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Cronologia das torcidas organizadas (VI): Mancha Verde – Sociedade Esportiva Palmeiras (parte II)

Bernardo Borges Buarque de Hollanda, Raphael Piva Favelli Favero

Nota explicativa. Esta série é parte integrante do projeto “Territórios do Torcer – uma análise quantitativa e qualitativa das associações de torcedores de futebol na cidade de São Paulo”, desenvolvida entre os anos de 2014 e 2015, com o apoio da FAPESP. A pesquisa foi realizada em parceria pelo CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), e pelo Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), equipamento público vinculado ao Museu do Futebol/Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Nesta seção, será apresentado um total de 12 torcidas organizadas da cidade de São Paulo. O propósito informativo desta série é compartilhar breves apontamentos cronológicos sobre a história e a memória das associações de torcedores paulistanos. Os dados aqui fornecidos foram de início a base para a montagem de um roteiro de perguntas que serviu à gravação dos depoimentos de fundadores e lideranças das respectivas agremiações torcedoras, tal como ilustram as fotos que acompanham os textos.

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Mancha Verde. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

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Em 2001, uma nova geração de lideranças dá lugar aos antigos fundadores da torcida. Embora a geração de fundação – Atibaia, Moacir, Serdan – não saia de cena, passando a ocupar os bastidores e desenvolver outras funções no interior do grupo, outros atores ganham protagonismo. Um dos novos líderes chama-se Jânio Carvalho, que assume a presidência da torcida Mancha Alviverde em 2001, para um mandato concluído no ano de 2004.

Em 2005, segundo notícia do jornal Folha de S. Paulo do dia 8 de março, o então presidente da Federação Paulista de Futebol, Marco Polo Del Nero, promete banir a Mancha Verde e a TUP dos estádios, após as duas torcidas palmeirenses se enfrentarem nas imediações do Parque Antarctica, pouco antes da vitória do Palmeiras por 3 a 1 contra o Santos pelo Campeonato Paulista. De parte da TUP, a briga teria sido protagonizada por 25 membros dissidentes da Mancha Verde, oriundos da região do ABC paulista.

Em 2006, a Mancha Verde forma, juntamente com os Gaviões da Fiel, o Grupo Especial das Escolas de Samba Desportivas. O regulamento da Liga previa que, caso duas agremiações ligadas a agremiações desportivas estejam no Grupo Especial, as mesmas constituiriam outro grupo. Este, por sua vez, só teria escolas de samba vinculadas a torcidas de futebol. Após muita polêmica, a Gaviões consegue, dias antes do carnaval, uma liminar que lhe garante o direito de disputar o Grupo Especial, com o argumento na Justiça de que, tendo sido convidada pela Liga em finais dos anos 1980, não teria esta o direito de impedi-la de tomar parte na disputa.

Tal direito, não obstante, é negado à Mancha Verde. Esta tentou provar que, por ser uma pessoa jurídica diferente, não seria atrelada a nenhuma torcida organizada. O juiz, porém, usou como base para indeferir tal pedido o texto que constava no então site da entidade e que acabou funcionando como uma confissão da tese contrária. A Mancha foi assim obrigada a desfilar sozinha no Grupo de Escolas de Samba Desportivas. Sem embargo, às vésperas do desfile, a Mancha conseguiu negociar com a Liga a transferência da sua apresentação, da madrugada de domingo para segunda, inicialmente a data prevista, para a madrugada de sábado para domingo, junto com as escolas do Grupo Especial, sendo também avaliada pelos mesmos jurados deste grupo. Esta avaliação lhe garantiu a sétima colocação geral, muito embora a Liga não reconheça tal resultado.

Em 2006, Jânio volta à presidência da torcida Mancha Alviverde, para um segundo mandato, permanecendo no cargo até 2008. Em uma entrevista divulgada em uma reportagem sobre torcidas organizadas da revista Placar, de outubro de 2006, Jânio, formado em Educação Física e lutador de MMA, conta a respeito de dois episódios de briga marcantes que vivenciou:  uma situação em que lutou sozinho contra 30 torcedores organizados corintianos após sair de uma festa da torcida Mancha Verde; e uma briga em que foi jogado de um trem, resultando em pernas quebradas, braço e peito fraturados, e 52 pontos na cabeça[1].

