11.4

Crônica de um roubo no estádio – Accra, Gana

Tiago Carrasco, João Henriques, João Fontes
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Foto: Tiago Carrasco.

O bilhete para a bola custa um euro. Como nas tardes de domingo em Marvila, quando ia com o meu pai ver o Oriental. O mesmo burburinho de entusiasmo, a mesma correria para a bilheteira, a mesma dança de bandeiras e cachecóis ao vento. Há algumas diferenças. Em Accra predominam as vuvuzelas em detrimento das cornetas e dos tambores, não há almofadas para o rabo e guarda-chuva é coisa que não tem saída num jogo debaixo de um calor abrasador. Existe sim o comércio de garrafas de água e outras bebidas refrescantes, telefonias e um negócio florescente de cordões entrelaçados coloridos que os adeptos usam ao pescoço. Em Accra também não vendem sandes de courato. Por isso, matamos a fome à porta do estádio com duas espetadas de carne de vaca polvilhadas com especiarias vermelhas, tão activas que mal sinto o sabor da carne. Não são precisas mais de duas dentadas para perceber que a carne, mole como uma esponja, não abunda em frescura, mas a fome é muita e o jogo já começou. “Também há couratos de higiene duvidosa”, penso, lembrando-me da imagem daquelas solas de sapato com pêlos a chiar na chapa chamuscada. E lá engolimos a espetada.

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Foto: Tiago Carrasco.

O jogo de hoje opõe o Hearts of Oak, o mais antigo e prestigiado clube ganês, ao Wa All Stars, um clube de fracas pretensões que luta para não descer de divisão. O desafio torna-se cativante porque, em caso de vitória, o Hearts sobe ao primeiro lugar da classificação, ultrapassando o actual líder Ashgold. A ver pela entrada, os ânimos parecem exaltados. Sem perceber bem o motivo, um bêbedo embirra com o segurança que nos está a ajudar a obter autorização para filmar o jogo e, depois de uma acesa discussão em língua ashanti, começam a empurrar-se. Aproveitamos a discussão para nos escapulirmos e entrar por um dos topos. Contudo, o estádio Ohene Djan, com capacidade para 45 mil pessoas, parece-me grande demais para a importância do jogo – não estão mais de 10 mil pessoas a assistir à partida. Olho para as bancadas, pintadas com cadeiras amarelas, vermelhas e azuis, as cores do clube da casa e a primeira coisa que ressalta é a escassez de mulheres. Ao contrário da Europa, o futebol em África ainda é uma ocupação muito masculina. Parece-me que estou na bancada dos sócios. São todos homens de meia-idade que assistem à maioria do jogo em silêncio mas que saltam das cadeiras como que empurrados por molas quando um jogador falha um golo fácil ou o árbitro ajuíza mal um lance. Nesse momento transformam-se num bicho mau e com os olhos ensanguentados de fúria soltam um chorrilho de palavrões, enquanto lançam sobre o adepto da frente uma chuva de gafanhotos zangados. No relvado, o Hearts, motivado pela vitória da semana passada em casa do rival de sempre, o Asante Kotoko, em Kumasi, carrega sobre o adversário criando excelentes oportunidades de golo. Mas o guarda-redes dos All-Stars, o poste e uma escorregadela na relva no momento decisivo adiam o golo inaugural.

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Foto: Tiago Carrasco.

Está tudo bastante sossegado. Os adeptos, estirados nas cadeiras, observam a partida com a típica sensação de tranquilidade que os adeptos das equipas grandes têm quando recebem os mais fracos – o golo vai aparecer mais tarde ou mais cedo. Vamos para a bancada superior procurar mais animação. Há adeptos deitados a dormir nas escadas de acesso ao segundo piso. Do topo contrário, um grupo de cerca de 500 adeptos, juntos e compactos, destaca-se da multidão dispersa. De lá sopra o som de tambores e de vozes a cantar. Mal o árbitro apitou para o intervalo decidimos dar a volta o estádio para nos juntarmos aquela claque animada.

