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Crise na Catalunha e futebol: entenda o caso

Victor de Leonardo Figols

O clássico entre FC Barcelona e Real Madrid seria realizado no dia 26 de outubro, no Camp Nou. Entretanto, temendo a falta de segurança, devido à recente onda de protesto protestos na Catalunha, a Liga decidiu adiar o jogo para o dia 18 de dezembro.

A atual crise política na Catalunha, na verdade, tem raízes históricas muito mais longínquas. O movimento nacionalista e independentista da Catalunha surgiu por volta do século XVIII, e, ao longo dos séculos XIX e XX, essas questões se aprofundaram drasticamente, principalmente durante a Guerra Civil (1936-1939) e a ditadura de Francisco Franco (1939-1975). Todavia, a atual crise política têm novos elementos e, claro, outros desdobramentos.

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Protesto antes do jogo FC Barcelona x Inter de Milão, 02 de outubro de 2019. Foto: Wikipedia.

A grave crise econômica, que assolou o mundo em 2008, afetou diretamente a população mais jovem da Espanha, tanto que em 2011 teve início o Movimiento 15-M, ou as manifestações dos Indignados. As principais reivindicações eram mudanças na política econômica espanhola, mas também já era possível perceber ali que a estrutura da democracia representativa na Espanha já não fazia sentido para muitos jovens. Em suma, os Indignados reivindicavam drásticas mudanças políticas, econômicas e sociais.

Na esteira do 15-M, o partido Podemos surgiu com a proposta de ser uma terceira via política, na polarização entre o Partido Popular – PP (partido de direita com raízes franquistas) e o Partido Socialista Operário Espanhol – PSOE (centro-esquerda). Apesar de ter nascido com uma alternativa mais à esquerda, o Podemos assumiu um caráter mais de centro progressista, alinhando-se em alguns momentos com setores de centro-direita.

Na Catalunha, que historicamente tem um movimento nacionalista, os desdobramentos do movimento dos Indignados foram outros. A crise econômica, a falência da democracia representativa e o nacionalismo catalão ajudaram o movimento independentista a ganhar mais força. Tanto que em 2010, nas eleições regionais da Catalunha, os partidos pró-independência conseguiram conquistar algumas cadeiras no parlamento catalão: Convergència i Unió – CiU (centro-direita), com 62 cadeiras, Esquerra Republicana de Catalunya – ERC (centro-esquerda), com 10 cadeiras, Iniciativa per Catalunya Verds – ICV (esquerda), com 10 cadeiras, além da coligação Solidaritat Catalana per la Independència – SI, com 4 cadeiras. Aqui vale ressaltar que a CiU não teve caráter independentista até antes da crise, a mudança de postura ocasionou um racha no partido. Artur Mas fui um dos políticos que mudou de postura com relação à independência.

Com a maioria dentro do parlamento, Artur Mas (CiU) assumiu a presidência da Generalitat de Catalunya (equivalente ao governo do estado, aqui Brasil). Entretanto, dentro do espectro político tão heterogêneo, o nome de Artur Mas nunca foi uma unanimidade entre os partidos pró-independência. Aliás, em 2010, Artur Mas não falava publicamente sobre a independência da Catalunha. Àquela altura, propor independência não era uma hipótese para o líder da CiU.

Os impactos da crise de 2008 foram especialmente sentidos na Catalunha, região economicamente importante para a Espanha. Em 2008, antes da crise, o PIB da região era de mais de 200 bilhões de euros (um quinto do PIB espanhol) e a renda per capita era cerca de 28 mil euros, concentrando a maioria da população economicamente ativa. A Catalunha ainda abrigava grandes empresas espanholas, representando uma das regiões com maior número de exportação. A Catalunha também era um grande polo industrial e de serviços e o primeiro destino turístico da Espanha.

Depois de 2008, a região entrou em uma grande recessão. O PIB da Catalunha caiu drasticamente entre 2009 e 2013. A população catalã, sobretudo aquela mais afetada pela crise econômica (os mais jovens), viu na independência uma saída para a crise. Era uma resposta à crise política, mas também era o atestado de falência da democracia da representativa na Espanha.

