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Cristiano Lucarelli: um partigiano de Livorno

Thiago Carlos Costa

Vivemos em um futebol atual conectado com o mundo globalizado com cifras milionárias em contratos de transmissões, grandes eventos como Copas do Mundo, Champions League, Premier League, Copa Libertadores envolvendo bilhões de espectadores. Nesse rumo, visualizamos atletas elevados ao patamar de estrelas midiáticas e clubes como franquias multinacionais espalhando sua imagem e influência aos rincões do globo terrestre. Paralelamente, sem muita visibilidade podemos observar outro futebol, um movimento oposto ao midiático com personagens que transitam à margem mesmo dentro deste universo estetizado do esporte como negócio. Um exemplo desse futebol alternativo ou fora da linha comercial seria o ex-jogador e atual treinador de futebol italiano, Cristiano Lucarelli, que ficou marcado por conta de seus gols e o seu posicionamento político.

Cristiano Lucarelli

Cristiano Lucarelli, em desenho de Felipe Portes. Foto: Reprodução autorizada.

Para entender a figura de Lucarelli no futebol italiano e europeu, faz-se necessário observamos o contexto histórico das relações entre política e poder econômico no velho continente e seus desdobramentos. A relação do futebol e política na Itália nos leva aos tempos de Mussolini e os fascistas no poder, quando o uso da popularidade do esporte e a construção de símbolos nacionais foram uma ação recorrente e marcante. Como bem destaca o historiador Gilberto Agostino:

“Desde 1922, momento em que Mussolini chegou ao poder, os fascistas aproveitaram-se de toda força que o espetáculo esportivo podia vir a representar em uma sociedade de massas, conferindo inúmeras possibilidades de ritualização da fidelidade nacional e da legitimação da ordem vigente.” (AGOSTINO, 2002, p. 57).[1]

Em um primeiro momento, o futebol não ocupou a preferência de evento esportivo por parte do Governo Fascista, que priorizou esportes como: boxe, esgrima, tiro e natação. Nessas modalidades, o cunho de esportes de vocação mais bélica e de culto ao corpo atlético e à força física. Nesse momento, a Itália visualizou a construção de espaços para a prática esportiva como: piscinas, ginásios, pistas de ciclismos e estádios. Paralelamente, o futebol gozava de grande apelo junto às classes populares com dezenas de times e torcidas, chamando a atenção do Regime Fascista. Nesse caminho, em 1926 ocorreu um marco histórico dessa intervenção ocorreu por meio da Carta de Viarregio, quando foi elaborado um novo estatuto para o futebol na Itália, com unificação de times, campeonatos, regras para jogadores estrangeiros, estabelecendo com essas e outras normas um novo status para os atletas de futebol. Nesse processo, os dirigentes fascistas perseguiram os times e torcidas com qualquer filiação ou tendência que fizesse alusão ou referência ao socialismo, estabelecendo desde então um campo de tensões e significados entre política e futebol.

Após a grande repercussão da realização da Copa do Mundo de 1930 no Uruguai, os dirigentes fascistas começaram a olhar mais atentamente para a instrumentalização do futebol enquanto elemento aglutinador de massas. Tanto que o governo italiano candidatou-se à sede do mundial junto à FIFA, em um processo em 1932 que ficou marcado por denúncias de corrupção e suborno que fechou com a escolha da Itália para ser sede da Copa do Mundo de 1934. Nos anos que antecederam ao mundial, ocorreu um estímulo de talentos de jogadores oriundos de Brasil, Argentina e Uruguai que tinham ascendência italiana, os chamados oriundi. Vale ressaltar que a escolha destes jogadores estrangeiros era feita a dedo, para preservar o discurso de superioridade racial e nacionalista que o fascismo pregava. A Copa de 1934 transcorreu na Itália, com estádios lotados e o êxito dos azurri, apesar das contestações de arbitragens duvidosas por parte dos adversários dos italianos. No jogo final entre as seleções da Itália e Tchecoslováquia, diante de mais de 75 mil pessoas, os italianos venceram por 2 a 1, em um jogo dramático decidido apenas na prorrogação. O contorno personalista de Mussolini foi explorado ao longo do evento e, obviamente, no dia da final, quando o chefe de Estado entregou a taça aos campeões, foi aclamado pela torcida dentro de todo simbolismo que o evento carregava. Como aponta Agostino:

“Mussolini compareceu ao estádio juntamente como todo o Ministério e fez questão de entregar o troféu da vitória ao capitão dos azurri. A vitória foi saudada como reflexo de uma Nação forte e preparada para enfrentar os inimigos, em um momento em que os planos governamentais se inclinavam cada vez mais para a invasão da Etiópia, que seria concretizada nos próximos meses.” (AGOSTINO, 2002, p. 62).