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Foto: Tiago Carrasco.

Dar a volta ao estádio não se revela uma decisão sensata. As barreiras entre os sectores estão fechadas e nem o cartão de imprensa acciona a abertura dos portões. Os guardas só desmontam os cadeados quando lhes mostramos um Cedi. Porém, alguém desapareceu com a chave da última barreira e não conseguimos chegar à bancada pretendida. Finalmente, já com 15 minutos na segunda parte, a porta abriu-se e nós corremos escadaria acima, apressados para não perder um lance importante da partida. De repente, o grito que não queríamos ouvir saiu da rádio de um dos seguranças da escadaria: “Gooooooooooooal”. Pelo silêncio nas bancadas, o golo foi dos All-Stars. Quando finalmente chegamos ao fim da escadaria, os nossos temores confirmam-se: a bola está no centro e o Hearts prepara-se para reatar a partida. “Foi culpa do guarda-redes. Morreu-lhe o pai esta semana e está desconcentrado. Saiu-se tarde a um cruzamento e o avançado antecipou-se”, relata-me um adepto. A claque está agora triste e calada. O Hearts perde surpreendentemente por 1-0.

O jogo aproxima-se do fim e começamos a pensar que a nossa investida para nos juntarmos à claque foi totalmente infrutífera. Porém, à passagem do minuto 75, inexplicavelmente, as pessoas que estavam sentadas ao meu lado levantam-se. Atrás de mim, as mãos supersónicas de um rapaz começam a bater convictamente num jambé. Agitam-se as bandeiras e mostram-se os cachecóis. A multidão há pouco inerte está agora eufórica e entoa um cântico alegre e ritmado do qual só distingo as palavras “Hearts” e “Aleluia”. Uma fã vestida com as cores da Argentina meneia as ancas ao ritmo da percussão e a ela junta-se um homem vestido com a camisola do Hearts. Juntos, colados, dançam como se estivessem a fazer amor, mas com os olhos sempre postos no relvado. Lá em baixo, o 4-4-2 do Hearts já se desdobrou para um sistema de “todos lá para a frente”. Os campeões nacionais tentam chegar ao golo de todas as formas. Até que, aos 80 minutos, uma combinação espectacular entre os médios Abdulai e Arytey, deixa isolado o avançado Affum que habilmente pica a bola por cima do guarda-redes, perfeita, até beijar as redes da baliza do All Stars. Golo! É golo do Hearts! Alguns adeptos mandam-se para cima de mim e quase caio para cima de uma panela de arroz que está no chão. Não tenho tempo para me recompor, abraçam-me desconhecidos, miúdos descontrolados saltam de cadeira em cadeira, o jambé toca ainda mais forte e a rapariga da camisola da Argentina dá um espectáculo de bailado. A claque, optimista, não pára de cantar e incentivar. A vitória está perto, sente-se no ar, o público acredita e os jogadores retribuem com bom futebol. A bola não sai de perto da área do All Stars que até já abdicou de atacar.

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Foto: Tiago Carrasco.