Em 2007, a torcida Mancha Alviverde divulgou uma nota, assinada pelo presidente Jânio, em que se solidariza com a torcida organizada Acadêmicos da Savoia. Nela, repudia as agressões que membros desta torcida teriam sofrido de integrantes da TUP (Torcida Uniformizada do Palmeiras)[2], com quem a Mancha também rivalizava.

Também em 2007, a escola de samba Mancha Verde novamente foi isolada num grupo à parte, sendo declarada campeã deste grupo. A agremiação participa do desfile das campeãs e desfila logo após os Gaviões da Fiel. Em relação ao Grupo Especial, obteve a décima-primeira colocação.

Ainda em 2007, Paulo Serdan é suspenso por 90 dias do clube social do Palmeiras, após agredir Márcio Vicente, então treinador da equipe sub-14 do clube. O motivo da agressão teria sido o descontentamento de Serdan com o fato de seu filho, jogador da equipe, ter sido substituído ainda no primeiro tempo de uma partida.

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Paulo Serdan durante a entrevista realizada no Museu do Futebol. Foto: Museu do Futebol.

Em 2008, a coluna de Esportes do jornal O Estado de S. Paulo, publicada no dia 17 de agosto, tematiza a rivalidade intra-torcidas do Palmeiras. A reportagem conta que Mancha Verde e TUP se confrontavam com frequência em frente ao portão principal do estádio Palestra Itália, na Rua Turiaçu, nos dias de jogos do Palmeiras.

Em 2008, o Grupo Especial das Escolas de Samba Desportivas foi dissolvido. Gaviões da Fiel e Mancha Verde voltam a disputar com as outras escolas o título do Grupo Especial no carnaval paulistano. Em 2010, a Escola Mancha Verde alcança a quarta colocação na divisão especial do carnaval, ficando apenas um ponto da campeã Rosas de Ouro. Paulo Serdan coloca-se à frente da agremiação. Por sua iniciativa, elege diversos temas para samba-enredo da escola, com homenagens ao escritor Ariano Suassuna e ao ator Mário Lago, entre outros personagens da cultura brasileira.

Em 2011, a torcida Mancha Alviverde foi proibida formalmente de frequentar os estádios, sendo vedada a entrada de seu material de identificação durante 6 meses. A punição decorre de um episódio ocorrido em Presidente Prudente, onde o Palmeiras enfrentou o arquirrival Corinthians. Na ocasião, em uma confusão entre as torcidas das duas equipes, dois torcedores palmeirenses foram baleados. A Polícia Militar enviou um relatório à Federação Paulista de Futebol e nele responsabiliza a Mancha Alviverde pelo sucedido.

Em visita à sede da Mancha Alviverde, no bairro da Pompéia, realizada a 8 de março de 2012, os pesquisadores do Centro de Referência do Futebol Brasileiro, vinculado ao Museu do Futebol, levantaram os seguintes dados e informações sobre a torcida:

– O número de sócios, após o recadastramento feito por conta da extinção da antiga Mancha Verde e do surgimento da Mancha Alviverde, beirava os 25 mil até a data de visita do CRFB;

– Sobre o perfil dos associados da torcida, Marcos Ferreira, presidente da torcida em 2012, afirmou que convivem na torcida “de juízes de direito a catadores de papel; pessoas que moram em Alphaville ou em um barraco de madeira”. A maioria das pessoas que ingressa na torcida é composta por homens, na faixa etária de 14 a 22 anos, oriundos da classe média;

– Como contrapartida filantrópica, a torcida realiza ações sociais como doação de sangue, campanhas de agasalho e cobertores, além de distribuição de ovos de páscoa e de cestas natalinas;

– A torcida possui um programa de televisão online chamado “TV Mancha”, vinculado ao AllTV;

– Ao longo de seus 35 anos de existência, a Mancha Verde foi presidida por:

Dorival Menezes (1983/84)

Nelson Ferraz da Silva Barros (Atibaia) (1985/86)

Cléo Sóstenes Dantas Silva (1987/88)

Moacir Bianchi (1989/90)

