18.3

Corinthians, corinthianismo: breve ensaio sociológico

Antônio Jordão Netto

Passadas as emoções e assentada a poeira que a conquista do tão sonhado título de campeão paulista de futebol da temporada passada pelo SPORT CLUB CORINTHIANS PAULISTA, parece haver chegado o momento adequado de se tentar algumas reflexões de caráter sociológico sobre o assunto.

A tarefa não é fácil, pois sobre o CORINTHIANS e seu laurel muito já se escreveu e falou e quase todas as explicações já foram arriscadas. Todavia, não é propriamente a obtenção do título em si que se buscará considerar aqui, mas sim levantar alguns pontos sobre o fenômeno social “corinthianismo”, isto é, tentar propor, à luz de alguns conceitos sociológicos as respostas mais ou menos plausíveis (e não necessariamente as mais certas, pois isso só uma pesquisa poderia propiciar) para as questões que cercam tão expressivo comportamento de massa.

É fundamental assinalar, desde logo, que o aspecto esportivo propriamente dito de tal conquista deve ser descartado. Afinal, como explicar, por esse único prisma, o fato indiscutível do entusiasmo, desprendimento e, principalmente, do crescimento de uma torcida ao longo de vinte e três anos esteve afastada do ambicionado título de campeão paulista, sofrendo humilhações e chacotas, sem nunca esmorecer ou diminuir? Recorde-se que durante todo esse tempo o desempenho do time em campo sempre oscilou entre boas atuações e medíocres apresentações, nunca chegando aos desempenhos espetaculares como as do Santos Football Club, por exemplo, na década de sessenta. Em inúmeras ocasiões os próprios corinthianos chegaram a vaiar o time em campo, a xingar jogadores, a ameaçar os diretores, a fazer promessas de não voltar aos estádios, só para vibrar loucamente e lotar as praças esportivas no jogo seguinte…

Sociologicamente, portanto, deve se buscar em fatores fora da disputa direta de partidas, títulos ou troféus, as explicações para o fato. Aliás, isso já havia sido proposto por alguém que escrevera, como uma espécie de divisa “ Corinthians, campeão ou não, és minha paixão”. Então, aqui, a primeira pista: o Corinthians seria, no plano das representações psicossociais coletivas, não um mero clube esportivo ou simples equipe de futebol dessas empenhadas em ganhar pontos, campeonatos, taças ou elogios da crônica esportiva. O Corinthians representaria uma paixão e, como tal, transcede o racional, supera os limites formais, despreza o aparente. Como todo apaixonado, o corinthiano estaria constantemente fora do real concreto. Este só lhe serviria como simples referência material, sem nunca aprisionar sua vontade ou seu modo de ver o objeto de sua paixão. Então a questão básica é essa: de onde vem tal sentimento que se traduz em atitudes, tão arrebatadas e insólitas, como as daquele torcedor que em véspera de um jogo importante (e ao que parece nem era um jogo decisivo) do Corinthians no nordeste do país, largou o emprego e foi torcer para o Timão? Ou do preso que prometeu confessar seus crimes só se o delegado conseguisse um rádio transistor para ele ouvir o jogo do Coringão? Enfim, de onde vem essa paixão desenfreada, incontida, avassaladora?

Aqui torna-se indispensável uma referência histórica. O Corinthians foi fundado em 1910 e, segundo consta, por um grupo de pessoas de condição ou origem proletária, residentes no bairro do Bom Retiro da capital paulista. Foi uma época de grande movimentação e conscientização do nascente proletariado urbano de São Paulo, composto em boa parte por imigrantes europeus e seus descendentes, que trouxeram de seus países uma tradição de lutas e reivindicações de classe. O nome dado ao novo clube foi, ao que parece, puramente circunstancial, tirado de um agremiação inglesa de passagem pelo Brasil na época. Importante, sim, foi o sentido simbólico da iniciativa, partida de gente simples, humilde, pertencente às camadas populares, fato que desde logo teria transformado o simples clube de futebol num representante desses estratos menos privilegiados frente aos mais poderosos.