A Squadra Azurra manteve a base do time campeão na Copa de 1938, disputada na França, onde conquistou o bicampeonato, mesmo com toda a animosidade da torcida francesa, que já se colocava como antifascista. O selecionado italiano venceu a seleção brasileira em uma semifinal polêmica, e conquistou o seu segundo título mundial sobre a seleção húngara. Às vésperas do jogo final, a delegação italiana recebeu o famoso telegrama de Mussolini com a mensagem famosa: “vencer ou morrer”. Com o êxito, os atletas da azurra foram recebidos como verdadeiros heróis nacionais pela multidão em transe na Itália, que via paralelamente o orgulho nacional se cristalizando no âmbito esportivo e social, às portas da Segunda Guerra Mundial.

Passados alguns anos da Segunda Guerra Mundial e o fim do Regime de Mussolini na Itália, o calcio, como os italianos chamam o futebol, continuou popular, com a formação de times e jogadores históricos. Com a profissionalização do futebol na Itália em meados da década de 1930, a Juventus de Turim consolidou-se como grande potência esportiva, seguida por rivais como Milan e Internazionale principalmente. Vale ressaltar também o pentacampeonato nacional conquistado pelo grande time do Torino entre as temporadas 1942-43[2], 1945-46, 1946-47, 1947-48 e 1948-49. Uma geração brilhante que foi interrompida por um trágico acidente aéreo quando o avião que trazia a delegação do Torino de Lisboa, chegando em Turim se chocou contra a torre da Basílica de Superga, vitimando toda a delegação daquele vitorioso time. Observando esse intervalo de vitórias do Torino, a hegemonia do futebol italiano concentrou-se nas mãos da Juventus com 35 títulos do campeonato nacional, seguido por Milan e Internazionale, ambos com 18 títulos nacionais.

Ao longo dos anos de 1960, o treinador Helenio Herrera desenvolveu o famoso e vitorioso esquema tático catenaccio, popularizado como retranca, que marcou época na Internazionale e se colocou como tendência no futebol italiano. Nesse rumo, com jogos de contra-ataque e disputados em força física, linhas defensivas fortes, jogadores fortes fisicamente o gol passou a ser artigo de luxo no futebol italiano. Com jogos decididos em detalhes, com lançamentos e contra golpes rápidos e precisos, o futebol italiano viu surgir a consolidação da Juventus como grande força nacional do calcio. Vale lembrar aqui que os donos da Juventus são a Família Agnelli, que discretamente construíram um império econômico na Itália e tinham no futebol um grande e lucrativo lazer. Denúncias de corrupção de arbitragens são históricas no futebol italiano, e a Juventus geralmente está no centro dessas questões, mesmo sendo o time mais popular da Itália. As relações da família Agnelli com políticos democrata-cristãos mantiveram-se ilesas até início dos anos 1990, com a deflagração da Operação Mãos Limpas. Nessa reorganização das forças políticas na Itália, ganhou força a figura do magnata das comunicações, Silvio Berlusconi, que, ligado ao seu grupo político de centro-direita, usou da tríade política-futebol-imprensa para se consolidar no poder na Itália. Berlusconi havia comprado o tradicional clube do Milan em meados dos anos 1980, e já no final da década colhia os frutos esportivos de seu investimento com times vitoriosos e repletos de estrelas do futebol mundial.

Entre os anos de 1980 até início da década de 2000, o futebol italiano destacou-se como o mais lucrativo, midiático e disputado campeonato nacional no mundo. Com jogos disputados por estrelas mundiais, grandes fortunas em campo, e decididos em placares apertados, uma “ajudinha” extra era bem-vinda. Como bem aponta o jornalista Frank Foer:

“Inegavelmente, Juventus e Milan obtêm mais benefícios de arbitragens amigáveis que quaisquer outros clubes italianos. E, de certa forma, isso não choca. Os clubes grandes, historicamente dominantes, parecem gozar universalmente do benefício da dúvida. Mas a manipulação dos árbitros na Itália é coisa bem deliberada. Juventus e Milan usam dois caminhos diferentes para obter um tratamento generoso, esse dois modos não revelam apenas um contraste entre organizações. Revelam diferenças básicas entre seus proprietários – as forças mais poderosas na Itália do pós-guerra, representantes de dois estilos muito diversos de oligarquia.” (FOER, 2005, p. 151).[3]

