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Copa Libertadores da América: O Brasil tem Libertador?

Diogo Coelho

A nomenclatura de coisas, objetos, competições, clubes e afins são feitas para materializar algum sentimento, identidade, cultura que serve para unificação de algum grupo social. A Copa Libertadores da América, como o nome já diz, recebeu esse nome justamente para homenagear àqueles que serviram como exemplo de luta e foram responsáveis pela libertação da América do Sul perante os seus colonizadores europeus, na qual teve um custo alto, principalmente pelo lado dos países de língua espanhola, já que do lado português, Brasil, a história é um tanto quanto diferente. Afinal, quem são os Libertadores e por que a “libertação” do Brasil difere dos demais países da América do Sul?

Libertadores da América: A Copa

A Copa Libertadores da América surgiu no ano de 1958 após um congresso da Conmebol realizado no Rio de Janeiro. Na época, a competição seria realizada apenas com os campeões nacionais da América do Sul. A ideia surgiu e ganhou força por conta do interesse da UEFA de marcar um jogo entre o campeão europeu e o melhor time sul-americano.

O torneio foi inspirado no antigo Sul-Americano de clubes que ocorreu no ano de 1948, na qual o Vasco da Gama consagrou-se campeão. Além disso, desde 1955, a Europa possuía a Copa dos Campeões. Por conta do nome europeu, a criatividade dos sul-americanos foi alta e o torneio inicialmente teve suas primeiras cinco edições com nome de Copa Dos Campeões da América, porém, em 1965, o nome de Copa Libertadores da América foi dado ao torneio e assim permaneceu.

O nome até foi inusitado nessa troca já que se referia a um ideal. Ele homenageava os principais líderes do continente que tiveram uma enorme participação no processo de independência de diversos países da América do Sul. Apesar de não serem iguais, partilhavam de ideias liberais e da autonomia da região.

A nomenclatura do torneio é clara: creditar o clube campeão como o libertador que faz o contraponto contra o clube dos colonizadores. É um nome carregado de significado e história de um continente de luta e resistência.

Simón Bolívar

Simón Bolívar. Fonte: Wikipédia

Libertadores da América: Características dos Libertadores

 O nome do torneio carrega uma história de luta e resistência daqueles que outrora lutaram contra os colonizadores e que foram expoentes no processo de independência de diversos países. Como já explicado, carregavam consigo ideais parecidos de uma época de eclosão nos processos revolucionários nos séculos XVIII e XIX. Eram, em suma, de origem burguesa e de formação militar que buscavam formas de dar mais poder à colônia.

Os nomes de destaques são de Simón Bolívar e José de San Martín que, após a Conferência de Guayaquil (reunião para discussão do futuro da política na América do Sul), unem-se contra o Império colonial Espanhol com o objetivo de uma nação unificada na região. Com muita luta armada e várias eclosões de conflitos, o objetivo de libertar a colônia espanhola foi concluído e a independência de vários países realizada no lado espanhol. Contudo, o processo “revolucionário” do lado português aconteceu de outra maneira.

José de San Martín

José de San Martín. Fonte: Wikipédia

O Libertador brasileiro

O caso do Brasil ocorreu de forma diferente. É creditado a Dom Pedro I o significado de “libertador do Brasil”. Portanto, os brasileiros jogam a Copa Libertadores da América com a alcunha de serem os “filhos” de Dom Pedro I, o que não combina já que o Brasil não foi libertado.

Os ideais de nosso “libertador” são iguais aos demais de origem espanhola como a questão de liberdade e de maçonaria. Entretanto, apenas essas características são comuns. Dom Pedro I possui origem nobre, não burguesa, portanto, é um monarca e, além disso, não era republicano como os outros. A forma em como libertou a sua região também foi diferente visto que não houve luta armada contra os colonizadores e a quebra entre colônia e metrópole.

