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Copa 2018: multiculturalismo 3 vs nacionalismo 1

Hilário Franco Junior

Sendo a Copa uma síntese do mundo, como propusemos em outros textos, a edição recém-terminada na Rússia confirmou dados antigos, ofereceu novos ensinamentos e apontou para tendências sugestivas. Uma delas, minimizada até agora pela sociologia do futebol, é a relação entre futebol, demografia e multiculturalismo. No Brasil, sobretudo, esse debate parece ser evitado, et pour cause.

De um lado, é evidente que nos países onde o futebol está implantado há muito tempo, quanto maior a massa crítica de praticantes do esporte, maior a quantidade possível de bons jogadores. A questão não é, claro, meramente quantitativa, se não a China com 26 milhões de praticantes e os Estados Unidos com 24, estariam melhor posicionados que, por exemplo, a Alemanha com 16 e o Brasil com 13. Pesa, e muito, o espaço cultural ocupado pela modalidade e o reconhecimento social dado aos seus praticantes. Portanto, o tempo e o esforço que eles dedicam a isso.

Apesar de certa verdade contida no clichê de que dentro de campo são onze jogadores contra onze, não se pode abstrair do contexto do qual eles emergem. Os onze são apenas a ponta de um iceberg, cujo tamanho faz muita diferença. Nos cenários futebolísticos em que a entrega é grande por parte dos atores e do público, quanto maior a população envolvida, maior a probabilidade estatística de surgir uma elite de jogadores acima da média mundial.

O que não significa que pequenos países não possam revelar grandes jogadores, aí estão Cristiano Ronaldo, Modric, Hazard ou Cavani para nos lembrar disso. Mas a opinião pública brasileira, alimentada pela imprensa, continua a insistir que somos um milagroso viveiro de craques, mesmo se – para ficarmos com a Copa 2018 – não temos mais uma dupla de meio-campistas do nível de Rakitic-Modric (e a população da Croácia é de somente 4 milhões), nem uma dupla de ataque como Suarez-Cavani (e o Uruguai tem pouco mais de 3 milhões de habitantes).

França Bi Campeã do mundo. Foto: RFS RU.

Pogba e Mbappé posam com a medalha de Campeão do Mundo. Foto: RFS RU.

De outro lado, mais esclarecedor e mais descurado, está o peso que ocupa o multiculturalismo no rol histórico de jogadores excepcionais – dos negros Leônidas e Pelé, aos mamelucos Garrincha e Maradona, passando pelos mulatos Friedenreich e Ronaldo Fenômeno, pelo judeu Cruyff ou pelo franco-argelino Zidane – nesse esporte inventado e durante décadas monopolizado por brancos. Se as vantagens culturais e econômicas da miscigenação ainda estão por provar, ao contrário do que defendem os adeptos do politicamente correto, elas são inegáveis no campo esportivo. Ela parece potencializar as qualidades atléticas e a habilidade motora daqueles indivíduos. Não se trata, porém, nunca é demais insistir, de lei biológica, apenas de tendência estatística, como comprovam nos últimos anos Messi e Cristiano Ronaldo, e nas últimas décadas o fato de 52 ganhadores da Bola de Ouro, entre 61, terem ascendência apenas europeia.

Todavia, é inegável que os afrodescendentes são bem dotados para os esportes. Ainda que não se possa deixar de lado as variáveis socioeconômicas: modalidades individuais de menor custo de formação e treinamento permitem que negros e mestiços nelas se destaquem, como no atletismo e no boxe. O inverso ocorre nas modalidades mais elitizadas, por implicarem maior investimento per capita, caso da natação, do tênis (onde Serena Williams é uma exceção) e do golfe (no qual Tiger Woods foge à regra). Mas é nos esportes coletivos que parece melhor se manifestar seu rico capital genético, como indicam o basquete e o futebol norte-americanos e, naquilo que interessa aqui, o futebol de origem inglesa.

Dito de outra forma, o “viveiro brasileiro” sempre dependeu do cruzamento dessas duas variáveis, a demográfica e a étnica. Na primeira delas não teremos concorrência nas próximas décadas, continuaremos a ser o país futebolista de maior população, até que, talvez, China, Estados Unidos ou algum país africano nos alcance no interesse consistente dedicado ao futebol. Mas na segunda variável a mudança já é visível. Dos quatro primeiros colocados na Copa 2018, três apresentaram seleções etnicamente variadas, com cerca de metade dos times titulares sendo composta de belgas, franceses e ingleses de ascendência africana recente, não mais que duas ou três gerações.

