109.10

Copa do Mundo 1982 – Desastre do Sarriá

Alexandre Fernandez Vaz

Para Mozart Maragno.

Ainda hoje a Copa de 1982, disputada na Espanha, é lembrada como um dos torneios que a seleção de futebol do Brasil disputou com grande êxito, ainda que a vitória não tenha sido alcançada. Até pelo menos 1994, quando o time nacional voltou a ser campeão, a equipe de Zico, Sócrates, Falcão, Cerezzo, Júnior e Leandro, treinada por Telê Santana, era lembrada como uma das melhores que o país já formara. Não deixa de ser surpreendente que aquela equipe, por melhor que jogasse, fosse comparada com os times campeões de 1958, 1962 e 1970. Como é conhecido, o time brasileiro foi derrotado pelo italiano nas quartas de final – mesma etapa disputada ontem –, em Barcelona, no que ficou conhecido como o Desastre do Sarriá.

Naquela tarde muito quente de verão, foram três gols de Paolo Rossi, que tomara um gancho de três anos, depois diminuído a dois, por corrupção, envolvido no escândalo da loteria esportiva italiana. O imbróglio nunca foi muito bem explicado e o jogador não teve condenação da justiça comum. No ano da Copa, o atacante pouco jogara, mas o suficiente para que Enzo Bearzot o convocasse. A Itália chegou à partida decisiva contra o Brasil precisando vencer, depois de uma primeira fase em que acumulara nada menos que três empates. A igualdade no placar daria a classificação ao adversário. Os italianos haviam, no entanto, vencido os argentinos, com o forte Gentile na marcação de Maradona. O mesmo volante, aliás, que rasgou a camiseta de Zico no jogo seguinte.

Depois de duas vezes atrás no placar, Brasil vai empatando, e eis que a Itália faz o terceiro gol. O zagueiro Oscar, da Ponte, do Cosmos, do São Paulo, cabeceia de forma mortal no finalzinho do jogo, mas o goleiro Dino Zoff, aos quarenta anos, vai buscar a bola e evita o gol da classificação. Esta é a penúltima imagem que tenho daquela partida. A última é a dos jogadores saindo do campo tristes, cabisbaixos. Sócrates entre incrédulo e constrangido. Luciano do Valle narrava o desastre e, logo, começava a elaborar o luto.

Muitos dizem que o futebol-arte se extinguiu por causa daquela fatídica derrota. Não é raro que se afirme que desde então o Brasil teria optado por um jogo mais duro, visando puramente os resultados. O ápice teria sido 1994, quando a equipe treinada por Carlos Alberto Parreira venceu o Mundial disputado nos Estados Unidos. Contra a mesma Itália, mas nos pênaltis. O time tinha três volantes (Mauro Silva, Dunga, Mazinho) e um meia que também congestionava o meio-campo (Zinho), mas os laterais (Jorginho, Cafu, Leonardo, Branco) apoiavam bem ao ataque e o grande trunfo era a dupla de frente, composta por Bebeto e Romário. Os jogadores de 1982 presentes no estádio Rose Bowl teriam sido proibidos de entrar no vestiário campeão, sua condição de derrotados deveria ficar do lado de fora, mesmo que Júnior tivesse atuado, de forma muito importante, como observador tático da seleção. Lembro-me, aliás, de vê-lo recebendo a medalha no momento de celebração, um pouco antes de o capitão brasileiro, Dunga, levantar a copa e gritar seu ressentimento contra os que o criticaram pelo fracasso de 1990, na Copa disputada na Itália.

Parece que os italianos estão sempre à espreita para enfrentar o Brasil em momentos decisivos. Não se pode esquecer de 1970, claro, quando a melhor seleção de todos os tempos goleou sua adversária na final. Ela contava com jogadores técnicos e habilidosos, alguns craques, com o maior deles, Pelé. Mas também jogava muito taticamente, bem organizada por Zagalo, com nove atrás da linha da bola quando os oponentes vinham. Tostão constantemente destaca que o gol de Jairzinho contra o Uruguai, na semifinal, começa com o próprio jogador, o atacante mais agudo da equipe, ainda no campo defensivo.

1982

A seleção brasileira de 1982. Foto: Acervo CBF.

Mas, voltemos a 1982. Diz-se com frequência que os italianos não contavam com a vitória frente à seleção brasileira, que já tinham feito as malas para voltar ao seu país logo depois do jogo. Eles temeriam o adversário. Não sei o quanto isso tem de verdade, mas há motivos para acreditar em pelo menos parte da história. O Brasil tinha jogadores habilidosos em todas as posições, com exceção, talvez, do centroavante Serginho, do São Paulo, mais rompedor, mas que finalizava bem e tinha boa técnica. Havia ainda a inconstância de Valdir Peres sob as traves, uma vez que Leão, o melhor goleiro de então, não fora convocado, em uma das tantas birras de Telê Santana. Como estávamos todos encantados com o toque de bola e a categoria dos outros jogadores, pouco notamos o quanto um goleiro como aquele que fora titular por quase uma década e capitão no mundial anterior faria falta.

Leão fez falta, ainda que Valdir tenha fechado o gol contra a seleção da Argentina, quando a vitória seria alcançada com um contundente três a um. Mas, havia mais problemas. O principal era que a defesa ficava muito desprotegida com a falta de um volante que pudesse conter um pouco melhor que Cerezzo e Falcão, ainda mais porque o lateral-esquerdo Júnior, excepcional na armação e mesmo na conclusão das jogadas, nunca foi um grande marcador. Além disso, durante muito tempo Telê procurara alguém para a ponta-direita, sem encontrar uma boa solução. Tentou com Tita, do Flamengo, mas ele queria jogar em sua posição no clube, de meia-atacante; tentou com Paulo Isidoro, meio-campista do Galo Mineiro, que jogou de extrema boa parte das Eliminatórias, mas foi para o banco na Copa. O treinador que seria bicampeão da Libertadores e da Copa Intercontinental pelo São Paulo preferiu Cerezzo a Isidoro, deixando o time mais propenso à esquerda, com o próprio Júnior e com Éder. Além disso, o excelente lateral-direito Leandro, sem um atacante em seu setor e sem um volante de cobertura, ficava muito exposto.

O cronista esportivo João Saldanha, que treinara a seleção nas Eliminatórias para a Copa em que o Brasil golearia a Itália na final, fazia várias críticas ao escrete, destacando a inconstância do time e as indecisões de Telê. Foi praticamente o único. De resto, estávamos todos embriagados pelos gols, pela narração empolgante de Luciano do Valle, pelos textos de Juca Kfouri. A Itália venceu, Rossi foi o artilheiro e ainda ganhou o prêmio de melhor jogador do torneio. Falcão, Sócrates, Júnior, Zico, Leandro ficaram sem Copa. “Azar da Copa”, como já foi dito? Não. Sorte nossa que o jogo continua.

Ilha de Santa Catarina, julho de 2018.