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Croácia durante a Segunda Guerra: fascismo que cria raízes

Copa Além da Copa

A seleção croata foi a grande história da Copa do Mundo de 2018. Regida pelos meio-campistas Luca Modric e Ivan Rakitic, surpreendeu a todos e conseguiu chegar à final, parando apenas na equipe da França que levantou o caneco.

Porém, não foi só dentro das quatro linhas que os croatas viraram notícia: durante a competição, um vídeo com vários jogadores da seleção cantando uma música da banda Thompson foi publicado pelo zagueiro Dejan Lovren. A canção, chamada Bojna Cavoglave, é um hino nacionalista que faz referência ao Estado Independente da Croácia, um fantoche nazista na região dos Bálcãs durante a Segunda Guerra Mundial.

O Estado Independente da Croácia era comandado por uma milícia chamada Ustase. A saudação principal, “Za dom spremmi”, é citada em Bojna Cavoglave e foi repetida pelos atletas. Em outro episódio ainda no Mundial, o zagueiro Damagoj Vida usou gritos nacionalistas ucranianos após os croatas eliminarem a Rússia. Tais gritos também são associados com o neonazismo.

Mas, afinal, o que foi o Estado Independente da Croácia? E de que forma a história desse país faz com que ainda seja tão comum se associar ao que foi um Estado fantoche do nazifascismo?

Esse texto é um complemento ao episódio de junho do podcast Copa Além da Copa, que fala sobre o uso do esporte pelos estados nazifascistas das décadas de 1930 e 1940. Para ouvi-lo, clique aqui!

O eterno sonho da independência

Estima-se que os croatas chegaram na província romana da Dalmácia por volta do século VII. Desde então, foram muitas idas e vindas entre ter Estados próprios, como aconteceu entre 925 e 1428 com o Reino da Croácia, e a submissão, principalmente à dinastia Habsburgo.

Com a dissolução do Império Austro-Húngaro ao final da Primeira Guerra Mundial, o parlamento croata votou pela união aos vizinhos eslovenos e sérvios em um estado soberano. Inicialmente Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, ele logo passou a se chamar Reino da Iugoslávia.

Sob o Reino da Iugoslávia, já havia muita tensão étnica. Com a ocupação do país pela Alemanha e pela Itália em 1941, os problemas apenas cresceram. O regime instalado na Croácia, comandado pelos Ustase, foi um dos mais violentos de toda a Europa.

Ustase: O terror genocida

“Za dom spremmi”, ou “pela pátria, prontos”. Sob esse lema, os Ustase instalaram um regime de pleno terror na Croácia durante os anos da Segunda Guerra Mundial. Para um lugar tão pequeno, a contagem de corpos assusta: foram entre 220 mil e 340 mil sérvios mortos como limpeza étnica. Isso sem contar os judeus e os ciganos.

Os Ustase eram tão sanguinários que até mesmo os alemães se assustaram. Há registros de cartas trocadas entre oficiais da Gestapo na Croácia e Adolf Hitler comentando que algo deveria ser feito para parar o extermínio de sérvios.

Adolf Hitler se encontrando com Pavelić, em 1941. Foto: United States Holocaust Memorial Museum/Wikipédia.

Enquanto isso, o futebol já era um esporte popular na Croácia. E foi durante esses anos do Estado Independente da Croácia que a seleção jogou suas primeiras partidas. Foram quinze amistosos entre 1942 e 1945, todos contra outros países que faziam parte do Eixo. Vale mencionar também que, mesmo sendo apenas um fantoche da Alemanha nazista na região, a FIFA aceitou o Estado como membro.

De toda forma, é importante notar que esses primeiros passos da seleção nacional formaram uma base nacionalista que até hoje se reflete, de forma inconsciente ou não, no futebol croata. Para um país que é atualmente tão jovem, essa memória é o que há para se apegar.

Futebol na época da guerra

Os Ustase surgiram para combater sérvios, mas à medida em que se aproximavam dos nazistas alemães, eles passaram a perseguir também os judeus. Já em 1936, Ante Pavelić, que seria o líder do Estado Independente da Croácia, descrevia o povo judeu como a maior ameaça aos croatas, atrás apenas de sérvios e maçons, mas à frente dos comunistas.