Nisto, aos 89 minutos, um defesa alivia a bola para o lado direito. O esférico não sai e o extremo-direito dos visitantes galga pelo corredor na tentativa de ganhar tempo e metros. Sem outra hipótese de prosseguir a jogada, cruza um balão inofensivo para a pequena área. À minha volta, os adeptps do Hearts continuam a cantar. O guarda-redes Philemon McCarthy, formado na academia do Feynoord em Accra, salta sozinho para capturar a bola e agarra-a nas alturas. Porém, durante a queda para o solo, naqueles centésimos de segundo, a bola foge-lhe das mãos como uma presa assustada das garras de um predador, esgueira-se entre os seus dedos desesperados e trémulos e saltita livre na pequena área. Na bancada, a música não pára. Indiferente à festa, Ben Acheampong, avançado do All Stars, ave de rapina com visão apurada, lança-se a alta velocidade sobre a bola enquanto o guarda-redes se tenta levantar para a recapturar. Mais rápido, o avançado toca-lhe de pé esquerdo para o fundo da baliza e festeja efusivamente. Toda a equipa do All Stars salta do banco e no estádio só se ouve aquele ruído sumido e embaraçoso que surge com os gritos de golo da equipa visitante, um “goooolo” quase murmurado ao ouvido mas que se entranha e ecoa no cérebro, tão fortemente que, normalmente, o adepto sofredor é obrigado a levar as mãos à cabeça. É assim que estão todos os adeptos à minha volta – agarrados à nuca e contraídos como se estivessem com uma forte dor de barriga. Uma cambada de cabeçudos. As faces espalham frustração, terror, amargura. Eu próprio não consigo fugir à tristeza. “Este guarda-redes não está bom da cabeça”, diz um adepto, revoltado, ao abandonar o estádio. A maioria dos apoiantes do Hearts arruma as vuvuzelas e uns apitos que parecem servir para chamar pombos e abandonam o estádio. Os mais resistentes ficam, ainda a cantar, à espera de um milagre.

Já passam três minutos dos 90. É canto para o Hearts, o último lance da partida. As pessoas roem as bandeiras para combater os nervos. O cruzamento é feito para a marca de grande penalidade, onde um jogador do Hearts salta e cabeceia a bola. Já na pequena área, um companheiro seu no meio dos defesas adversários consegue desviar a bola de cabeça para dentro da baliza. A loucura volta a imperar. Até eu salto de entusiasmo. Há pessoas a pular de alegria e outras a agradecer a Deus. Contudo, de repente, tudo se imobiliza como se alguém tivesse carregado no botão de pausa de um controlo remoto. O fiscal de linha tem a bandeirola levantada. Diz que o golo é ilegal, que a bola descreveu um arco por fora do campo na marcação do canto. O árbitro Ali Plato deu inicialmente o golo como legal. Conferencia agora com o seu assistente para uma decisão final. As pessoas aguardam, impacientes. Anulado! O árbitro invalidou o lance. “Nooooo”, gritam os adeptos. Chovem garrafas de plástico para o relvado, há pessoas a tentar saltar a vedação. Logo de seguida, o árbitro apita para o final da partida e é cercado por jogadores e dirigentes do Hearts. A pressão é assustadora. Nas bancadas, a polícia investe sobre os adeptos de cassetete em riste. Teme-se o pior. Em 2001, 126 pessoas morreram esmagadas após tumultos no derby entre o Hearts e o Kotoko, enquanto tentavam escapar da nuvem de gás lacrimogéneo lançado pela polícia. Aconselham-nos a sair do estádio mas ainda temos tempo para ver o árbitro, mais rápido do que Usain Bolt, a correr em direcção ao túnel do balneário. Nas imediações do estádio, os adeptos mostram a sua indignação e esperam pelo árbitro à porta. O golo foi, de facto, legal e os fãs do Oak sentem-se roubados: “A federação quer que este ano ganhe uma equipa que não o Hearts ou o Kotoko (as duas equipas tem 21 títulos cada uma) e tem-nos roubado em todas as jornadas”, diz-nos um dos amotinados. Eu mostro a minha solidariedade para com ele. Ser roubado no próprio estádio é das sensações mais amargas que um verdadeiro fanático de futebol pode experenciar. Claro que a ira não justifica a violência. Por isso, a polícia carrega para dispersar a multidão enfurecida, que responde com o arremesso de pedras. Até que se ouve o primeiro tiro para o ar e os adeptos irados fogem a sete pés. Já não via disto desde s tempos de Marvila.

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Foto: Tiago Carrasco.

*Tiago Carrasco, João Henriques e João Fontes estão rumo à Àfrica do Sul no projeto Road to World Cup. Foi mantida a grafia original, de portugês de Portugal.