As crescentes manifestações contra o governo espanhol também se tornaram manifestações independentistas. Tanto que no dia 11 de setembro, Diada Nacional de Catalunya (Dia Nacional da Catalunha), as manifestação daquele ano foram uma das maiores até então. Diante desse cenário, o parlamento catalão decidiu antecipar as eleições para contornar a crise política. Em 2012, os catalães foram novamente às urnas escolher os seus representantes. E, mais uma vez, o que se viu foi a vitória dos partidos pró-independência, mas, desta vez, com uma pluralidade ainda maior de siglas e orientação política. Ao todo, os partidos pró-independência da Catalunha conquistaram 87 cadeiras (CiU: 50; ERC: 21; ICV: 13; CUP: 3), assumindo ampla maioria dentro do parlamento. Aqui vale destacar a CUP (Candidatura d’Unitat Popular), de extrema-esquerda e favorável à independência da região.

 

O então líder do CiU, Artur Mas, que havia prometido convocar um referendo sobre a independência da região durante a campanha, iniciou uma corrida para formar um governo de coalizão com a ERC (do líder Oriol Junqueras) e, assim, viabilizar o referendo sobre a independência. Todavia, os partidos pró-independência, mesmo sendo a maioria no parlamento, nunca chegaram a um acordo, devido às diferenças ideológicas e à forma como idealizavam a independência.

Após dois anos de articulação entre parlamentares da Catalunha pró-independência e o presidência da Generalitat, e entre Mas e o governo espanhol, o tal referendo só seria realizado em 2014, em meio a inúmeras acusações de ilegalidade. O presidente do governo espanhol, Mariano Rajoy (PP), era contrário à realização do referendo e buscou formas inviabilizar sua realização. O então ministro da Justiça, Alberto Ruiz-Gallardón (PP), afirmava que o referendo não tinha bases legais e que a Constituição Espanhola de 1978 não previa que as Comunidades Autônomas votassem qualquer questão relacionada à unidade e à soberania nacional. A Constituição só permite que uma região se separe após um referendo nacional, em que todas as regiões votem. As proibições e a falta diálogo entre Rajoy e Artur Mas contribuíram para acirrar a tensão, já instaurada, entre Catalunha e Espanha.

O governo espanhol trabalhou em duas frentes para impedir que o referendo fosse realizado. Primeiramente, buscou bases legais para mostrar que o referente era inconstitucional, diante da Constituição Espanhola. Concomitantemente, o governo alterou o Estatuto Autonômico da Catalunha (espécie de constituição regional), reduzindo a liberdade política da região.

A saída para os catalães decidirem seu futuro foi a realização de uma consulta popular, organizada e realizada por cidadãos independentes de partidos políticos. Desse modo, a consulta não teria valor legal, diante do governo espanhol, mas, ainda assim, serviria como um termômetro para o governo catalão saber a opinião da população.

No dia 9 de novembro de 2014, foi realizada a consulta popular. As cédulas traziam duas perguntas: “1. Quer que a Catalunha seja um Estado?”; “2. Se sim, quer que a Catalunha seja independente?”. Os resultados oficiais foram contundentes. Dos 2,3 milhões de catalães que votaram (de um universo de 6,3 milhões votantes), 80,72% votam no “sim” para as duas perguntas.

A consulta deu brecha para que, de fato, fosse realizado um referendo sobre a autodeterminação da Catalunha. A participação civil e popular na organização da consulta ajudou a aproximar, ainda mais, a população da causa independentista.

O resultado da consulta acirrou ainda mais a crise entre Catalunha e Espanha. Poucos meses depois da população ir às urnas, Artur Mas antecipou as eleições para janeiro de 2015. O objetivo era usar as eleições como uma forma de plebiscito à favor da independência. A corrida eleitoral foi rápida, mas o suficiente para a coligação Junts pel Sí – JxSí (formada pelos partidos CiU e ERC, e com o apoio de movimentos sociais e associações pró-independência) conquistasse a maioria das cadeiras do parlamento. Os partidos pró-independência conquistaram 72 cadeiras, sendo que o JxSí conseguiu 62 cadeiras e a CUP, 10. A versão da sigla Podemos, na região, formou uma coligação chamada Catalunya Sí Que Es Pot – CSQEP (de centro-esquerda, que sinalizava favoravelmente pela autodeterminação da Catalunha) e conquistou 11 cadeiras. Do outro lado, os partidos contrários à independência conquistaram as cadeiras restantes: Ciutadans – C’s (centro-direita) com 25 cadeiras; Partit dels Socialistes de Catalunya – PSC (centro-esquerda, versão catalão da sigla PSOE) com 16; PP com 11. O mais interessante foi que 75% do eleitorado compareceram às urnas, um aumento em 10% em relação à última eleição. Isso sinalizou que boa parte da população queria mudanças. Aqui vale lembrar que o voto não é obrigatório na Espanha.