Comprovando a inegável tendência cosmopolita do futebol atual, na Copa da Rússia participaram 82 jogadores nascidos em países diferentes daqueles que representaram na competição. E ao contrário do persistente (entre nós) rumor que todas seleções gostariam de ter jogadores brasileiros, apenas 5 estiveram nessa Copa defendendo outros países. Número bem diferente do da França, que além dos 23 franceses inscritos pelo próprio país, contou com 29 outros nascidos e formados futebolisticamente ali e que optaram por atuar pela seleção do país de seus antepassados. A comparação pode ser estendida a um período mais largo: das Copas de 2002 até a de 2018, atuaram em várias seleções 216 franceses e 148 brasileiros. Diferença que se torna mais significativa se considerarmos que a população francesa é três vezes menor que a brasileira.

Tudo indica que nesses últimos anos estejamos assistindo a uma inflexão na história do futebol, a um nivelamento em parte decorrente da globalização e da imigração. Isso fica patente na forma de jogar, com a Copa recém-terminada não tendo colocado frente a frente estilos nacionais, e sim um estilo universal baseado na evitação do erro e na esperança de um ou outro lance bem realizado. Em especial de bola parada, como foi metade dos gols da partida final. No total da competição, dos 167 gols marcados, 73 (ou seja, 43% deles) decorreram de pênaltis, faltas diretas, faltas cruzadas para a área, arremesso lateral e escanteios. Neste último caso, 22 – 13% do total; grosso modo, a cada trinta escanteios, um resultou em gol. Tal propensão é nítida na seleção da Inglaterra, quarta colocada, dona de uma boa geração (talvez melhor do que aquela campeã do mundo, em 1966), mas que pouco conseguiu fazer gol de jogo jogado: dos 12 realizados, 9 (isto é, dois terços do total) foram de bola parada.

Logo depois da fase de grupos da Copa, começou a circular nas redes sociais uma foto do time francês com apenas dois brancos, e acima a legenda “França, único país africano que resta no Mundial”. A seguir vinham os nomes de doze jogadores do elenco e entre parênteses os países africanos (num total de 9) de origem de suas famílias. Dos 14 jogadores usados pelos Bleus na partida final, somente cinco eram brancos. Por ser relativamente recente, o fenômeno chama atenção e propicia o tom pejorativo daquela mensagem.

França Bi Campeã do mundo. Foto: RFS RU.

França Bi Campeã do mundo. Foto: RFS RU.

Na Copa de 1938, realizada na França, a imprensa e os torcedores locais ficaram impressionados com os mestiços e negros brasileiros, sobretudo Leônidas, artilheiro do torneio. Vinte anos depois, a França exaltou o miscigenado time brasileiro de Didi, Garrincha, Vavá e Pelé, que a goleou na semifinal da Copa da Suécia. Quarenta anos mais tarde, como resultado da intensa imigração começada na década de 1970 e proveniente sobretudo de ex-colônias francesas, o cenário foi outro. Na Copa de 1998 a seleção francesa alinhou descendentes de antilhanos, argelinos, armênios, ganeses, guadalupenses, polinésios e senegaleses, e na final venceu o Brasil por 3 a 0. A “africana” seleção francesa campeã em 2018 faz parte dessa tendência sociológica.

E que não é apenas francesa. Se do quarteto final apenas a boa seleção da Croácia não é multiétnica, é por se tratar de país novo (com a configuração atual surgiu em 1991, ao se separar da Iugoslávia), de território pequeno e sem passado colonialista. Diferente da Bélgica, bom exemplo da repercussão imigratória sobre o futebol, pois no 4º lugar alcançado na Copa de 1986 o time foi completamente caucasiano, o 3º lugar nessa de 2018 foi alcançado com um grupo que aos europeus de souche mesclaram-se nove elementos de ascendência africana (sete negra, dois magrebina), havendo no time titular cinco jogadores com sangue não europeu. O mesmo acontece com a Inglaterra, desde a década de 1980 destino de vagas imigratórias procedentes de seu vasto e antigo império colonial.

Enfim, o futebol europeu parece ter hoje uma clara linha divisória: de um lado, países que se africanizam no campo de jogo e aperfeiçoam a estrutura empresarial ocidental (o contrato televisivo do mediano campeonato francês renderá nos próximos três anos mais de um bilhão de euros por temporada); de outro, países que recorrem quase exclusivamente a jogadores nacionais (algumas vezes de qualidade, como no caso da Croácia) e conservam uma estrutura arcaica, geralmente corrupta (o presidente do maior clube croata e vice-presidente da federação local pouco antes da Copa fugiu depois de desviar milhões de seu clube). Foram essas duas realidades que se encontraram na final de Moscou.

Falar de forma irônica na França “africana” pode acalmar temporariamente a desilusão (mais uma) brasileira, mas não muda os fatos. Ademais, poder-se-ia perguntar, o futebol francês é mais africano que o brasileiro? Se o material humano dentro de campo apresenta raízes assemelhadas e produtos comparáveis, o que pode fazer a balança pender mais para um lado do que para outro é a organização. E nesse quesito…