Foto: Alessandra A.

É importante assinalar que, naquele tempo, o futebol ainda não era um esporte popular, pois sua prática havia sido introduzida no Brasil por um filho de ingleses, Charles Miller, e nos seus primórdios era praticado principalmente por rapazes das famílias ricas ou pelos funcionários das firmas inglesas estabelecidas no país. A fundação de um clube de futebol por pessoas modestas e vindas do povo constituía uma espécie de desafio na época. Assim, o Corinthians, desde a sua origem, estava fadado a não ser mais um time de futebol, cujas atribuições deveriam se esgotar no campo da luta esportiva, servindo como simples manifestação de lazer inconseqüente de fim de semana.

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Essa foi a primeira parte do ensaio, publicado no jornal O GAVIÃO, São Paulo ano I, nº 5, maio/1978, pag. 22

 Segue-se a segunda parte, publicada no jornal O GAVIÃO, São Paulo ,ano III, nº 15, março/abril de 1981, pag. 4

Ser corinthiano, mais que ter mera simpatia, admiração ou amor por uma agremiação esportiva, passou a significar identificar-se com o “povão”, assumir suas lutas no plano das representações psicossociais, na medida que isto implicava em participar, em sentir-se de algum modo envolvido no processo de integração social e de constituição da sociedade de classes, sociedade essa cujas características começavam a passar, lentamente, de agro-rurais para urbano-industriais, aberta para a formação de novos estratos e propícia à ascensão social.

Daí, talvez, a grande identificação de certas minorias raciais e nacionais com o CORINTHIANS, a ponto de atrair um grande número de torcedores negros, sírios, libaneses, espanhóis e judeus (lembrando que os italianos já tinham no Palestra Itália, depois Palmeiras, sua representação clubística) cujos descendentes, por tradição, seguiram a atitude dos pais. Mais recentemente, a partir da década de 50, época das maciças migrações internas para São Paulo, um novo e expressivo contingente populacional viria se incorporar à massa corinthiana: os nordestinos. No caso específico dos nordestinos, torcer para o CORINTHIANS pode ter significado tomar uma atitude paralela àquela de filiar-se às religiões mediúnicas ou pentecostais, ambas representando uma maneira importante de ajustamento ao processo de integração social, na extensão em que isso poderia reconstituir certas relações primárias de amizade, lealdade e/o solidariedade existentes na sua comunidade de origem.

Porém, se a torcida corinthiana expandiu-se em função de todos os fatores antes mencionados e se ela sempre cresceu e se manteve fiel e entusiasta, a verdade é que nos últimos 10 anos houve uma verdadeira explosão de corinthianismo, a ponto de obscurecer amplamente as demais torcidas paulistas, esmagadas em número, gênero e grau (apenas a torcida santista, nos últimos dois anos tem mostrado certo crescimento, fenômeno também paradoxal e digno de registro e análise).

E o que não deixa de ser um fato extraordinário, aquela torcida tida como de “massa”, de “proletários”, de “baianos”, de “pés – de chinelo”, de “analfabetos” (conforme expressões desdenhosas e/ou despeitadas dos torcedores não corinthianos) cuja origem foi humilde e simples, passou a penetrar todos os estratos sociais, todos os níveis de instrução, conforme mostrou levantamento feito em dezembro de 1976, em São Paulo, pelo Instituto Gallup, levantamento esse que mostrava o CORINTHIANS como o clube preferido nas classes A, B, C e D (conforme critério do Instituto, baseado em nível de renda e vida dos entrevistados) e também aquele preferido pelos entrevistados de nível de instrução primário, secundário e superior.

Torcida do Corinthians. Foto: Alessandra A.

Os fatores responsáveis por tão “explosão corinthiana” são múltiplos e complexos. Alguns sociólogos dão ênfase ao fatores de natureza política; outros a fatores psicossociais; outros ainda a fatores ligados aos meios de comunicação de massa, associados ou não a interesses comerciais.

