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Copa de 1966, Copa de 2019: ficção e realidade

Ewerton Martins Ribeiro

1966, cara: a realidade, mas com algum jeito de ficção

Copa do Mundo da Inglaterra, fase de grupos. Após ter vencido a Bulgária por 2 a 0 e perdido para a Hungria por 3 a 1, o Brasil precisava ganhar de Portugal para continuar na competição. Ainda que tenha chegado ao mundial como favorito, depois de vencer as edições de 1958 e 1962, o time brasileiro não vinha jogando bem, e logo aos quinze minutos Portugal fez seu primeiro gol, numa cabeçada oportunista do ponta-esquerda Simões, após o goleiro Manga tirar mal um cruzamento. Doze minutos depois, o craque Eusébio fez o segundo, também de cabeça.

Pelé foi caçado em campo desde o início do jogo, sofrendo falta atrás de falta, e a torcida inglesa pedia sangue, em todos os sentidos. A tática portuguesa parecia clara: tirar Pelé de combate e garantir a vitória. Com efeito, em torno dos trinta minutos do primeiro tempo, o lateral Morais deu duas pancadas criminosas em Pelé, uma atrás da outra, e o craque brasileiro caiu no gramado, contorcendo-se em dor. Curiosamente, o juiz George McCabe não advertiu o jogador português, a despeito do caráter medonho das faltas, e o jogo prosseguiu com Pelé lesionado, com a perna enfaixada, mal podendo se movimentar.

Com um chute rasante da entrada da área, Rildo ainda diminuiu para o Brasil na metade do segundo tempo, mas, com Pelé movendo-se apenas morosamente pelo campo, a seleção portuguesa dominou o jogo, e a derrota brasileira parecia iminente. Faltando cinco minutos para o fim da partida, Eusébio ainda marcou o terceiro para Portugal, cravando o placar em 3 a 1. Com a derrota, o Brasil foi eliminado da Copa do Mundo de 1966 e deu adeus ao sonho de ganhar o seu terceiro título seguidamente.

Tudo isso ocorreu em 19 de julho de 1966. Nesse dia, nós, brasileiros, desligamos nossos rádios revoltados, mas logo lembraríamos ter coisas bem mais terríveis com que nos ocupar: instaurada dois anos antes por meio de um golpe, a ditadura civil-militar que assolava o país ia se tornando cada vez mais violenta, e os relatos de tortura e assassinatos circulavam cada vez com mais frequência, à boca pequena. Mais tarde, descobriríamos que aqueles tempos sombrios durariam mais de duas décadas, e que aquela primeira Copa jogada com o regime de exceção já instaurado no país teria sido a nossa última oportunidade de ver Pelé e Garrincha jogando juntos.

Seleção brasileira, Copa do Mundo de 1966, Brasil 2 x 0 Bulgária, última vez em que Pelé e Garrincha atuaram juntos. Foto: CBF.

2019, coroa: a ficção, mas com algum sentido de realidade

Mais de meio século se passa e, certo dia, sem que se saiba exatamente como, cai nas mãos de um premiado jornalista esportivo uma inédita gravação daquela partida, captada às margens do banco de reservas português. Quando se põe a escutá-la, o homem percebe que, poucos minutos após o início do jogo, é possível ouvir, ao fundo, uma conversa mantida à beira do gramado entre Otto Glória, técnico da seleção portuguesa, e o juiz da partida.

“Prezado, o colega Baptista é um excelente jogador, mas na marcação ele não vai muito bem”, introduziu o juiz, citando um zagueiro português que marcava Pelé. “Desculpe dizer isso, mas, com discrição, tente dar uns conselhos a ele, para o bem dele”, o homem sugeriu. Como que antecipando o que as pessoas concluiriam se soubessem daquele diálogo, McCabe ainda pediu: “Mantenha essa conversa reservada, por favor.” Otto concordou com o pedido e agradeceu a recomendação. Em seguida, o homem chamou o seu auxiliar técnico para uma conversa privada.

“Ouviu o que o juiz me disse sobre o jogo?”, ele disse.

“Não, o que ele disse?”, perguntou o auxiliar.

“Não comenta com ninguém, e vem mais para cá, pra gente ter certeza de que ninguém está ouvindo; aí eu te falo. Você vai entender por que eu estou te pedindo isso…”, disse o técnico, com um ar circunspecto. Em seguida, ele repetiu literalmente a recomendação que lhe fora feita pelo juiz, para em seguida decidir: “Vamos ver como está essa escala de marcação e sugerir uma dobradinha, de repente com o Morais e o Vicente, mas sem o Baptista”, ele disse. O auxiliar concordou. “No caso do Pelé”, o técnico ainda afirmou, “não podemos deixar isso acontecer.”

A estratégia assumida parecia surtir um efeito imediato: minutos após a mudança tática, Morais deu as suas duas rasteiras em Pelé, tornando-o inútil em campo, e o juiz George McCabe ignorou a gravidade das faltas, permitindo que Portugal pavimentasse o seu caminho para a vitória. O que ocorreu depois é História: Portugal terminou a Copa em terceiro lugar, cravando o seu melhor resultado entre todas as edições de que participou, e o Brasil registrou na Inglaterra uma das piores campanhas de toda a sua história futebolística — enquanto isso, tomado de assalto por criminosos, o país afundou na escuridão.

Tanques na Avenida Presidente Vargas, no Rio de Janeiro, em 2 de abril de 1964. Foto: Wikipedia.