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Copa de 1938: a nação entra em campo

Plínio Labriola Negreiros

Em um contexto no qual o futebol vivenciava a transição entre a prática semiamadora e a profissional, geradora de muitas tensões, a presença brasileira na Copa de 1938, na França, provocou uma série de transformações dentro do futebol, principalmente no que se refere às suas relações com a sociedade. Abriu-se uma nova etapa para o futebol no Brasil. Para alguns contemporâneos, como o sociólogo Gilberto Freyre, naquele momento nascia o futebol brasileiro em substituição ao futebol do Brasil.

De forma inédita, o poder público, nas suas várias esferas, assumiu a condição de decisivo apoiador da delegação de futebol. De forma geral, os caminhos do selecionado já não cabiam apenas à entidade organizadora nacional do esporte bretão, mas cada brasileiro deveria sentir-se responsável pelo desempenho de toda a equipe. Era como se a nação brasileira estivesse para ser testada em terras europeias.

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Martim Silveira, capitão brasileiro, antes do início do jogo contra a Polônia. Foto: Reprodução.

Defendendo as cores do Brasil

Nos anos 1930, havia um cuidado, não apenas brasileiro, com o reforço da identidade nacional. Preocupava-se com a transformação dos brasileiros numa raça forte, esta forjada, essencialmente, no campo do esporte e das práticas físicas. Ao mesmo tempo, muitas vezes com mecanismo sutis, cabia especificamente ao futebol legitimar a ordem estabelecida em 1930, em constante reelaboração. Cabia ao futebol, o esporte mais popular, funcionar como um fator de coesão nacional. Nesse sentido, é recorrente as cores nacionais coincidirem com as cores do selecionado de futebol, como ocorre no Brasil. Trata-se, da “pátria de chuteiras”, conforme definição de Nelson Rodrigues.

Nesse sentido, é muito sugestiva as memórias, presentes na obra Nações e nacionalismo desde 1780, do historiador Eric Hobsbawm, que “se lembra quando ouvia nervoso, à transmissão radiofônica da primeira partida internacional de futebol entre a Inglaterra e a Áustria, jogada em Viena em 1929, na casa de amigos que prometeram descontar nele se a Inglaterra ganhasse da Áustria, o que pelos registros, parecia bastante provável. Como o único menino inglês presente, eu era Inglaterra, enquanto eles eram Áustria. (Por sorte a partida terminou empatada.) Dessa maneira crianças de doze anos ampliavam o conceito de lealdade ao time para a nação.”

Assim, diante da disputa da Copa de 1938, havia interesses difusos, mas claros e objetivos, em relação à preparação e ao desempenho dos jogadores brasileiros no torneio mundial. Era necessário superar os fiascos de 1930, no Uruguai e 1934, na Itália, mesmo que já contassem com o apoio governamental. Era um contexto diferente, já em pleno Estado Novo. As velhas e arraigadas cisões das entidades esportivas brasileiras dariam espaço para uma unidade forjada pela lei e pelo autoritarismo. Como a nação estava em jogo, não podia se repetir os fracassos anteriores.

Mas a minha intenção não é olhar especificamente para as políticas públicas, e sim para o envolvimento da imprensa e da população, especialmente dos torcedores. A nação precisava se preparar, porque o futebol se transformaria na vitrine do Brasil. A leitura dos periódicos da época não revela um evento qualquer e sim um momento da história do país que movimentou pessoas nas mais diversas regiões. São torcedores apaixonados demonstram que nos campos de futebol da França disputava-se muito mais do que um torneio de futebol. Era como se os destinos do Brasil estivessem sendo decididos entre um chute e outro.