Autores que falam em fatores de natureza política apontam a inexistência ou a limitação de canais de participação popular em aspectos decisivos de sua vida enquanto cidadãos (eleições diretas e atividades sindicais livres, por exemplo) fato esse que teria criado um imenso vácuo ou espaço político, que precisaria ser preenchido de alguma forma. Isso quanto aos estratos sociais proletários. Nos estratos situados acima deles o fato se repetiria de uma forma mais sublimada. De qualquer forma, torcer para o CORINTHIANS surgiria como uma espécie de alternativa política não conscientizada, na medida em que fazendo parte da “massa” torcedora o individuo obteria alguma satisfação pela sensação de poder e força que essa “massa” proporcionaria, ao mesmo tempo que a constituição de torcedores identificados com o clube, mas independentes dele sob todos os aspectos, as chamadas “torcidas organizadas” (Gaviões da Fiel, Camisa 12, etc) representaria um dos raros exemplos de organização dos setores populares a partir de suas bases. Acentuam os defensores dos fatores de natureza política que, não obstante a grande importância do fenômeno enquanto transferência ou sublimação, pela ausência ou limitação dos canais de participação popular e ressalvados os aspectos de legitimidade do mesmo enquanto manifestação puramente esportiva, ele seria também indicador de uma acentuação do processo de alienação, servindo como válvula de escape ou meio de fuga da massa, situação essa que seria bem vista pelos detentores do poder. E concluem: enquanto o “povão” vibra com o CORINTHIANS e lota os estádios, esquece seus problemas econômicos financeiros, a falta de moradia, de assistência médica, de escolas, de saneamento básico, deixam de lado o custo de vida e assim por diante. É certo que, como todo o povo brasileiro, o corinthiano resiste e sobrevive às desgraças, crises e derrotas; é também certo que o corinthianismo é, de certa forma, um movimento popular, mas que se esgota num plano de manifestações que não afeta as estruturas de poder, mas, ao contrário, reforça-as. À toda essa argumentação, porém, o torcedor que pudesse representar a média do corinthiano responderia, quem sabe, e mesmo sem entender muito os refinamentos da análise sócio política: “ CORINTHIANS, alienação ou não, és minha paixão…”.

Passando para o exame de opinião daqueles que falam da influência dos fatores de natureza psicossocial, constata-se que sua análise, sem refutar os aspectos políticos antes referidos, salienta que o fenômeno corinthianismo, acentuado na última década, está ligado à própria expansão urbana de São Paulo, especialmente na região da Grande São Paulo, onde parece concentrar-se a massa torcedora ou boa parte dela. Na esteira de tal crescimento urbano surgiu uma constelação de problemas de toda espécie, causadores de grande tensão, neuroses, ansiedades e psicoses. Como decorrência, duas grandes necessidades psicossociais se acentuariam: a necessidade de integração ao modo de vida urbano e a necessidade de descarregar as tensões acumuladas.

O CORINTHIANS surgiria, então, como um dos elementos de catarse importante na combinação sócio psíquica capaz de atender àquelas necessidades. Já no passado, identificado como um clube de raízes populares, que sempre cultivou o mito do “clube mais brasileiro”, atraiu, desde logo, a atenção do imigrante estrangeiro desejoso de uma rápida assimilação à sociedade e à cultura do país receptor. Mais tarde, entendido como uma verdadeira “religião”, no sentido de provocar sentimentos de solidariedade, esperança e fé, cumpriria, juntamente com as religiões mediúnicas e pentecostais, a função latente de ajudar os migrantes nacionais, vindos de outros Estados ou do próprio interior de São Paulo, a integrar-se no modo de vida urbano da metrópole ou das grandes cidades do Estado.

