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Coronavírus, analogias e possíveis jogadas: é hora de entrar em campo

Fidel Machado

Diante da pandemia referente ao Covid-19 (também conhecido como coronavírus) e em meio à crise mundial que já manifesta os seus mais variados efeitos e desdobramentos em diversos setores, o campo esportivo não ficou de fora dessa partida incerta e inadiável. Paralisações, possíveis adiamentos, reconfigurações na folha salarial e cancelamentos são alguns desses reflexos. Todavia, por mais paradoxal que pareça ser, é diante dos estádios fechados que nós precisaremos entrar em campo. Ainda no que se refere aos paradoxos, entraremos em campo sem sair de casa.

A prática esportiva é encantadora por inúmeros motivos. A imprevisibilidade, a criatividade e a incerteza são alguns desses elementos. Teria este momento mundial alguma relação com o esporte? Seria possível o contexto esportivo ajudar de alguma forma? Perante o atual contexto, tomarei a liberdade de realizar algumas analogias e associarei essa situação a uma partida decisiva de futebol. Uma espécie de Copa do Mundo onde todos os países competem com um único adversário.

Tal partida supracitada tem como adversário o assustador Covid-19. Um tipo de coronavírus nomeado de SARS-CoV-2 que tem travado partidas dificílimas ao redor do mundo. Uma espécie de azarão que uma determinada equipe técnica, liderada pelo Dr. Vincent Cheng já alertava desde 2007. Infelizmente, há quem ainda alimente teorias conspiratórias infundadas que afirmam que esse time foi financiado com fins escusos pelo governo chinês. Uma espécie de doping genético, mas tal teoria não possui evidência alguma e já foi derrubada por pessoas sérias e comprometidas, como o Dr. Andersen e seus colaboradores.

Há pouco mais de 15 dias, o adversário chegou ao Brasil de forma, inicialmente discreta. Essa é uma das táticas já apontadas por times como China, Itália e Espanha, mas, infelizmente, o nosso técnico desconsiderou e chamou toda a equipe de histérica. Já sofremos alguns gols e nosso elenco já está, consideravelmente, desfalcado. Nossa equipe está abalada, mas a comissão técnica-científica e o departamento médico têm trabalhado incessantemente para recuperar os jogadores lesionados e evitar mais desfalques. Como diz um jargão do mundo esportivo: “o jogo só acaba quando termina”. Joguemos.

Coletiva à Imprensa do Presidente da República, Jair Bolsonaro e Ministros de Estado, Brasília/DF, 18 mar. 2020. Foto: Marcos Corrêa/PR.

Como toda equipe, em determinados momentos da partida, há aqueles que querem resolver sozinhos. Essa atitude pode até ser exitosa, mas muitas vezes atrapalha a equipe inteira e pode resultar na perda de uma chance de gol. Não podemos esquecer que já estamos atrás do placar. Há também aqueles que não entendem nada e acham que o jogo já está ganho, que o adversário é muito fraco, “uma gripezinha” e não precisa do empenho e do esforço coletivo. Todavia, o esporte nos ensina que esse tipo de comportamento é desrespeitoso e tende a culminar em derrota.

No decorrer dessa partida acirrada, fomos convocados de surpresa e não aquecemos bem. Tivemos de mudar toda a nossa periodização. Achávamos que não precisaríamos entrar em campo. Muitos de nós não estávamos atentos aos outros jogos desse adversário. Entrar desatento e com o jogo já rolando demanda um certo tempo para adaptação. Inicialmente, ficamos sem entender a logística e, em determinados momentos, as partidas podem ficar entediantes, monótonas, como se nada fosse acontecer. Esses momentos geralmente são delicados e precisam de cautela, pois uma ação mais imprudente pode desconfigurar todo um esquema tático e abalar ainda mais a nossa equipe.

Como já mencionei anteriormente, aqui no Brasil, tivemos a oportunidade de assistir as partidas anteriores do adversário e já sabíamos quais seriam as suas principais vias de ataque. Por mais que ainda não saibamos quais são as suas fraquezas, sabemos como inviabilizar as suas ações. A nossa comissão técnica-científica, outrora levianamente ofendida, já tinha informado e continua informando as maiores incidências e, a partir disso, elabora projeções. Nosso técnico já estava informado, mas insistiu no erro e descredibilizou novamente todo esse trabalho. Ele insiste na tática de ofender e menosprezar o adversário. Demonstra pouco conhecimento em liderança. Apresenta um despreparo e um descaso imenso com toda a equipe e não sabe manusear implementos básicos.

Felizmente a imprevisibilidade do resultado dessa partida tem gerado uma tensão potencialmente ativa. Já sabemos que não podemos contar com o técnico e todo o setor nutricional do clube bateu panelas em forma de protesto. Por mais ineficaz que possa ser, a manifestação surtiu efeitos positivos e resultou em uma maior coesão e união na equipe. Ainda que tenhamos sido, inicialmente surpreendidos, voltamos para o jogo e passamos a criar boas jogadas. A partida é dificílima e tende a mudar toda a infraestrutura do mundo esportivo. Seus desdobramentos ainda não são mensuráveis, mas tem produzido lances belíssimos.

Panelaço manifestação contra o Presidente Jair M. Bolsonaro no dia de seu aniversário, região da Av. Paulista, São Paulo/SP. 21 mar. 2020. Foto: Roberto Parizotti.

É importante ratificar que as recomendações e o rigor da concentração têm despertado formas muito criativas de lidar com essas restrições. O objetivo em comum tem produzido uma solidariedade coletiva significativa, mas, infelizmente, ainda há alguns “fominhas” que tentam, deliberadamente, burlar as regras, pois se acham estrelas.

Temos aprendido bastante no decorrer dessa partida. Muitas substituições precisam ser feitas subitamente e não podemos encher o departamento médico, pois caso haja uma superlotação, o andamento da partida será comprometido e a derrota muito provável. O desrespeito e o descumprimento das regras constitutivas podem reduzir drasticamente o nosso elenco e isso seria um indício que, de fato, falhamos enquanto equipe. Todos os jogadores são importantes. Nosso time precisa contar com a correria dos mais novos e mais novas e a experiência dos mais velhos e velhas. Algumas pessoas já estão no banco de reserva, mas ainda assim a presença é fundamental para a composição do nosso time. Não podemos esquecer dos momentos de glória e dos títulos já vividos.

Outra lição muito simbólica proveniente deste momento decisivo é que, por mais que os patrocinadores sejam importantes, nos momentos de crise, geralmente, eles cancelam os contratos e procuram algo mais rentável. Afinal, eles visam apenas o lucro. Temos de entender a importância do público, do nosso público que nos acompanha e permanece junto conosco.

Continuamos no jogo. Precisamos cumprir rigorosamente as recomendações da comissão técnica-científica. Fiquemos em casa. Lavemos as mãos. Parece pouco, mas não é. Todos somos fundamentais para derrotar esse adversário. Não esqueçamos dos demais setores do clube, eles também são essenciais. Por mais incerta que seja essa partida, só conseguiremos vencer juntos. Afinal… o show tem que continuar. E continuará!


Conversas com:

Andersen et al. 2020. Andersen, K. G., Rambaut, A., Lipkin, W.I. et al. The proximal origin of SARS-CoV-2. Nat Med (2020).

Cheng et a. 2007. Clin Microbiol Ver. 2007 Oct; 20(4): 660-694. Doi: 10.1128/CMR.00023-07.

@hugofernandesbio

@oatila