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Cruzeiro Esporte Clube: 100 anos de história e conquistas

Luiza Reis Ferraz, Elcio Loureiro Cornelsen

Fundado em 2 de janeiro de 1921, por desportistas da colônia italiana de Belo Horizonte, o Cruzeiro Esporte Clube, antiga Società Sportiva Palestra Italia, traçou, ao longo desses 100 anos, uma bela história de vitórias e conquistas, tornando-se o maior clube de futebol de Minas Gerais e um dos maiores do Brasil. Naquela oportunidade, como aponta Amir Mattos, “[a]s cores escolhidas para os uniformes foram, naturalmente, as da bandeira italiana: verde, branco, vermelho”.[1]

Durante sua formação, alguns diferenciais foram importantes para o crescimento e a popularização do clube. De acordo com Bruno Furtado e Thiago Madureira, em seus primeiros anos de existência, apesar de sua equipe ser composta, em sua maioria, por associados da colônia italiana, o Cruzeiro abriu espaço para que operários da construção civil também jogassem pelo time, fazendo com que o clube se destacasse por possuir membros da classe trabalhadora.[2]

Escudos Cruzeiro

Escudos do clube. Foto: Reprodução/Blog do Chico Maia.

“Um gigante incontestável, no presente e no passado”,[3] como anuncia um dos versos de uma canção composta por seus próprios torcedores, o Cruzeiro ostenta uma sala de troféus repleta de conquistas nacionais e internacionais. Segundo um levantamento feito pelo Instituto Paraná Pesquisas, publicado em 2016, o Cruzeiro alcançou a marca de oito milhões de torcedores, tornando-se o sexto time com o maior número de torcedores do Brasil e o primeiro em Minas Gerais.[4] Com o passar do tempo, o crescimento acelerado da torcida chamou atenção de diversos escritores e jornalistas, além da grandeza e da diversidade de seus torcedores, não se restringindo mais à colônia italiana e contemplando as mais diversas classes sociais, que rendeu ao clube a alcunha de “Time do povo”, que gerou polêmica entre os times da capital mineira, como ressalta Adriano Lopes de Souza.[5] Os jornalistas Bruno Furtado e Thiago Madureira (2021) ressaltam o crescimento eufórico da torcida:

“Nos anos 1970, o escritor e cronista do Estado de Minas, Roberto Drummond, passou a chamar a torcida do Cruzeiro de “China Azul”. A comparação com a grande população do país asiático se deveu à rápida expansão dos cruzeirenses em Belo Horizonte e no interior de Minas Gerais após as conquistas da Taça Brasil de 1966 e também da Copa Libertadores de 1976”.[6]

Devido aos títulos e ao grande número de torcedores, o Cruzeiro reinou hegemônico em Minas Gerais durante um longo período. A disparidade de títulos com os demais times mineiros era notória.

Gigante Continental: Bicampeão da Copa Libertadores da América e da Supercopa Libertadores

A conquista da Taça Libertadores de 1976, sem dúvida, foi a primeira conquista de maior importância em nível internacional do clube mineiro, que consagrou sua hegemonia no Estado e sua grandeza no Brasil e na América. Até então, só havia um time brasileiro que tinha conquistado a Taça Libertadores: o Santos Futebol Clube. O clube mineiro fez uma campanha espetacular, como conta o meia Palhinha (Vanderlei Eustáquio de Oliveira), em uma entrevista disponível no site oficial do Cruzeiro:

“Tem título que você ganha e tem título que você conquista, esse foi conquistado com muita luta e com muitos acontecimentos, alegres e tristes, mas que valeram a pena porque não só enriqueceu a nossa história, mas a história de cada um dos jogadores que estavam defendendo as cores do Cruzeiro”.[7]

O Cruzeiro disputou a final contra o Club Atlético River Plate da Argentina e venceu a partida pelo placar de 3×2, com um gol majestoso de desempate, do ponta-esquerda Joãozinho, aos 42 minutos do segundo tempo. O time campeão era composto por Raul, Nelinho, Moraes, Darci Menezes e Vanderley, Piazza (Valdo), Zé Carlos, Ronaldo, Eduardo, Palhinha e Joãozinho, sob o comando do técnico Zezé Moreira.[8]

Cruzeiro Libertadores 1976

Time campeão da Libertadores de 1976. Foto: Reprodução/Site Oficial.

As conquistas continentais não pararam. Em 1991 e 1992, o time celeste conquistou a Supercopa Libertadores, campeonato que reunia os times que haviam sido campeões na Libertadores da América. Posteriormente, em 1997, o Cruzeiro conquistou novamente a Taça Libertadores da América, consagrando-se Bicampeão do torneio, feito alcançado ou superado por poucos times brasileiros.

