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Cenas políticas de um Mundial – A Copa da Rússia e o universo dos Bálcãs

Elcio Loureiro Cornelsen

A Copa da Rússia chegou ao fim no último domingo e já deixa saudades por ter estabelecido uma nova ordem mundial no universo da bola. Seleções tradicionais como a Itália e a Holanda ficaram de fora da festa, as tradicionais como a Alemanha e o Brasil deixaram a desejar, a primeira, aliás, em uma campanha pífia, nada condizente com aquela seleção vitoriosa de 2014, ou mesmo da Copa das Confederações em 2017; a segunda não se deixava reconhecer em boa parte da cobertura da mídia brasileira ao longo do torneio, que se esforçava em produzir um favoritismo e um brilhantismo apagado pela opacidade do momento atual do futebol no país.

Sem dúvida, um dos aspectos que marcaram a Copa da Rússia, talvez o principal deles, foi o político. Mais uma vez, os Bálcãs, região localizada no Sudeste da Europa, esteve em voga. Sua presença, no campo desportivo, foi marcada por duas seleções: a da Sérvia e a da Croácia. Enquanto a primeira, que integrava o Grupo E juntamente com Brasil, Costa Rica e Suíça, não passou da primeira fase do torneio, a segunda mediu forças na primeira fase com as seleções da Argentina, da Nigéria e da Islândia. Os comandados do técnico Slatko Dalić foram longe na competição, bateram a seleção da Dinamarca nas oitavas de final, a da Rússia nas quartas de final e a da Inglaterra na semifinal, todas as partidas, aliás, disputadas e vencidas nos pênaltis, após prorrogação. O capítulo final dessa trajetória foi escrito no domingo passado, 15 de julho de 2018, com uma derrota para a forte seleção francesa pelo placar de 4 x 2, mas que não chegou a ofuscar o brilho de uma seleção que surpreendeu, e que tem craques como Luka Modrić (Real Madri), Ivan Hakitić (Barcelona) e Mario Mandžukić (Juventus).

Todavia, se o assunto é política, pelo menos, mais duas nações da Península Balcânica ganharam as manchetes por conta da Copa da Rússia – a Albânia e o Kosovo. Um jogo carregado de simbologia política, que reverberou os antigos conflitos nos Bálcãs, reuniu as seleções da Suíça e da Sérvia. Naquela partida, disputada em 22 de junho de 2018 pela primeira fase da Copa, os conflitos entre a Sérvia, o Kosovo e sua aliada geopolítica Albânia se fizeram presentes dentro e fora do gramado: do lado de fora, nas arquibancadas, alguns torcedores sérvios usavam camisetas alusivas ao conflito fratricida nos Bálcãs; dentro de campo, a seleção suíça, marcada por seu caráter multiétnico, integrava jogadores de origem kosovar-albanesa: os meias Granit Xhaka (Arsenal), Valon Behrami (Udinese) e Xherdan Shaqiri (Liverpool), cujas famílias buscaram refúgio na Suíça para fugir da guerra civil que assolou a ex-Iugoslávia durante a década de 1990, marcada por massacres, crimes de guerra e todo tipo de violação de Direitos Humanos, sobretudo na Bósnia e no Kosovo, ambos de maioria muçulmana, e o último de etnia albanesa.

Mesmo antes do início do Mundial, o craque suíço Shaqiri já havia anunciado no Instagram que usaria na Copa da Rússia um par de chuteiras com emblemas da Suíça no calcanhar do pé esquerdo e do Kosovo, no calcanhar do pé direito. Tal fato gerou discussão e polêmica nas Redes Sociais, mesmo antes de as seleções da Suíça e da Sérvia se defrontarem. Cabe lembrar que o Kosovo, uma província autônoma da Iugoslávia e que se tornou território sérvio após a guerra civil, declarou sua independência em 2008, não reconhecida até a presente data pela própria Sérvia, com fortes laços históricos na região, e por países como a Rússia e o Brasil, mas que conta com o apoio de mais de 100 nações, e que foi reconhecido pela FIFA em 2016.

Não obstante o fato de a FIFA, entidade máxima no âmbito do futebol, vetar esse tipo de manifestação política em competições, Shaqiri cumpriu a promessa e exibiu suas chuteiras já na estreia da seleção suíça na Copa, em jogo disputado contra a seleção brasileira no dia 17 de junho, em partida polêmica não por aspectos políticos, mas sim pela atuação da arbitragem.

