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A Croácia e o legado da extinta Iugoslávia no futebol

Guilherme Eler

Com a desintegração da Iugoslávia na década de 1990, o leste europeu passou a contar com uma série de novas repúblicas autônomas. Mais do que o começo de um período geopolítico marcado por intensas guerras étnicas e massacres de civis, a independência de Macedônia, Bósnia-Herzegovina, Eslovênia e Croácia serviu também para iniciar uma nova era do esporte nessa parte do continente.

Até então, todas essas nações competiam sob a bandeira da Iugoslávia, que alcançou resultados importantes no futebol da segunda metade do século 20. Entre as boas participações do país, destacam-se duas medalhas de prata nos Jogos Olímpicos de 1948, disputados em Londres, e 1952, de Helsinque. Em quatro participações em Eurocopas, campeonato de seleções em que só jogam países europeus, os iugoslavos chegaram nas finais de 1960 e 1968.

A relevância internacional da nação no futebol apareceu também em Copas do Mundo: foram oito edições disputadas até a dissolução. A Iugoslávia estava entre as 13 convidadas pela Fifa para disputar o mundial de 1930, o primeiro realizado pela entidade e, em 1962, alcançou seu melhor resultado: um quarto lugar na Copa do Chile. Outro momento de relevo veio com a conquista do mundial sub-20 de 1987, realizada no mesmo país.

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Croácia na Copa de 2014. Foto: Danilo Borges/Portal da Copa.

4º lugar foi a melhor colocação
da Iugoslávia em Copas do Mundo

A Copa da Itália, de 1990, foi a última competição de grande porte que contou com a participação de uma Iugoslávia multiétnica, composta por sérvios, eslovenos, bósnios, macedônios, montenegrinos e croatas. Em 1992, o país foi banido da disputa da Eurocopa por determinação do Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas). A motivação era a mesma que fez a equipe ficar de fora também da Copa de 1994: os conflitos militares que marcavam o país e, por sua violência, chamavam a atenção da comunidade internacional.

Antes da criação do Estado da Sérvia e Montenegro, em 2003, e do fim definitivo da Iugoslávia, o país chegou a jogar a Copa de 1998 e a Eurocopa de 2000. Anos antes disso, porém, as repúblicas autônomas já participavam de campeonatos sob sua própria bandeira, e começavam a construir sua própria história nacional no futebol.

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A primeira a se destacar nesse sentido foi a Croácia. Impedidos de disputar o mundial da Fifa de 1994, por não participarem do processo de eliminatórias, os croatas iniciaram sua trajetória internacional em 1996, disputando sua primeira Eurocopa.

Foi a estreia do país em Copas do Mundo, em 1998, no entanto, que iniciou a trajetória da Croácia como sucessora da Iugoslávia no futebol. Liderados por Davor Suker, artilheiro do torneio, os croatas derrotaram adversários importantes, como Dinamarca e Alemanha, e alcançou a terceira colocação no mundial da França. Desde então, o país é o que mais acumula participações em competições importantes, ficando de fora apenas da Copa de 2010 e da Eurocopa de 2000.

DESEMPENHO DAS EX-REPÚBLICAS IUGOSLAVAS
CROÁCIA
Eurocopa de 1996 – Quartas-de-final
Copa do Mundo de 1998 – 3º lugar
Copa do Mundo de 2002 – Fase de grupos
Eurocopa de 2004 – Fase de grupos
Copa do Mundo de 2006  – Fase de grupos
Eurocopa de 2008 – Quartas-de-final
Copa do Mundo de 2010  – Não se classificou
Copa do Mundo de 2014 – Fase de grupos
Eurocopa de 2012 – Fase de grupos
Eurocopa de 2016 – Oitavas-de-final
Copa do Mundo de 2018 – Classificada

SÉRVIA
Copa do Mundo de 2006* – Fase de Grupos
Copa do Mundo de 2010 – Fase de grupos
Copa do Mundo de 2018 – Classificada
* sob o nome de Sérvia e Montenegro

ESLOVÊNIA
Eurocopa de 2000 – Fase de Grupos
Copa do Mundo de 2002 – Fase de Grupos
Copa do Mundo de 2010 – Fase de Grupos

BÓSNIA
Copa do Mundo de 2014 – Fase de grupos

MACEDÔNIA, MONTENEGRO E KOSOVO
Sem participações

A Croácia e o passado iugoslavo

A Federação Croata de Futebol foi fundada em 1912, e oficializou sua filiação à Fifa em 1941. Nessa época, durante a Segunda Guerra Mundial, a Croácia chegou a jogar alguns amistosos com países da região, que antecederam um hiato que duraria quatro décadas.