Com o aproveitamento inferior ao da Libertadores de 1976, o Cruzeiro encerrou o Campeonato com sete vitórias, um empate e seis derrotas. Naquele ano, o time era composto pelos seguintes jogadores: Dida, Gottardo, Gelson, Vitor, Fabinho e Nonato, Ricardinho, Elivelton, Donizete Oliveira, Marcelo Ramos e Cleison.[9] No jogo final, disputado no Mineirão entre o Cruzeiro e a equipe peruana Sporting Cristal, em 13 de agosto de 1987, foi registrado o maior público presente de uma partida do torneio continental, com a presença de 106.853 espectadores, como consta no site Superesportes.[10]

Campeão Nacional: as conquistas dos Campeonatos Brasileiros, série A

O Campeonato Brasileiro de Futebol de 1966, na época denominado de “Taça Brasil”, foi o primeiro título nacional conquistado pelo Cruzeiro. Naquela época, o time contava com dois grandes ídolos que marcaram gerações: Tostão (Eduardo Gonçalves de Andrade) e Dirceu Lopes. Além desses, os seguintes jogadores integraram a equipe campeã: Neco, Pedro Paulo, William, Procópio, Piazza, Raul, Natal, Evaldo e Hilton Oliveira, sob o comando do técnico Aírton Moreira. Até hoje, o time do Cruzeiro de 1966 é considerado um dos melhores da história, por vencer a Taça Brasil invicto, enfrentando na final o Santos de Pelé, além de conquistar mais cinco campeonatos mineiros. Na primeira partida da final, disputada no Mineirão em 30 de novembro de 1966, o “príncipe” Dirceu Lopes marcou três gols na goleada de 6 a 2 contra o alvinegro praiano.[11] Na segunda partida, disputada no Estádio do Pacaembu em 7 de dezembro de 1966, mais uma vez brilhou a estrela da Raposa, que venceu o jogo pelo placar de 3 a 2, com gols de Tostão, Dirceu Lopes e Natal.[12]

Cruzeiro 2003

Elenco do Cruzeiro em 2003 / Arquivo Oficial do Cruzeiro E.C.

A próxima conquista do Campeonato Brasileiro viria em 2003. Foi a primeira edição em que o campeonato foi disputado de acordo com o regulamento de pontos corridos e o Cruzeiro encerrou a disputa com um ótimo aproveitamento. O time era comandado pelo capitão e artilheiro Alex (Alexandro de Souza), que também se tornou ídolo da torcida celeste. Segundo o “regente” da equipe em campo, “[f]oi a vitória da organização, virtude que um dia ainda será valorizada neste país”.[13] Além do time de 1966, o time de 2003 também ficou marcado como um dos melhores, pois a vitória naquele campeonato rendeu ao time a conquista emblemática da histórica Tríplice Coroa, já que haviam vencido o Campeonato Mineiro contra a URT e a Copa do Brasil contra o Flamengo, no mesmo ano.[14] O time era composto pelos jogadores: Gomes; Maurinho, Cris, Edu Dracena, Leandro, Maldonado, Marinho, Augusto Recife, Wendell, Alex, Aristizábal e Márcio Nobre, sob o comando de Vanderley Luxemburgo.

Após 10 anos, viriam mais dois títulos consecutivos: o de 2013 e de 2014. O Cruzeiro garantiu a vitória do campeonato de 2013 com quatro rodadas de antecedência, com um aproveitamento espetacular, conforme enuncia, efusivamente, o assessor de imprensa do clube, Gustavo Aleixo:

Cruzeiro 2014

Jogadores erguem a taça de campeão brasileiro de 2014. Foto: Divulgação.

“[…] o Maior de Minas conquistou o seu tricampeonato brasileiro de maneira invejável, com quatro rodadas de antecedência, se tornando o campeão mais precoce da era dos pontos corridos, ao lado do São Paulo. Além disso, a Raposa de 2013 venceu todos os seus 19 adversários no Brasileirão, fato jamais alcançado por qualquer outra equipe em toda a história da competição”.[15] 

A quarta e última conquista do Campeonato Brasileiro pelo time mineiro, até o momento, foi a de 2014. A torcida celeste pôde comemorar o título com duas rodadas de antecedência. Como nos anos anteriores em que o Cruzeiro conquistou o Campeonato Brasileiro, o time de 2013, com poucas mudanças em 2014, também deixou sua marca como um dos melhores da história do clube mineiro. Além disso, com a vitória de 2013, o goleiro Fábio, capitão do time e ídolo da torcida celeste, foi premiado com o título de melhor goleiro do Campeonato Brasileiro. O time base campeão de 2013 era composto por: Fábio; Mayke (Ceará), Dedé, Bruno Rodrigo e Egídio; Lucas Silva (Nilton) e Souza; Éverton Ribeiro, Ricardo Goulart e Willian (Dagoberto); Borges. E em 2014, ocorreu a contratação de Marcelo Moreno, que teve papel crucial na conquista do título.