Em menos de cinco anos, a Catalunha realizou três eleições parlamentares, demonstrando que a democracia representativa necessitava de mudanças e a população enxergava na independência uma alternativa. Mas, mesmo com a coligação JxSí sendo maioria no parlamento, os deputados não chegaram a um acordo de como seria formado o governo. A CUP defendia a independências de forma unilateral, sem negociação com a Espanha, e, além disso, haviam divergências políticas com Artur Mas e com a coligação como um todo.

Em janeiro de 2016, após meses de negociação e formação de alianças, o JxSí decidiu apoiar o nome de Carles Puigdemont (CiU) como o novo presidente da Generalitat de Catalunya e o do Oriol Junqueras (ERC) como seu vice. Puigdemont assumiu o cargo de Artur Mas com a promessa de realizar o referendo pela independência da Catalunha e, consequentemente, dar início ao processo de emancipação da região.

Depois de quase um ano de articulação, alianças e negociações – e, claro, de manifestações populares –, os parlamentares conseguiram aprovar uma lei para organizar um referendo de autodeterminação da Catalunha. Tal lei tinha como base o Princípio da Autodeterminação dos Povos, da Carta das Nações Unidas. Enquanto isso, a oposição e o governo espanhol acusavam os parlamentares catalães de violar a Constituição Espanhola e o próprio Estatuto da Catalunha (o qual havia passado por revisão anos antes).

Ainda assim, no dia 1º de outubro de 2017 foi celebrado o referendo de autodeterminação da Catalunha. Antes mesmo das eleições, a polícia espanhola apreendeu cartazes e censurou as propagandas que incentivavam as pessoas a irem às urnas. Já durante todo o dia de votações, circulou nas redes inúmeros relatos, vídeos e fotos de pessoas (idosos, jornalistas, jovens) sendo gratuitamente agredidos por policiais. A ação desproporcional da polícia durante as eleições chamou a atenção do mundo e comoveu muitos cidadãos (catalães e mesmo espanhóis) que não eram a favor da independência, mas que entendiam que a população tinha o direito de votar e escolher seu futuro.

Manifestação pró-referendo – Montjuïc / Barcelona, 11 de junho de 2017. Foto: Wikipedia.

Nas urnas, o governo catalão anunciou que o “sim” havia conquistado 90% dos votos, sendo que 43% dos votantes participaram das eleições. Diferente do que ocorreu em 2014, essa votação aconteceu com o respaldo do governo catalão e possuía um valor legal maior do que a consulta popular de anos atrás. Todavia, teve muita participação popular na organização e na logística das eleições.

Após alguns dias de greve geral, reivindicações pela proclamação da república e forte repressão policial, o presidente Puigdemont proclamou a independência da Catalunha no dia 10 de outubro de 2017. Ainda assim, imediatamente, suspendeu a decisão à espera de dialogo entre governo catalão e governo espanhol, sob a mediação internacional.

Seis dias depois, os primeiros presos políticos, os ativistas independentistas Jordi Cuixart e Jordi Sànchez (dirigentes da Assembleia Nacional da Catalunha – ANC) foram acusados de rebelião. Aqui vale dizer que, durante todo o processo do referendo, manifestantes pró-independência e até mesmo artistas foram presos com a acusação de conspirarem contra a Espanha.

O diálogo com o governo espanhol na prática nunca existiu. A Espanha esperava que o parlamento fosse dissolvido e que novas eleições parlamentares fossem realizadas. E em meio às manifestações populares, repressão, prisões e arbitrariedades por parte do governo espanhol, Puigdemont e Junqueras recuaram ao não proclamar a república no dia 26 de outubro, romperam as negociações com o governo espanhol, e convocaram novas eleições. No dia seguinte, Mariano Rajoy cassou o mandato de Puigdemont, dissolveu o parlamento e convocou novas eleições.

Enquanto Puigdemont buscou exílio na Bélgica, Junquera e parte dos secretários de governo decidiram ficar na Catalunha. Ao todo, oito membros do governo foram presos com a acusação de rebelião. Dentre todos os presos políticos, quatro são mantidos em cárceres: Cuixart, Sànchez, Joaquim Forn e Junqueras.

Entre dezembro de 2017 e janeiro de 2018, um novo parlamento foi formado. Diferentemente do que o governo espanhol esperava, as legendas independentistas assumiram (novamente) a ampla maioria das cadeiras (JxCat, ERC e CUP). De um lado, JxCat e ERC defendiam o nome de um novo presidente, enquanto a CUP entendia que Puigdemont deveria assumir o cargo de presidente de Generalitat.