Retomemos a partida Sérvia x Suíça, disputada em 22 de junho de 2018 no estádio em Kaliningrado – o placar final da partida foi 2 x 1 para a equipe suíça, com gols assinalados no segundo tempo pelos meias Shaqiri (90’) e Xhaka (52’), e o tento sérvio marcado por Aleksandar Mitrović (5’). O que aos olhos dos desavisados poderia ser mais uma coreografia “inocente” de jogadores ao comemorarem seus gols ganhou contornos autênticos de um incidente de Estado: ambos fizeram o gesto de uma águia de duas cabeças batendo asas, ao juntar os polegares de ambas as mãos e as moverem para criar a imagem do pássaro, símbolo remoto de impérios e nações, que ainda exibe sua força nos dias de hoje, nos mais variados estandartes nacionais. Com seu gesto, os filhos de refugiados, movidos por uma memória herdada de gerações, em meio a sentimentos identitários de nacionalidade e de ressentimentos assentados em conflitos seculares sangrentos, lembraram o brasão da águia da bandeira albanesa.

Shaqiri e a águia albanesa

Shaqiri e a águia albanesa. Arte: Emilio Sansolini.

Cabe lembrar que, entre os países localizados na Península Balcânica, figuram, entre outros, Bósnia e Herzegovina, Eslovênia, Croácia, Sérvia, Montenegro e Macedônia, Kosovo e a província autônoma da Voivodina. Juntos, formavam a República Socialista Federal da Iugoslávia. Com sua desintegração no processo que lançou o país numa sangrenta guerra civil de 1991 a 1995, uma das então províncias autônomas vinculadas à Sérvia, o Kosovo, reivindicou sua independência. A tensão escalou na região em 1998, gerada pelo conflito armado envolvendo tropas da Sérvia e do Exército de Libertação do Kosovo (ELK), grupo de guerrilha integrado por soldados kosovaros de origem albanesa. Somente com a intervenção de tropas da OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte que atacaram alvos sérvios obrigando a retirada de suas tropas do território do Kosovo, o conflito armado chegou ao fim.

Assim, de volta à partida da Copa, os gestos de Shaqiri, que nasceu no Kosovo, e de Xhaka, suíço nascido na Basileia, cujos pais são kosovar-albaneses, afrontaram torcedores sérvios e russos, em nome de outro país do que aquele que eles ali defendiam – a Suíça. A aliança entre Albânia e Kosovo se deve ao fato de a maioria da população da ex-província iugoslava e sérvia ser de origem albanesa, de modo que, com o processo de esfacelamento da Iugoslávia na década de 1990, a maioria muçulmana se identificava com a Albânia, e não com a Sérvia cristã-ortodoxa.

Por sua vez, toda vez que tocavam na bola os jogadores suíços de origem kosovar-albanesa eram vaiados por torcedores sérvios. Inclusive, em imagens postadas nas redes sociais constatou-se que alguns torcedores sérvios exibiram camisetas com a imagem estampada de Ratko Mladić, ex-general sérvio cuja alcunha de “carniceiro da Bósnia” bem define um dos genocidas condenados pelo Tribunal Internacional à pena de prisão perpétua pela condução de massacres contra muçulmanos entre 1992 e 1995, comandante do Massacre de Srebrenica em julho de 1995, que vitimou mais de 8 mil muçulmanos bósnios.

Para os jogadores suíços, o saldo de seus gestos foi uma multa de 10 mil francos suíços, equivalente a 38 mil reais aplicada pela FIFA, e a Federação Sérvia também foi multada em soma equivalente a 206 mil reais pelo comportamento inadequado de parte de sua torcida nas arquibancadas do estádio em Kaliningrado. Em apoio ao gesto dos jogadores suíços de origem kosovar-albanesa, dias após a polêmica partida e à divulgação das multas aplicadas pela FIFA, o Governo do Kosovo lançou uma campanha de arrecadação para saldar a multa dos atletas, chegando a arrecadar milhares de euros em poucos dias.

Aliás, houve ainda outro incidente polêmico envolvendo a região dos Bálcãs: as declarações do zagueiro croata Domagoj Vida e de Ognjen Vukojevic, ex-jogador e integrante da comissão técnica da seleção da Croácia, em um vídeo na Internet, após a Croácia ter derrotado nos pênaltis a seleção anfitriã pelas quartas de final. No vídeo, gravado logo após o final da partida, juntamente com Vukojevic, Vida profere a frase “Slava Ukrayini” (“Glória à Ucrânia”), em ucraniano, numa visível provocação aos adversários derrotados. Após gerar polêmica, Vida argumentou que seu ato teria sido meramente uma homenagem aos amigos do Dínamo de Kiev, clube ucraniano que defendera de 2013 a 2018, e não uma tomada de posição no conflito russo-ucraniano pela possessão da Península da Criméia.