Nesse contexto, com jogos duros decididos às vezes em gols dramáticos e por vezes campeonatos resolvidos forma nada ortodoxa, a figura dos centroavantes torna-se central neste texto e no campo esportivo. Na temporada 2004-05, um centroavante de 1,88 de altura e com 85 quilos, chamado Cristiano Lucarelli jogando pelo Livorno ganhou notoriedade como o artilheiro do Campeonato Italiano por seus gols e visão política. Lucarelli havia começado sua carreira profissional na série B em 1993 pelo Perugia e rodara por Cosenza e Padova, ainda na segunda divisão nacional. Até que, em 1997, disputara a Série A pela primeira vez pelo Atalanta e, nesse mesmo ano, chamara a atenção ao marcar o gol da vitória da seleção italiana na Euro sub-21 contra a Morávia. O atacante levantara a camisa com a estampa do rosto de Che Guevara[4] com as cores do Livorno, time da sua cidade natal. Detalhe: o jogo era disputado em Livorno, levando a torcida local ao delírio. Como resultado, Lucarelli fora multado e expulso do campeonato. Mas nesse momento o atacante passava a chamar a atenção para além dos seus gols e soube muito bem explorar essa imagem de “rebelde do futebol”. Em um país marcado pela divisão política entre grupos de direita e esquerda, posicionar-se em um prisma político não era exclusividade de Lucarelli. Outros antes dele já haviam percorrido caminhos semelhantes, como o meia Paolo Sollier e o atacante Pietro Anastasi. Tanto Sollier e Anastasi ficaram marcados por posicionamentos políticos na Itália nos anos 1960 e 70, em uma época em que se posicionar como socialista era uma luta simbólica contra o sistema político vigente na Itália.

Lucarelli vestindo a camisa 99 do Livorno. Foto: Reprodução/Twitter.

Entre 1999 e 2003, Cristiano Lucarelli jogara no Valencia, Lecce e Torino até chegar ao seu clube do coração em 2003, onde construiria sua biografia e simbologia. O estilo de atacante “bomber”[5] dividia os holofotes com sua posição ideológica com um pé dentro do futebol globalizado e outro no futebol romântico. O atacante, nascido na região da Toscana, tatuou o escudo do time do coração no seu antebraço esquerdo, algo raro e bem peculiar. E participou da fundação do grupo de ultràs: Brigate Autonome Livornesi (já extinto), uma torcida marcada por posições políticas à esquerda. Este grupo fora fundado em 1999, e Lucarelli utilizava o número 99 em suas camisas em referência a esse grupo. Mas o imaginário coletivo sobre o rebelde do futebol – Lucarelli – já estava construído, como bem afirma Nelson Oliveira no Portal Calciopédia:

“Por bem ou por mal, Cristiano Lucarelli é um dos personagens mais marcantes da Serie A moderna, mesmo depois de ter se aposentado. Matador, explosivo e polêmico, o ex-atacante chamava atenção pelo futebol que demonstrava em campo, mas também por ser uma personagem interessante. Ele passou por mais de uma dezena de clubes, mas se destacou mesmo no de sua cidade, o Livorno – pelo qual também torce desde moleque e que só foi defender mais perto do final da carreira, inclusive na primeira divisão. Lucarelli também ficou conhecido por seu ativismo político, que manifestou vestindo a camisa dos toscanos[6]”.

Sobre Livorno, cidade natal de Cristiano Lucarelli, vale lembrar a história política que cerca a região. Nessa cidade marcada majoritariamente por trabalhadores portuários, foi fundado o Partido Comunista Italiano em 1921, momento em que o fascismo também ganhava força na Itália, delimitando os polos de disputa política italiana. Olhar para Livorno ajuda a entender a figura de Lucarelli, e compreender de onde ele falava e para quem ele se apresentava.

“Livorno é uma cidade especial […] As crianças escutam velhas canções festivas para dormir em vez de canções de ninar. O toque do celular de Cristiano Lucarelli é o hino socialista “Bandiera Rosa” […] Lucarelli é um jogador de futebol não convencional.” (NIVA,2019, p. 164).[7]

Essas são indicações do contexto onde Lucarelli cresceu e se desenvolveu com todo clima ideológico que significa fazer oposição ao poder instalado na Itália. Como bem afirma o jornalista espanhol Quique Peinado:

Lucarelli, el hijo más auténtico de la ciudad, habrá de encerrar todo lo que significa Livorno en sí misma, convirtiéndose en metáfora, bandera e icono de la ciudad como santísima trinidad roja y futbolera de impacto mundial. La suya es, quizá, la historia más bella del fútbol contemporáneo, aunque, por muy bien que se mire, no tiene final feliz. Eso sí, supone un viaje apasionante, tanto como la naturaleza de Livorno[8]. (PEINADO, 2013, p. 128).