Entre janeiro e março de 2018, o governo espanhol prendeu outros políticos catalães acusados de promoverem a independência da região. Essas prisões colocaram novos elementos na crise insaturada. Em uma manifestação pacífica, a população passou a usar uma fita amarela para pedir liberdade aos presos políticos. O governo espanhol tentou criminalizar os laços amarelos e censurou o símbolo em prédios e eventos públicos. Enquanto isso, no exílio, o governo espanhol pedia para as autoridades da Bélgica a extradição de Puigdemont, que foi negada.

Pedido de liberdade aos presos políticos e a fita amarela, durante a partida FC Barcelona x Chelsea, 14 de março de 2018. Foto: Wikipedia.

A total falta de habilidade política para negociar com a Catalunha e contornar a crise que vinha se arrastando há anos custou o cargo de primeiro-ministro de Mariano Rajoy. O PSOE, de Pedro Sánchez, assumiu temporariamente o cargo com a promessa de convocar novas eleições nacionais.

Enquanto o processo de independência se arrastava sem muita definição, diversas empresas que tinham sede na Catalunha deixaram a região para se estabelecerem em outras partes da Espanha, parte dessa iniciativa foi promovida pelo próprio governo espanhol. A indefinição na região também provocou uma queda na atividade comercial e no turismo, afetando diretamente a economia da região. Mas, mesmo com a crise política, a economia da região registrava melhoras. No final de 2017, o PIB da Catalunha girava em torno de 223.988 bilhões de euros, registrando um aumento de 3,2% em relação ao ano anterior. Já a renda per capita era de 30.064 euros.

No campo social houve uma enorme polarização: de um lado, o crescimento do movimento independentista catalão; do outro, a reação foi o crescimento de movimentos em favor do nacionalismo espanhol. A ascensão de movimentos de extrema-direita é um fenômeno global que vem acompanhado de diversos fatores. Todavia, na Espanha, é possível perceber que esses grupos cresceram, também, em resposta ao movimento independentista catalão.

Em fevereiro de 2019, o Supremo Tribunal Espanhol começou o julgamento dos presos políticos, entre eles Oriol Junqueras. Os julgamentos se arrastaram até outubro, quando nove dos doze líderes independentistas foram condenados a 13 anos de prisão. Quase que imediatamente à decisão do Supremo, a população tomou as ruas para protestar contra decisão, pedindo a absolvição e a liberdade dos presos políticos.

Marcha pela Liberdade, Passeig de Gràcia, Barcelona, 18 outubro de 2019. Foto: Wikipedia.

Desde o dia 14 de outubro, a população catalã segue mobilizada com protestos diários e reivindicando a liberdade dos presos políticos. Os manifestantes já bloquearam estradas e aeroportos, decretaram greve geral em vários setores e seguem tomando as ruas pedindo a liberdade dos presos políticos e, é claro, a independência da região. As ações afetam a vida cotidiana na cidade, mas também é uma forma de pressionar o governo espanhol. Enquanto isso, as forças policiais seguem usando de força desproporcional contra os manifestantes. São incontáveis as denúncias de prisões arbitrárias, violência policial, perseguição e repressão aos manifestantes, acirrando ainda mais as tensões entre Catalunha e Espanha.

Enquanto a Catalunha segue mobilizada contra as arbitrariedades do governo espanhol, a Espanha mostra que não existe diálogo algum para solucionar uma crise que se arrasta há anos. E, pior do que isso, o governo espanhol vem colocando mais obstáculos na relação entre Catalunha e Espanha.

E o futebol?

O futebol tem tudo a ver com isso. Ainda mais quando falamos do FC Barcelona, um clube – que historicamente – associou sua imagem à Catalunha e, em alguns momentos, até levantou a bandeira da independência da região. Todavia, se observarmos os últimos 10 anos, isto é, o mesmo período em que as tensões se agravaram na Catalunha, veremos que dentro do FC Barcelona houve um mudança no posicionamento do clube com relação à região.

Quando a Espanha começava a entrar em uma forte resseção devido à crise, o FC Barcelona estava no caminho contrário, passando por uma profunda reformulação estrutural. No começo dos anos 2000, o clube havia vivido uma das suas piores crises econômicas e políticas. Os investimentos, nesse período, foram na formação de jogadores. Mas, em 2008, Laporta apostou no jovem técnico catalão Josep Guardiola e em um projeto de reformulação do elenco. Para a temporada 2008-2009, o clube gastou 90 milhões de euros em contratações, montando a base de um dos times mais vitoriosos da história do clube.