O primeiro jogo oficial da federação croata aconteceu em outubro de 1990 – um amistoso contra os Estados Unidos, realizado em Zagreb. Alguns fatores contribuíram para que, a partir de então, o país ganhasse destaque no cenário internacional.

Histórico de bons jogadores

Se o futebol iugoslavo tinha lugar de destaque em âmbito internacional a partir da década de 1960, as equipes dos países que formavam a Iugoslávia também experimentavam sucesso semelhante.

Em 1961, o Dínamo de Zagreb chegou à semifinal da então “Taça dos Clubes Vencedores das Taças”, segundo título europeu de clubes mais importante da época. Na temporada seguinte, 1962/1963, a equipe foi finalista da “Taça das Cidades com Feiras” (campeonato precursor da Liga Europa), conquistando o título da mesma competição em 1966/67.

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Rakitic é um dos destaques da seleção croata. Foto: Danilo Borges/Portal da Copa.

Outro caso foi o do HNK Rijeka, que alcançou as quartas-de-final da “Taça dos Vencedores das Taças” em 1978/1979 e da Taça Uefa de 1983/1984. Também durante a década de 1970, o HNK Hajduk Split, chegou às quartas-de-final de competições como a Taça dos Clubes Campeões Europeus (atual Liga dos Campeões) e Taça Uefa, além de uma disputar uma semifinal de “Taça dos Vencedores das Taças” (Recopa Europeia).

Tais equipes citadas como referências do futebol iugoslavo no período têm um comum o fato de pertencerem à Croácia. Esse desempenho croata refletia, também, na então seleção nacional. Quando o Hajduk Split dominava a liga iugoslava nos anos 1970, tendo conquistado quatro campeonatos e cinco copas nacionais, até 12 jogadores da equipe chegaram a ser convocados para a seleção da Iugoslávia.

Entre os artilheiros das campanhas da Iugoslávia na Eurocopa de 1960 e na Copa do Mundo de 1962, no Chile, por exemplo, estava o atacante croata Dražan Jerković. Josip Skoblar, um dos jogadores mais importantes da Croácia nos anos 1970, chegou a receber o prêmio “Chuteira de ouro”, dado ao atleta com mais gols em ligas europeias. Foram 44 gols marcados no Campeonato Francês durante a temporada 1970/1971, quando jogava pelo Olympique de Marseille.

Hoje, nomes croatas como os de Luka Modrić, do Real Madrid, Ivan Rakitić, do Barcelona, e Mario Mandžukić, jogador da Juventus, têm destaque nos seus clubes e seriam as principais referências técnicas de uma possível seleção iugoslava, caso fosse formada atualmente.

O papel do futebol na afirmação da identidade croata

A antiga Iugoslávia era composta por maioria sérvia – croatas são o segundo maior grupo étnico da região. Entre 1991 e 1995, a Guerra de Independência da Croácia opôs belicamente sérvios e croatas, o que ajudou a construir uma rivalidade entre povos que reverbera até hoje.

A Sérvia é a última nação da antiga Iugoslávia a ganhar sua independência, em 2003. Do começo da década de 1990 até o começo dos anos 2000, a identidade sérvia representava, dessa forma, o passado iugoslavo.

O sucesso croata no futebol ficou marcado por confronto entre times locais, que ganharam destaque por conta da paixão e da violência das torcidas que representavam os dois países. O confronto entre o Dínamo de Zagreb e o Estrela Vermelha, equipe sérvia de grande destaque na época, em 1990, é apontado pela emissora CNN como um dos “cinco jogos que mudaram o mundo”, e foi uma das principais expressões do aumento do nacionalismo na região.

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Brasil e Croácia disputaram um amistoso antes do início da Copa de 2018. Foto: Pedro Martins/Mowa Press.

Incentivo local ao esporte

Além do futebol, a Croácia têm destaque também em outras modalidades como atletismo, pólo aquático e handebol, acumulando medalhas nas últimas participações em mundiais e Jogos Olímpicos. Nas últimas Olimpíadas “de verão”, disputadas no Rio de Janeiro em 2016, a Croácia ficou em 6º lugar no número de medalhas per capita.

Foram dez ao longo da competição – cinco delas, de ouro. Isso quer dizer que, proporcionalmente, a participação do país de pouco mais de quatro milhões de habitantes foi a sexta melhor da competição. A rival Sérvia, com sete milhões de habitantes, e a vizinha Eslovênia, por exemplo, ocupam o 15º e 7º lugares do ranking, respectivamente.

nexo_jornal_logo-600x152-minEste texto é uma republicação de artigo publicado no site Nexo Jornal.