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Copa América 2019: a “elitização” das arquibancadas

Gabriel Sulino Martins

Em jogos ao longo desta Copa América notamos muitos estádios com um público escasso, sendo uma das principais reclamações para essa situação: os preços dos ingressos. Verificamos nas arenas um público consumidor diferente, trazendo uma nova prática do torcer. Torcendo na maioria dos 90 minutos e acréscimos, sentados em cadeiras, aplaudindo as jogadas, etc. Diferente de climas em outros jogos, nos quais a torcida entoa cantos, permanece em pé na maioria do tempo, emite xingamentos, entre outros. Um dos fatores para a mudança de público consumidor desse acontecimento é “arenização”, proporcionando preços dos ingressos com variações entre 60 reais e 890 reais.

O aumento dos ingressos veio com a construção das arenas padrão FIFA (Federação Internacional de Futebol) para a Copa do Mundo de 2014 no Brasil, enviesando um êxodo de certo perfil de consumidor dos estádios no Brasil. Para Lopes e Hollanda (2017), com a “arenização” há uma radical mudança na experiência do torcedor, tendo como consequência uma transformação social do público. Consequentemente, a elitização corrompe um modo de torcer, causando o fim da autenticidade de torcer, caindo em um padrão. Esse modelo de prática de torcer é incorporado e reproduzido dentro das arenas, além de ter uma alta nos preços dos ingressos.

Observamos na Copa América de 2019 um tipo de torcedor, aquele(a) que não está habituado à prática do torcer. Como resultado, em vários jogos notamos estádios “vazios”, em confrontos como: Peru x Venezuela, Paraguai x Qatar, Uruguai x Equador, Brasil x Bolívia e assim por diante. Mas, também, a mudança de perfil de consumidor é condizente com uma nova atmosfera própria deste novo espaço: as arenas. Mas o que são as arenas? Diferente dos estádios clássicos, as arenas não apresentam as gerais – lugares em que indivíduos acompanhavam os jogos em pé próximos ao gramado –, são de caráter variável, podendo acoplar cinemas, museus, restaurantes, shows, lojas oficiais, etc. Por exemplo, na cerimônia de enceramento da Copa América, no qual Anita e Pedro Capó efetuaram um dueto, além de toda a performance demostrada ao longo do espetáculo, logo após aconteceu a final entre Brasil e Peru. Isto é uma forma de demostrar como funciona as arenas.

Maracanã vazio na partida Bolívia e Peru pela Copa América 2019. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil.

Seguindo esse raciocínio, vemos razões que transformam o futebol em uma mercadoria consumida e destinada a indivíduos que compõem certas classes sociais, alta e média. O consumo é proporcionado por toda uma indústria do entretenimento – o futebol não foge disse –, sendo reflexos de uma sociedade de classes. Quando observamos o público atual na Copa América e o comparamos ao de outras competições antes da construção das arenas, como o da Libertadores, notamos uma mudança de comportamento, fruto dessa (res)significação do espaço. Indo mais fundo, Lopes e Hollanda (2017) afirmam que há uma “higienização social” reproduzida dentro das arenas.

Consequentemente, há uma expulsão da classe baixa com a criação das arenas, como das torcidas organizadas. Esta (res)significação do público foi exposta na Copa América de forma mais explícita que em outros jogos. Os torcedores se assemelham nestas circunstâncias a espectadores em uma peça de teatro, dado a uma nova dinâmica do torcer, causada por uma elitização do público torcedor. Proporcionalmente à “higienização social” no campo das torcidas, o aumento considerável dos preços dos ingressos é fator que deve ser pensado. Bom, lembremos como uma frase citada pelo ex-presidente do Atlético Mineiro reflete bem este contexto: “Futebol não é coisa para pobre”.

Bom para pensar. O futebol, como esporte de massa e democrático, é praticado e consumido por indivíduos de diferentes classes sociais, raças e etnias. Os cartolas estão mudando esse paradigma com a introdução de um novo modelo de gestão, e isso vem acontecendo desde a Copa do Mundo de 2014 até o atual momento, e ficando cada vez mais nítida a “higienização social”. Atualmente, vimos que tipo de público frequentava os espaços na Copa América. Cabe ao leitor pensar um pouco: quem são estes? É o trabalhador assalariado que ganha um salário mínimo por mês que foi ao estádio nesta competição prestigiar o espetáculo? Acredito que não. Realmente, essa (res)significação da prática do torcer é legitimada por um mercado que está cada vez mais se afirmando no universo do futebol.

Público sentado durante Brasil e Venezuela pela Copa América 2019. Foto: Lucas Figueiredo/CBF.

Pensemos um pouco, quais razões levaram a Confederação Sul-Americana de Futebol (CONMEBOL) a escolher o Brasil como sede da Copa América. Primeiramente, voltemos ao mercado. Qual é a economia que está em melhor momento na América Latina? Em que país se tem um maior número de arenas no Continente? O Brasil, é claro. Mas chegando ao ponto em questão, como passar uma imagem “positiva” em relação à prática do torcer, depois do que aconteceu na final do ano passado da Copa Libertadores da América 2018? Mudando o perfil do torcedor, aumentando o preço dos ingressos, que reflete na ida de um público de classe média e alta aos jogos da competição. É claro, com esse novo espaço, também se muda o modo do torcer. Digamos, esse molde do torcer representa muito mais a Europa que a América do Sul. Mas por que estou dizendo isso? Basta prestar atenção ao público pagante e não pagante, e reprisar alguns jogos e depois comparar com jogos cujo preço dos ingressos era baixo. Com isso chegamos ao clímax de onde quero chegar, e farei uma última questão: qual imagem a CONMEBOL quer passar? Na Copa América de 2019, se assemelhou muito com a Euro – competição referente ao continente europeu –, reafirmando um padrão do torcer, como outros aspectos: sensação de estar em um shopping, teatralização da prática do torcer, com muitos torcedores na maioria do tempo permanecendo sentados, não criando uma guerra mimética entre torcidas para ver qual canta, vibra e apoia mais o seu time. Tudo isso proporcionou uma imagem diferente daquela da final da Copa Libertadores da América de 2018, entre River Plate e Boca Juniors, em Buenos Aires, capital da Argentina. Podendo atrair novos empresários que podem associar sua marca à entidade do futebol/empresa, além de melhorar também a da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Atraindo esses investidores, se pode gerar um maior investimento e posteriormente lucro.

Por fim, o futebol hoje cria um novo paradigma embasado em um perfil de consumo, comércio e lucro. Esse sistema de valores proporciona uma nova concepção do torcer, (res)significado através de um processo histórico dentro da sociedade, e representado na Copa América de 2019, resultando na “elitização” do futebol como espetáculo e comércio.

Referências

LOPES, Felipe Tavares Paes; HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de. “Ódio eterno ao futebol moderno”: poder, dominação e resistência nas arquibancadas dos estádios na cidade de São Paulo. Tempo, Niterói, v. 24, n. 2, p. 206-232, ago. 2018.