Assim como no caso de Shaqiri e Xhaka, que despertaram simpatia entre korovaros e albaneses por seus gestos, Vida e Vukojevic, que foi seu companheiro de clube no Dínamo de Kiev, angariaram apoiadores entre os ucranianos ao proferirem o slogan “Glória à Ucrânia”, que manifestaram seu agradecimento ao zagueiro do Beşiktaş em frente à embaixada da Croácia na capital ucraniana. Enquanto Vukojevic foi descredenciado da comissão técnica da Croácia e teve de retornar a seu país, Vida seguiu na competição e sagrou-se vice-campeão mundial.

Em um segundo vídeo divulgado na Internet e igualmente gravado logo após a partida envolvendo Croácia e Rússia pelas quartas de final da Copa, desta feita, Vida aparece sozinho, repete o slogan “Glória à Ucrânia” e completa com a frase “Belgrado pegando fogo!”. A referência pejorativa à capital da antiga Iugoslávia e, atualmente, da Sérvia, expressa a herança política tensa e o ressentimento que envolvem, ainda em dias atuais, esses países. Além disso, a Sérvia tem uma relação histórica e étnica com a Rússia, o que possibilitou tal declaração de Vida ao provocar ambos os países e causar indignação entre políticos russos.

Fato é que o slogan “Glória à Ucrânia” também é associado ao ultranacionalismo de direita e tem uma longa história, remontando aos anos 1930, na então União Soviética sob o domínio de Stalin, como palavra de ordem contra o Comunismo, veiculada pela Organização dos Nacionalistas Ucranianos, partido de extrema direita simpatizante do nazi-fascismo. E isto nos faz recordar de outro episódio de 2013, envolvendo o zagueiro Josip Šimunić, então capitão da seleção da Croácia, após a vitória pelo placar de 2 a 0 contra a Islândia, que deu a classificação à equipe croata nas Eliminatórias para a Copa no Brasil, disputada no ano seguinte. Ainda no gramado, juntamente com torcedores, Šimunić fez saudações fascistas e entoou diversos cânticos de exaltação à Ustaša – Movimento Revolucionário Croata (Hrvatski Revolucionarni Pokret), partido e organização paramilitar de tendência fascista e nacionalista. Por seu ato, o jogador recebeu uma punição de 10 jogos, o que o tirou da Copa.

O auge de atuação da Ustaša foi alcançado com a ocupação da Iugoslávia em abril de 1941 por tropas nazistas, que contaram com o apoio de suas milícias. Naquela oportunidade, o partido reivindicou a independência da Croácia frente à Iugoslávia, alcançada quatro dias após o início da invasão, quando Hitler autorizou a criação do Estado Independente da Croácia sob o governo da Ustaša, fazendo com que os integrantes da Wehrmacht fossem recebidos na capital Zagreb com muita festa, como se fossem “libertadores”.

Aparentemente, pode-se deduzir da própria história da formação da Croácia e de suas lutas pela independência que a falta de um posicionamento crítico por parte de nacionalistas de extrema direita, até nossos dias, faz com que slogans e cânticos fascistas sejam entoados, despertando em muitos os fantasmas do passado.

Interessante em todas essas polêmicas geradas durante a Copa da Rússia, de afirmação de identidades étnicas e de negação de alteridades, é que parecem estar na contramão de uma tendência do século XXI que é, justamente, revelar fronteiras porosas e sociedades multiétnicas, mesmo que nestas ainda grassem xenofobia, discriminação e violência contra minorias. Se o Estado Nação se afirmava nas últimas décadas do século XIX, com a formação de Estados “tardios” como a Alemanha (em 1871) e a Itália (em 1861), com a “Conferência de Berlim” (1884-1885) e a “partilha” do continente africano entre as nações europeias – Grã-Bretanha, França, Bélgica, Alemanha, Itália, Portugal e Espanha –, e foi um dos propulsores de duas guerras mundiais e de tantas outras guerras ao longo do século XX, os desdobramentos do fim da União Soviética e da Iugoslávia, e da consequente reorganização geopolítica da Guerra Fria, parecem ter dado sobrevida ao Estado Nação, mesmo que este, por diversas vezes, tenha se revelado em toda sua falência.

Um aspecto fica como saldo dessas polêmicas: o fato de o futebol ser um âmbito onde as latências e os ressentimentos político-sociais e históricos se expressam com toda sua força.