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Correção histórica: Mario Filho, “O negro no foot-ball brasileiro” e a quantidade de exemplares em circulação em 1947

Vinicius Garzon Tonet

Sem maiores pretensões, a minha proposta é simples e objetiva: apresentar, baseado em fontes primárias, que o livro de Mario Filho, “O negro no foot-ball brasileiro”, teve ampla circulação após sua publicação em 1947, não ficando restrito aos círculos das elites letradas do país. Inclusive, corro o risco de não estar falando nada de novo. Neste caso, o meu problema seria falta de leitura mesmo. De qualquer maneira, só descobrirei se estou chovendo no molhado caso publique este textinho. Bom, o que me motivou a escrever foi a incompatibilidade entre dados nas fontes primárias e as informações apresentadas no bom texto da pesquisadora Fernanda Haag, “Mario Filho e O negro no futebol brasileiro: uma análise histórica sobre a produção do livro” (2014), e na tese de doutorado de Antônio Jorge Soares, Futebol, raça e nacionalidade no Brasil: releitura da história oficial” (1998). Portanto, não pretendo realizar uma crítica, apenas uma correção pontual.

A historiadora Fernanda Haag afirma em determinado momento de seu artigo:

O negro no futebol brasileiro contou com 100 exemplares para a venda e 20 fora do comércio em sua primeira edição, tiragem bem pequena para a época, mesmo que não fosse o período de boom editorial da década de 30, o mercado possibilitava tiragens bem maiores. Livro pequeno com 295 folhas, capa amarela, com o título em vermelho e um pequeno desenho de uma bola, o gol e um jogador negro, de leitura acessível e tema tentador.” (p. 7).

Antes dela, Antônio Jorge Soares também havia constatado:

“A obra tem 295 páginas e, segundo consta no próprio livro, imprimiram-se 100 exemplares no formato 25×20, em Papel Holanda, numerados de 1 a 100”, e 20 exemplares numerados de I a XX, “fora de comércio”.” (p. 16).

A partir da crença de que O negro no foot-ball brasileiro tivesse tido baixo número de exemplares em sua primeira publicação, Soares pontua que “este dado pode indicar que a primeira edição teve pouca circulação” (Página 16), Haag também conclui:

“100 exemplares não dá a possibilidade de o NFB ter sido feito para o ‘grande público’, pelo contrário, parece direcionado para um público específico: basicamente os intelectuais.” (p. 7-8).

Capa da primeira edição de “O negro no foot-ball brasileiro”, de Mario Filho, publicada em 1947.

Coincidentemente, em artigo recém-publicado nesta página, o pesquisador Denaldo Alchorne de Souza faz afirmações no mesmo sentido de Soares e Haag:

“Um dado interessante sobre a edição de 1947 é o que trata de sua divulgação. Segundo informações contidas no próprio livro: a tiragem foi de apenas 100 exemplares e mais 20 de cortesia. Será que a repercussão que a obra obteve nos anos seguintes se deveu somente à edição de 1947, conforme consagrado na bibliografia especializada? Afinal, poucos privilegiados tiveram acesso à obra. Por outro lado, as tiragens diárias de O Globo na época estavam acima de 20 mil exemplares. Isso possibilitava o maior acesso das classes trabalhadoras às histórias sobre o foot-ball brasileiro, contadas pelo Mário Filho em suas crônicas. Parece que o livro estava direcionado a outro público, seleto e restrito, e revelava a intenção do autor de ser reconhecido pelo meio intelectual.”

Entretanto, anúncios do livro publicados tanto no Jornal dos Sports quanto n’O Globo Sportivo mostram que as coisas não foram bem assim. Na verdade, os pesquisadores fazem referência à edição de baixa tiragem, ou, então, como é chamada, “Edição de Luxo”, que custava à época Cr$200,00.

Porém, estava em circulação a “Edição Comum”, também denominada de “Edição Popular”, de Cr$30,00 e, ao que parece, sem numeração e destinada ao grande público. A livraria Civilização Brasileira era a distribuidora exclusiva e os leitores interessados poderiam adquirir um exemplar “em todas as livrarias e na redação de ‘Jornal dos Sports’”. Poderiam, também, solicitar via serviço postal, ao preencherem e enviarem um voucher para o jornal.

Sendo assim, tudo indica  que Mario Filho não se desviou do desejo de atingir as massas com seu livro predileto, como fazia no jornal. O livro possuía duas tipologias, preços distintos, várias formas de acesso e possibilidades de compra, assim como os anúncios perduram nas páginas d’O Globo Sportivo e do Jornal dos Sports pelo menos até 1949, ano em que suspendi minhas preocupações com a publicidade dedicada à obra.

É bem verdade aquilo que afirma Haag e Denaldo de Souza: Mario Filho desejava que sua obra chegasse aos intelectuais. As resenhas e livros com dedicatórias atestam esse fato. Só que Mario Filho nunca abandou o desejo de ver seu livro sendo lido por todos e isso é importante para que façamos um melhor juízo sobre O negro no foot-ball brasileiro quando da sua publicação. E parece que ele alcançou esse objetivo com o livro em questão e outros. Quando publica Viagem em torno de Pelé, em 1963, ou seja, um ano antes da segunda edição de O negro, aparecem como esgotados, em uma das contracapas, Copa Rio Branco, 32, Histórias do Flamengo, O negro no futebol brasileiro e Romance do Futebol.

Caso esses dados já tenham sido apontados por outros, fica aqui uma contribuição de fácil acesso no meio virtual.

Jornal dos Sports, 26 de março de 1947, p. 6.

Jornal dos Sports, 08 de fevereiro de 1949, p. 4.

Anúncio com o voucher. O Globo Sportivo, 21 de março de 1947, p.3.

P.S: Os textos podem ser acessados nos links abaixo:

HAAG, Fernanda Ribeiro. Mario Filho e O negro no futebol brasileiro: uma análise histórica sobre a produção do livro. Esporte e Sociedade. Rio de Janeiro, n. 23, 2014.

SOARES, Antônio Jorge Soares. Futebol, raça e nacionalidade no Brasil: releitura da história oficial, 1998.

SOUZA, Denaldo Alchorne. Mário Filho: a influência de Gilberto Freyre (1938-1950). Arquibancada. v. 116, n. 6, 2018.