A imprensa, ou de parte dela, não se limitou a noticiar, opinar. Ocorreu um sistemático envolvimento dos periódicos, objetivando aproximar os torcedores das questões organizacionais do futebol. Em São Paulo, essa tarefa foi aceita com muita naturalidade pela A Gazeta, que produzia um suplemento esportivo semanal, A Gazeta Esportiva. Assim, no início de abril de 1938, quando a seleção brasileira de futebol já se preparava para disputar a Copa do Mundo na França, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) lançava a “Campanha do Selo”, que imediatamente é apoiada pela Gazeta:

“A ‘Campanha do Selo’, a tão bem inspirada iniciativa, teve um sucesso invulgar, ao se iniciar há dias, no Rio, está quase esgotada a emissão de 100 mil selos. Com essa campanha os afeiçoados podem se interessar diretamente pela viagem da nossa seleção, pois adquirindo um selo o ‘torcedor’ faz sua fezinha de ir também à ‘Taça do Mundo’. É a sorte que designará o feliz afeiçoado que acompanhará a delegação…

Animada com o êxito inicial da ‘Campanha do Selo’, a CBD resolveu emitir outra série de 100 mil selos, a assim na outra emissão outro afeiçoado será sorteado. Quer dizer que irá um ‘torcedor’ para cada 100 mil selos vendidos. Tudo leva a crer que a venda atingirá os 300 mil!

(…)

Melhor iniciativa para interessar os nossos afeiçoados não poderia surgir. Os que adquirirem o ‘selo cebedense’ não só auxiliaram patrioticamente o comparecimento do Brasil na III ‘Taça do Mundo’ como se tornarão, igualmente, candidatos a um lugar na delegação por…500 réis. Assim, enquanto os ‘fans’ gastarão uma quantia tão modesta, a CBD, para cada emissão, arrecadará 50 contos, uma quantia que muito contribuirá para a nossa seleção viajar com maior comodidade, para melhor se hospedar na França, etc. E tudo isso importa na melhor disposição dos nossos ‘azes’ para lutar naquele importante torneio dentro de suas reais possibilidades. Sendo assim, maior será nossa ‘chance’ de vitória. Quanto melhor conforto tiver o ‘XI‘ brasileiro, tanto melhor será a margem que teremos para impor nosso valor.

Adquirir o ‘selo’ não é, pois, somente a esperança própria de se ir à Europa assistir o Campeonato Mundial, como também um ato patriótico para melhor servir o nosso ideal comum de vermos o Brasil atingir o posto supremo no futebol internacional que seria a conquista da ‘Taça do Mundo’!”

No artigo, assinado por Thomaz Mazzoni, o mais importante cronista esportiva paulista da época, há uma ideia recorrente: a seleção precisa do torcedor para vencer na França. Mais: o conforto que seria oferecido à embaixada esportiva do Brasil tinha uma finalidade patriótica, já que as pessoas envolvidas com as atividades esportivas, como algumas autoridades públicas interessadas nessas questões, apontavam para os esportes como o melhor meio de levar a imagem do país para o exterior. Uma equipe vitoriosa mostraria um país organizado, num ritmo acelerado de progresso. Seria, ainda, uma outra maneira de o país adquirir respeito internacional.

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Fac-símile do “selo cebedense”. Prossegue vitoriosa a “campanha do selo”, A Gazeta, 07/04/1938, p.8.

Ao mesmo tempo, na concepção dos organizadores do futebol no Brasil e de parte da imprensa esportiva, não caberia apenas aos torcedores ajudar na participação do selecionado nacional na Copa da França. A diretoria da CBD entendia que o apoio do poder público, assim como do empresariado, era fundamental e justo, já que não se tratava de uma disputa esportiva qualquer. Dessa forma, podemos encontrar nas páginas d’A Gazeta, de 26 de março de 1938, as justificativas para que o apoio material à delegação esportiva brasileira fosse o mais amplo possível:

“O comparecimento do Brasil ao certame do Mundo é o maior cartaz do momento no esporte brasileiro. Deseja-se, de fato, que desta vez o nosso pais atue na ‘Taça do Mundo’ com todas as suas melhores possibilidades. Nenhum esforço está sendo poupado. Deseja-se dar à nossa delegação o maior apoio moral e material possível, para não só ser digna do nosso valor futebolístico nos campos da França, como fazer, na Europa, uma grande e eficiente propaganda do Brasil. (…)”

Em meio a esse processo, os interventores estaduais, a partir de uma provocação da presidência da CBD, nas mãos de um velho aliado do presidente Vargas, iniciam uma coleta entre os empresários, além de dirigentes de em presas públicas, de cada um dos estados com o intuito de avolumar os recursos para a delegação brasileira. Ainda em março de 1938, a imprensa repercutia as primeiras doações: “Banco do Brasil, 20$000; Cia. Souza Cruz, 10$000; Banco do Comércio e Indústria, 10$000; Moinho Inglês, 5$000 e Cia. Financial, 5$000.” Nesse momento, as doações chegavam a 60 contos, diante de um orçamento de 250 contos.