Foi na gestão de Laporta que o clube se aproximou ainda mais do catalanismo. O presidente expulsou a torcida de extrema-esquerda do Camp Nou, os Boixos Nois. O grito por independência no minuto 17 – relembrando a derrota na Guerra de Sucessão Espanhola e a anexação da Catalunha, em 11 de setembro de 1714 – virou uma tradição no estádio Camp Nou. As bandeiras independentistas (senyera), que já eram tradicionais no estádio, passaram a ser cada vez mais presentes. Em campo, a equipe com alguns jogadores catalães que se posicionavam a favor da Catalunha (Puyol, Xavi e Piqué), além do próprio técnico Pep Guardiola.

Em 2010, logo após deixar o clube, Laporta filiou-se ao Solidaritat Catalana per la Independència ­– SI e, naquele ano, foi eleito deputado no parlamento catalão. Entre  2012 a 2015, assumiu um cargo administrativo na prefeitura da cidade de Barcelona.

Se em 2008, o FC Barcelona era apenas o sétimo clube entre os mais ricos do mundo, distante do gigante inglês Manchester United (1º) e do espanhol Real Madrid (2º). Ao final da Era Guardiola (2008-2012), o clube já era a terceira maior economia entre os clubes de futebol. Nesse meio tempo, Laporta deixou a presidência do clube, e Sandro Rosell a assumiu.

Para além dos escândalos de corrupção envolvendo o nome de Rosell, o presidente do clube não tinha a mesma postura pró-Catalunha, assim como seu antecessor. Nas questões políticas, Rosell era bem mais discreto e suas preocupações eram com os negócios do clube. Tanto que, durante sua gestão, é possível notar um distanciamento do clube com a Catalunha, enquanto o clube firmava acordos com diversas empresas, inclusive com uma empresa do Qatar.

Sob a presidência de Rosell, o clube assumiu a vice-liderança no ranking dos clubes mais ricos do mundo, atrás apenas do Real Madrid. Todavia, em 2013, o clube abriu as portas do estádio Camp Nou para a realização do Concert per la Llibertat (Concerto pela Liberdade), um evento organizado por entidades civis e movimentos que visava promover a discussão sobre a autodeterminação e a independência da Catalunha.

Mosaic del Concert per la Llibertat, 29 de junho de 2013, Camp Nou. Foto: Wikipedia.

Na presidência do clube, Sandro Rosell ficou no cargo entre 2010 e 2014. Após sua saída, foi preso e condenado por corrupção. Seu sucessor foi Josep Maria Bartomeu, um homem tão discreto quanto Rosell no assunto política. No mesmo ano em que Bartomeu assumia a presidência do clube, a Catalunha realizava a consulta pública, e o clube não fez grandes manifestações sobre as votações. Na ocasião, apenas Piqué manifestou-se a favor da consulta.

No dia 1º de outubro de 2017, enquanto a Catalunha decidia, o FC Barcelona entrava em campo contra o Las Palmas, em um jogo com portões fechados, porque a polícia não conseguiria manter a segurança do evento (pois quase todo o efetivo estava nas ruas perseguindo e agredindo os eleitores). Entre os jogadores, Piqué recusou-se a jogar a partida, outros, como Messi, teriam pressionado o elenco a entrar em campo. Sob a amaça de perder pontos no campeonato, e buscando a liderança na competição, o FC Barcelona entrou em campo naquele dia. E ainda teve que ver a provocação do Las Palmas que entrou em campo com uma bandeira da Espanha estampada na camisa.

A diretoria manifestou-se apenas após a vitória do clube por 3 a 0. Em nota, o FC Barcelona defendia o direito da população em decidir seu futuro, e disse que não poderia abrir mão de disputar a partida. Dias depois, já com a seleção da Espanha, Piqué deu uma entrevista repudiando a ação policial durante as eleições e defendeu o direito da população catalã em votar.

Ao longo desta última década, a diretoria do clube foi se distanciando da questão independentista. Entretanto, cada vez mais, as arquibancadas do Camp Nou vêm se tornando um espaço de manifestações pró-Catalunha. Desde a prisão dos membros do governo, a torcida tem levado faixas pedindo liberdade dos presos políticos, justiça e liberdade na região. Enquanto os dirigentes tentam minimante desvincular a questão catalã do clube, a torcida relembra constantemente que o clube pertence à região e que a história do FC Barcelona é indissociável da história da Catalunha.

Referências

BRITO, Taíza. Catalunha: entre a esperança e a tempestade. Recife: Ed. do autor, 2019.