Ricardo Raphael Rodrigues (1991/92)

Paulo Serdan (1993/98)

Robertinho (1998/2000)

Jânio (2001/2004)

Ângelo (2004)

Luizinho (2005)

Jânio (2006/2008)

André Guerra (2008/2012)

Marcos Ferreira (2012/2014)

Nando (2014/2016)

André Guerra (desde 2016)

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Bandeirão da Mancha Verde. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

– A Mancha Alviverde faz parte da união de torcidas chamada “Dedo pro Alto”, junto com as torcidas Força Jovem do Vasco da Gama e Galoucura do Atlético Mineiro.

– Outras torcidas que mantêm boa relação com a Mancha são:

Ira Jovem do Vasco

Império Verde do Coritiba

Mancha Azul do Avaí

Mancha Verde do Juventude

Força Jovem do Goiás

Bamor do Bahia

Cearamor, do Ceará Sporting Club

Torcida Jovem do Grêmio

Inferno Coral do Santa Cruz

Garra Alvinegra do ABC de Natal

Terror Bicolor do Paysandu

Torcida Jovem do Botafogo

Mancha Azul do CSA

Em 25 de março de 2012, dois integrantes da Mancha Alviverde, André Alves Lezo, de 21 anos, e Guilherme Vinícius Jovanelli Moreira, de 19 anos, morrem após confronto com torcidas do Corinthians, na Avenida Inajar de Souza, horas antes do clássico entre as duas equipes. A briga teria sido uma revanche de um episódio ocorrido em agosto do ano interior, quando o corintiano, membro dos Gaviões da Fiel, Douglas Karin Silva, foi achado morto no rio Tietê, após briga entre os grupos. A Mancha Alviverde pagou os custos do enterro do torcedor André Lezo e comprou três jazigos no cemitério do Jaraguá, zona norte de São Paulo.

Em 2013, segundo notícia do informativo Lancepress!. do dia 27 de julho, Mancha e TUP se enfrentaram nas arquibancadas durante partida do Palmeiras, realizada na cidade de Guaratinguetá, válida pela série B do Campeonato Brasileiro. O motivo da confusão, segundo o tenente Lescura, que trabalhou no policiamento da partida, foi decorrência de uma disputa por espaço para colocar as faixas nas arquibancadas.

Em 2014, o ex-presidente Jânio lança-se candidato da torcida a um pleito legislativo. Candidata-se ao cargo de deputado estadual pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT). Apesar de ter obtido um número expressivo de votos, 12.109, Jânio não foi eleito.

Em 2016, pouco depois do carnaval, a torcida passa por uma grande crise interna. A unidade do grupo é abalada e intensas disputas se dão pelo controle do agrupamento, com reiterados conflitos entre grupos da zona leste, da zona norte e da zona sul da cidade. Confrontos físicos vinham ocorrendo de maneira seguida dentro e fora das arquibancadas.

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Moacir: símbolo de dignidade. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

Uma reunião na sede da torcida, para apaziguar os ânimos e chegar a um acordo, acaba com um incidente fatal. Horas depois de discussão tensa e acalorada na sede, um dos fundadores da torcida, Moacir Bianchi, que participara do encontro e que batera boca com determinados integrantes mais exaltados, é perseguido em seu carro, sofre emboscada e acaba morto alvejado por uma série de tiros.

O desfecho gera grande comoção e perplexidade. A torcida se auto extingue num primeiro momento. No site oficial e na página do Facebook, a diretoria anuncia o fechamento temporário da sua sede na rua Turiaçu. As atividades passam então a se concentrar na Escola de Samba. Reuniões e passeatas são feitas pela entidade em homenagem ao fundador Moacir, “símbolo de dignidade”. O novo comando do agrupamento, com Serdan e Andrezinho à frente, decide pela expulsão de 23 componentes, sendo dois deles ex-presidentes.

 

 

[1] A reportagem pode ser acessada nesse link: http://issuu.com/placar/docs/outubro-2006-pdf/21

[2] A nota pode ser lida nesse link: http://www.uniblog.com.br/mancha-verde/207539/crise-entre-tup-e-savoia—postura-da-mancha.html