Nessa linha Lucarelli ainda fundou um jornal em Livorno, o Corriere de Livorno, indo na contramão do comportamento padrão dos jogadores de futebol de sua época. A justificativa de Lucarelli para a criação do jornal era a de ampliar a diversidade de opinião, quando pontuou que Livorno era uma das poucas cidades italianas que tinha apenas um jornal diário. Porém, em 2007, essa permanência do jogador em Livorno foi rompida, quando Lucarelli se transferiu para o Shakhtar Donetsk da Ucrânia. O atacante e o time receberam bons milhões de euros nessa transação, e Lucarelli ainda lucrou com a imagem de ir jogar em um centro alternativo do futebol europeu e em um time criado por mineradores do leste da Ucrânia. Mas, não é bem assim, nessa época o clube do Shakhtar já era de propriedade do empresário ucraniano Rinat Ajmetov, o homem mais rico do país, que montou um supertime com uma legião de estrangeiros com jogadores sul-americanos, africanos e europeus. A passagem de Lucarelli por Donetsk foi curta, e em menos de um ano ele estava de volta à Itália para atuar pelo Parma, com quem manteve contrato até 2012, tendo duas passagens por empréstimo ao Livorno e Napoli. Em 2012, Lucarelli encerrou a carreira como jogador profissional, e iniciou sua trajetória como treinador em times de menor expressão, mas sua imagem como um jogador diferente do padrão atual, com posicionamento político à esquerda, já estava consolidado.

Considerações finais

Em um país como a Itália, com o poder marcado por posições políticas majoritárias por partidos de extrema-direita e centro-direita, controle dos meios de comunicação e de eventos esportivos, colocar-se contra isso, eventualmente, pode te colocar à esquerda. Em um prisma bem lógico, se o campo ideológico à direita está ocupado, opor-se a isso, logicamente, te põe à esquerda; e na Itália esses polos parecem bem claros ao longo dos séculos XX e XXI. A figura de Cristiano Lucarelli é bem interessante para se pensar outro futebol no contexto político e social em que foi forjada, e como ele construiu e usou essa imagem. Para além da romantização em torno do “Rebelde Lucarelli”, que é feita hoje em redes sociais, revistas, filmes, livros e portais de futebol, Lucarelli de certa forma premeditou isso, observando seu próprio discurso e ações como essa: “Alguns jogadores compram uma Ferrari ou um iate. Eu comprei uma camiseta do Livorno.” (NIVA,2019, p. 164). Não é que Cristiano Lucarelli não seja autêntico, mas é necessário pensar para além do óbvio e projetar que o jogador falava para seus pares e pensando em como construir sua própria biografia com a mesma eficiência em que marcava gols por atacado.

A proposta deste texto não foi de romantizar a figura de Lucarelli, e nem estetizar o mesmo como um rebelde do futebol. Propomo-nos aqui lançar um olhar para Cristiano Lucarelli enquanto um atleta de futebol de alto rendimento com um comportamento que reflete o contexto ao qual ele nasceu e se criou. Até como é o título deste texto, “Cristiano Lucarelli: um Partigiano de Livorno”, uma analogia a Resistenza italiana ou partigiana, que se organizou contra o fascismo e ocupação nazista. Essa resistência de Lucarelli a um futebol globalizado e mercadológico, mesmo que o atacante italiano tenha transitado entre esses dois universos. E é justamente nesse trânsito que torna o simbolismo em torno de Lucarelli interessante para se pensar como o futebol se construiu ao logo dos dois últimos séculos, dialogando com o escritor uruguaio Eduardo Galeano: “a história do futebol é uma triste viagem do prazer ao dever. Ao mesmo tempo em que o esporte se tornou indústria, foi desterrando a beleza que nasce da alegria de jogar só pelo prazer de jogar”.


Notas

[1] AGOSTINHO, Gilberto. Vencer ou morrer: futebol, geopolítica e identidade nacional. Rio de Janeiro: Mauad, 2002.

[2] O campeonato italiano foi interrompido entre os anos de 1943-44 e 1944-45 por conta da Segunda Guerra Mundial,

[3] FOER, Franklin. Como o futebol explica o mundo: um olhar inesperado sobre a globalização. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

[4] Para mais, ver o vídeo do jogo.

[5] Ver este artigo da Trivela. 

[6] Conferir este link.

[7] KUHN, Gabriel. Futebol versus poder. Rio de Janeiro: Corner, 2019.

[8] PEINADO, Quique. Futbolistas de izquierdas. Madrid: Léeme Libros, 2013.