A independência do Brasil, com a participação de Dom Pedro I, passou por vários processos que envolvem desde as regalias da família real após sua chegada em 1808 até o Dia do Fico em 1822. A vinda da família real, fugida de Portugal com medo das tropas de Napoleão, fez com que diversas províncias fossem submetidas a um grande aumento de impostos, gastos e afins para que as benesses da nobreza no Rio de Janeiro fossem cumpridas. Em 1815 o país fora elevado a reino para que fosse possível a união política com o Reino de Portugal e dos Algarves e só depois da Revolução do Porto, quando a autonomia e os privilégios dos nobres no Brasil foram ameaçados, acontece o processo de Independência do Brasil, em 1822. Acontece que o Brasil continuou ligado a Portugal por conta de Dom Pedro I e só em 1825, após o humilhante Tratado do Rio de Janeiro, a independência do Brasil foi reconhecida por Portugal, mas a que custo?

O custo do Tratado não foi livrar das amarras coloniais, nem com luta armada de expulsão dos mesmos, já que muitos portugueses continuaram na região e em alto escalão. O custo foi o Brasil pagar todo o Tratado e as reparações financeiras a Portugal que foi feito repassando a compensação a todos os residentes portugueses que tiveram prejuízos no Brasil.

Ademais, só depois do Tratado o nosso libertador foi liberado a se intitular Imperador do Brasil. Contudo, o tratado tenderia a ser mais humilhante porque foi combinado que a independência tinha sido dada por um ato de bondade do rei português ao invés de ter sido tomada a força pelos brasileiros, uma diferença marcante em comparação com os processos revolucionários na América espanhola.

O Tratado do Rio de Janeiro humilhou o Brasil de diversas formas porque foi dado em forma de pagamento de dívidas e diversas concessões que reduziu a independência a um ato de benevolência. O Brasil passou por outro ultraje, parte também combinada no Tratado, que foi assumir a dívida econômica de Portugal com o Reino Unido, além de renovar os tratados comerciais com esse país.

Independência Brasil

Monumento à Independência do Brasil. Fonte: Wikipédia

Conclusão

A Copa Libertadores da América possui esse nome como homenagem aos libertadores da região na expulsão dos colonizadores da região de forma a dar autonomia total aqueles que tanto sofreram por séculos. O Brasil possui um libertador um tanto quanto controverso e que difere em várias formas dos outros libertadores. O nosso processo revolucionário de independência não ocorreu de uma forma que revolucionou de fato o país e que expulsou os nossos colonizadores, apenas foi um ato político realizado por conta de uma ameaça a perda de privilégios daqueles que outrora seriam nossa nobreza. O status quo permaneceu, mudou-se apenas a condição de quem a nobreza representava.

A independência veio com um Tratado ultrajante ao Brasil realizado pelo nosso libertador. As condições não favoreceram o país e não nos dá uma história de luta e resistência àqueles que tanto exploraram as terras tupiniquins. Portanto, se Dom Pedro I, o responsável pela Independência do Brasil, característica principal dos Libertadores da América, não é de fato um Libertador, quem é o símbolo-mor do Brasil que nos dá direito de sentar a mesa dos Libertadores da América?

 

Referências

Conmebol.com

BETHELL, Leslie. História da América Latina: da Independência a 1870. São Paulo: Edusp, volume 3, 2018.

DIAS, Maria Odila Leite. A interiorização da metropole. In: DIAS, Maria Odila. A interiorização da metrópole e outros estudos. São Paulo: Alameda, 2005

DOLHNIKOFF, Miriam. História do Brasil Império. São Paulo: Contexto, 2017.

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MALERBA, Jurandir. José Bonifácio, arquiteto de quimeras. IN: Brasil em Projetos. RJ:FGV, 2020.

PIMENTA, João Paulo. A independência do Brasil como uma revolução: história e atualidade de um tema clássico. História da historiografia, n. 3, set 2009, p. 53-82.

RIBEIRO, Gladys Sabina e PEREIRA, Vantuil. O primeiro reinado em revisão. In: Grinberg, Keila e Salles, Ricardo. O Brasil Imperial, volume II: 1831-1870. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, p. 53-119.

Como citar

COELHO, Diogo. Copa Libertadores da América: O Brasil tem Libertador?. Ludopédio, São Paulo, v. 142, n. 13, 2021.