Nessa perspectiva sócio psíquica poder-se-ia acrescentar que torcer para o CORINTHIANS ajudaria o indivíduo a vencer, esquecer ou sublimar as tensões, angústias e ansiedades provocadas pela cidade grande. Assim, o corinthianismo significaria uma espécie de “curtição” a que as pessoas se entregariam como suporte emocional para enfrentarem os problemas do cotidiano ou mesmo no sentido de se perceberem como parte de alguma coisa importante e significativa em termos psicossociais. Ser corinthiano passou a ser um estado de espírito, uma condição existencial, até. Tal “estado de espírito” teria suas características acentuadas ou não na razão direta da maior ou menor participação do CORINTHIANS em campeonatos ou torneios, chegando a autêntico paroxismo nas decisões.

Há, ainda, uma corrente de opinião que fala dos interesses comerciais e da manipulação dos meios de comunicação de como massa como forças importantes a explorar, mais recentemente, a mística corinthiana no sentido de obterem lucros ou atingirem maior vendagem de jornais e revistas ou, ainda, elevar os índices de audiência de rádio e televisão, com evidentes intuitos de conseguirem retornos financeiros e de popularidade. Freqüentemente associados, interesses comerciais e meios de comunicação atuariam, inclusive, no sentido de desencadearem uma espécie de causalidade circular no fenômeno corinthianismo, isto é, provocariam, através de uma veiculação exaustiva pela imprensa, rádio e televisão do assunto CORINTHIANS, uma verdadeira exacerbação das emoções, que tenderia a tornar os já corinthianos ainda mais arraigados e a converter ou catequizar os não corinthianos, representados pelas novas gerações e pelos migrantes e imigrantes recém chegados de outras regiões ou países.

Levando em conta o poderio e a penetração dos meios massivos de comunicação e a insistência com que os mesmos enfocam o assunto (basta constatar o espaço dado ao mesmo em jornais e revistas, assim como o tempo dedicado na televisão e no rádio) poder-se-ia aventar que mesmo sem levar em conta os demais fatores mencionados anteriormente ou que a sua influência fosse mínima, a própria “badalação” em torno do CORINTHIANS seria , por si só, suficiente para aumentar o “fanatismo” de seus torcedores tradicionais (no entender dos torcedores dos outros times) e/ou angariar a adesão ou simpatia dos jovens e dos recém chegados. Em outras palavras, o corinthianismo como causa do próprio corinthianismo.

Mas o importante a assinalar quanto ao aspecto ora focalizado é que por trás de toda essa promoção do CORINTHIANS estaria a preocupação de obter um bom faturamento comercial, na medida em que o grande público corinthiano é consumidor ávido de tudo aquilo que diz respeito à sua paixão. E esse público, conforme o levantamento do Instituto Gallup, é bastante diversificado, tanto em capacidade aquisitiva, como em nível de instrução, de modo que é apto a captar mensagens diversas e apelos variados, adquirindo os mais variados produtos e/ou serviços, prestigiando tudo aquilo que direta ou indiretamente envolva o CORINTHIANS. Resta acrescentar que, além dos lucros financeiros, aqueles que incentivam o corinthianismo com objetivos comerciais visam ainda obter os lucros da popularidade e do prestígio, devidamente capitalizados para outros empreendimentos ou promoções futuras.

Com quem, afinal, estaria a razão? Provavelmente com todos no geral e com ninguém em particular. Como fenômeno sociológico o corinthianismo resulta de fatores diversos, que atuam com maior ou menor intensidade conforme o estrato social, o nível intelectual, as experiências de vida, as expectativas e esperanças de cada um, mescladas com o tipo de relacionamento que tem com os diferentes grupos sociais de convívio ou referência. Depende, também, nos seus aspectos mais permanentes, da estrutura da sociedade e, nos seus aspectos mais mutáveis, da conjuntura social, econômica e política do Estado de São Paulo e do próprio país.

Este pequeno ensaio não pretende ter dado as respostas completas ou as explicações definitivas, mas apenas provocar reflexões e levantar questões sobre um assunto que pela sua importância está a merecer estudos mais aprofundados e pesquisa mais ampla.