados Unidos. Outro fator importante é que o torneio foi realizado em ano diferente da Eurocopa, a principal competição de seleções da Europa. Mas a Copa América é o torneio de seleções mais antigo do mundo e uma excelente vitrine para mostrar o talento dos sul-americanos, ou seja, para a exportação de atletas. Milhares de empresários de jogadores estavam na Venezuela para tentar fazer negócio.

Até o presidente da Fifa pediu que as outras seleções olhassem para a Copa América como o exemplo de futebol bem jogado, que se mirassem no futebol ofensivo que foi apresentado na competição. Joseph Blatter até elogiou a final entre Brasil e Argentina: “não apenas deslumbraram os espectadores presentes no estádio, mas também a centenas de milhões de telespectadores, provando o valor do futebol sul-americano no mundo todo”. Mesmo assim, no futebol globalizado, Brasil e Argentina continuarão exportando seus melhores atletas e os jogadores da Seleção Brasileira não terão identificação com a torcida, pelo fato de fazerem suas carreiras fora do país. E o caso da Venezuela serve de aprendizado, tanto erros quanto acertos, para um País que será sede da Copa do Mundo de 2014.

Bibliografia
COSTA, Wanderley Messias da. Geografia Política e Geopolítica. Tese de Doutorado, São Paulo, 1990.

MASCARENHAS, Gilmar. A bola nas Redes: Futebol, Território e Conectividade no Brasil. Trabalho de Pós-Graduação, Rio de Janeiro, 1999.

VESENTINI, José William. Imperialismo e Geopolítica Global. São Paulo: Papirus, 1990.

 

Como citar

FAVERO, Paulo Miranda. Copa 2014: lições a partir da Copa América da Venezuela. Ludopédio, São Paulo, v. 08, n. 1, 2010.