Portanto, não é de se estranhar que, uma vez no poder, os Ustase ordenaram o fechamento de dois clubes de futebol ligados aos judeus: o Makabi Zagreb e o Makabi Osijek. Os membros do Makabi de Zagreb seriam enviados ao campo de concentração e de extermínio de Danica, o primeiro construído pelos Ustase, onde seriam quase todos mortos. Eram jovens que tinham entre 17 e 25 anos.

No entanto, exceto pelos clubes judeus, o esporte seguia normalmente no Estado Independente da Croácia durante a Segunda Guerra Mundial. Uma das vantagens de ter os Ustase como líderes era essa estabilidade aparente, enquanto o Reino da Iugoslávia seguia em disputa.

Nesse contexto, um clube específico de Zagreb se destacava: o Gradanski. Fundado em 1911, ainda sob o domínio do Império Austro-Húngaro, o clube surgiu justamente com a pretensão de representar a identidade croata naquela nação. O período de ouro de sua história foi o entreguerras, dominando o futebol do Reino da Iugoslávia. No entanto, seus jogadores, os melhores do país, costumavam boicotar a seleção nacional, que não consideravam representativa de sua nacionalidade.

Quando os Ustase declararam o Estado Independente da Croácia e surgiu o que seria o embrião de uma liga croata, com a participação de oito equipes, foi o Gradanski que teve as conquistas mais significativas.

Colaboracionismo futebolístico

No início de 1945, os partisanos comandados por Josip Broz Tito derrotaram as forças do Eixo que dominavam a região e o poder dos Ustase chegou ao fim, assim como o Estado Independente da Croácia. Foi fundada a República Socialista Federativa da Iugoslávia, com Tito como seu comandante.

Como em quase toda a Europa no pós-guerra, houve um processo de passar a limpo o que ocorrera nos últimos anos. A postura de clubes como o Gradanski e de outros daquela época, como seus rivais HAŠK e Concordia Zagreb, foi vista como colaboracionista pelo governo socialista. Disputar uma liga bancada por um Estado fascista, em meio aos horrores da guerra, era uma afronta.

Para efeito de comparação, essa era uma postura completamente diferente de outro grande clube croata, o Hajduk Split. A cidade de Split foi anexada à Itália fascista em 1941 e o clube, que também já era proeminente na liga iugoslava do entreguerras, se recusou a disputar o campeonato italiano.

Após a queda da Itália em 1943, Split foi transferida para o comando dos Ustase. Mais uma vez, o Hajduk negou o convite para disputar uma liga fascista. Pelo contrário: vários de seus jogadores se juntaram aos partisanos de Tito no combate, tornando-se símbolo da resistência iugoslava. O próprio Charles de Gaulle, líder da resistência francesa, daria ao Hajduk Split o status de clube honorário da França Livre.

Já Gradanski, HAŠK e Concordia foram todos fechados e tiveram seus arquivos destruídos pelos socialistas ao fim da guerra.

Iugoslávia socialista

Vida comemora gol nas quartas de finais contra a Rússia. Foto: Alexander Veprev/Wikipédia.

Dias após o fechamento das portas do Gradanski, surgia o Dínamo Zagreb, seu herdeiro. O Dínamo contou com ex-jogadores do clube antecessor, dirigentes e, é claro, sua torcida, que não deixaria de acompanhar futebol.

O período da Iugoslávia socialista fez com que as tensões entre croatas e sérvios se acalmassem, embora o Dínamo permanecesse como um símbolo de uma outra época, de uma Croácia independente.

Não à toa, quando a Iugoslávia começa a dar indicativos de um possível desmantelamento após a morte de Tito, é no futebol e especificamente no Dínamo que o nacionalismo croata ganha força. Incidentes numa partida entre o Estrela Vermelha, um clube sérvio, e o Dínamo, em maio de 1990, são considerados o início da guerra de independência da Croácia.

Aliás, após a vitória croata na guerra, por um breve período, o Dínamo Zagreb mudou de nome para HAŠK Gradanski. Mas já não havia sentido nisso, uma vez que o nome Dínamo era consagrado e tinha durado muito mais tempo, fazendo com que a mudança fosse desfeita rapidamente.

Por fim, é importante ressaltar: o Estado croata atual não reconhece a Croácia fascista dos anos 1940 como sua legítima predecessora. Por isso, as manifestações dos jogadores durante a Copa de 2018, embora devam ser contextualizadas, não podem ser aceitas.