E, diferentemente de outras disputas esportivas, não bastava o simples ato de torcer; ao torcedor cabiam novas tarefas, como a de sustentar materialmente o selecionado nacional. Ao mesmo tempo, a tarefa de alicerçar a delegação brasileira seria de todos os brasileiros, fossem dirigentes de empresas privadas ou públicas, fossem dirigentes políticos ou simples torcedores, que dariam a sua contribuição comprando um “selo cebedense”. Enfim, como a disputa da Taça do Mundo poderia colocar o nome do país em evidência, como também poderia redundar num grande fiasco, cabia à CBD organizar e dirigir as forças nacionais no sentido de fazer da Copa da França um momento especial para o país. E cabia ao povo brasileiro aceitar, de maneira disciplinada, essa direção e contribuir para o sucesso da delegação brasileira.

A campanha da CBD para arrecadar fundos junto ao poder público e aos empresários, juntamente com a campanha do selo, também patrocinada pela CBD, com o claro apoio de um setor da imprensa esportiva, foi umas das muitas manifestações que precederam a participação do selecionado brasileiro na França. Criou-se um clima de euforia, sempre associando o sucesso do futebol nacional aos ganhos posteriores que o país viria a conseguir.

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Capa do opúsculo Os reis do futebol no Campeonato do Mundo, de Mário Miranda Rosa.

Assim, nesse clima, surge uma publicação que permite dimensionar as relações que foram-se estabelecendo entre o sucesso de um time de futebol e os destinos de uma nação em construção. Trata-se de um opúsculo de autoria de Mario Miranda Rosa, à época da publicação ocupando o cargo de Inspetor Regional de Educação Física. O autor era um dos grandes defensores da disseminação do

ensino de uma educação física racional, daí suas preocupações constantes com as questões teóricas dessa ciência. Seus artigos faziam-se presentes nas páginas do O Estado de S. Paulo, como nas revistas especializadas em Educação Física. Também, nesse momento, foi um dos poucos teóricos da Educação Física atento aos problemas do futebol, o qual ele não condenava, porém, entendia que, nesse esporte, deveriam estar presente formas de treinamento cientificamente teorizadas e testadas. Assim, grande parte dos seus artigos, publicados nas revistas especializadas nessa área, buscava ensinar os chamados fundamentos do futebol. Tratava-se de uma publicação que aproveitou a situação do momento. Ele tinha como objetivo alimentar a emoção do torcedor e de todos os que acompanhavam aquele campeonato mundial, ora por se sentirem na obrigação de tal comportamento por serem brasileiros, ora impulsionados por uma emoção coletiva contagiante, quando essas razões não se mostravam conjugadas. O texto trazia também análises da participação do futebol nacional em competições internacionais de certa importância, e comentários acerca de táticas futebolísticas.

Porém, o que mais chama a atenção é a capa da publicação. Nela encontra-se o título do opúsculo — Os Reis do Futebol no Campeonato do Mundo, sendo que chamar os brasileiros de reis do futebol era uma clara referência à excursão do C. A. Paulistano ao velho continente em 1925 — escrito em verde e amarelo. Ainda na capa, um desenho do rosto confiante e sorridente de Leônidas da Silva, atravessado por uma faixa verde e amarela. Capa e texto formam, dessa maneira, um conjunto que, mais uma vez revela a ideia do futebol como um embaixador do Brasil.

Enfim, todos os atributos dessa publicação, destacando-se a capa, fazem da mesma uma síntese de como o futebol era percebido naquele momento de Copa do Mundo. E nessa disputa, um excepcional desempenho da equipe brasileira, assim como dos torcedores atentos às narrações radiofônicas, temas para outro momento.