Rei de Copas: Seis vezes campeão

É impossível falar em títulos do Cruzeiro sem citar a Copa do Brasil. O clube celeste garantiu a marca inédita de seis taças da competição, sendo duas delas consecutivas (2017 e 2018), o que lhe atesta a justificada alcunha de “Rei de Copas”.[16]

O Cruzeiro conquistou seu primeiro título na Copa do Brasil em 3 de junho de 1993. A final foi decidida entre o Cruzeiro e o Grêmio de Foot-Ball Porto Alegrense, com placar final de 2 a 0 para o time mineiro. Naquele ano, a equipe era composta por: Paulo César, Paulo Roberto Costa, Célio Lúcio, Róbson, Nonato; Ademir, Rogério Lage, Éder; Roberto Gaúcho, Cleison e Edenílson, todos sob o comando do técnico Pinheiro. O segundo título veio três anos depois, em 19 de junho de 1996. O Cruzeiro disputou a final com o Palmeiras e venceu a partida pelo placar de 2 a 1. A conquista do título garantiu a participação do time na Taça Libertadores de 1997, em que se sagrou campeão do torneio sul-americano pela segunda vez. A equipe que disputou a final da Copa do Brasil contra o Palmeiras era formada pelos seguintes jogadores: Dida, Vítor, Célio Lúcio, Gelson, Nonato, Fabinho, Ricardinho, Cleison, Palhinha, Marcelo Ramos e Roberto Gaúcho. O técnico era Levir Culpi.[17]

A terceira Copa do Brasil do time celeste foi conquistada em 9 de julho de 2000, em uma das finais mais emocionantes do campeonato. A final foi disputada entre Cruzeiro e São Paulo, o time mineiro ganhou com gol de virada aos 46 minutos do segundo tempo, gol de falta marcado pelo atacante Geovanni. O time terminou o campeonato de 2000 invicto, assim como no quarto título, o de 2003. Com uma das melhores gerações de jogadores do clube, o time se sagrou tetracampeão com oito vitórias e três empates. Na final, em 8 de junho de 2003 o Cruzeiro enfrentou o Flamengo e venceu a partida de volta por 3 a 1, com gols de Deivid, Aristizábal e Luisão.[18]

Posteriormente, vieram os dois títulos consecutivos (2017-2018), sob o comando do técnico Mano Menezes, que fizeram com que o clube fosse coroado como “Rei de Copas”, por conseguir dois feitos inéditos, a conquista de dois títulos consecutivos e de seis títulos no total. Na campanha de 2017, mais uma vez o Cruzeiro enfrentou o Flamengo na final, em uma partida dramática decidida nos pênaltis, em que o time celeste levou a melhor. Já na de 2018, o adversário final foi o Corinthians, com vitória no jogo de ida, em casa, por 1×0, e de volta, na casa do adversário, por 2×1. A “China Azul” ficou eufórica com a conquista que reafirmou a grandeza do time mineiro.

Cruzeiro 100 anos

Marca comemorativa do centenário do clube. Foto: Reprodução/Site Oficial.

Hoje, a torcida pode se orgulhar de toda trajetória de vitórias e conquistas traçada pelo time celeste, que conseguiu feitos, ainda hoje, não alcançados por outros clubes. Atualmente, o Cruzeiro enfrenta o momento mais dramático de sua história, que, certamente, será superado, fazendo com que o clube retome a trajetória secular de conquistas e glórias.

Notas

[1] MATTOS, Amir (org.). O time do meu coração: Cruzeiro Esporte Clube. Belo Horizonte: Ed. Leitura, 2008, p. 9.

[2] FURTADO, Bruno; MADUREIRA, Thiago. Cruzeiro 100 anos: provocações e frases que marcaram a história do clube. Acesso em: 1 fev. 2021.

[3] UM GIGANTE incontestado. Guerreiro dos gramados, 2 set. 2014. Acesso em: 3 fev. 2021.

[4] PESQUISA NACIONAL – torcidas de futebol. Paraná Pesquisas. 26 dez. 2016. Acesso em: 3 fev. 2021.

[5] SOUZA, Adriano Lopes de. A hipocrisia do time do povo. Arquibancada. v. 79, n. 9, 20 jan. 2016. Acesso em: 3 fev. 2021.

[6] FURTADO, Bruno; MADUREIRA, Thiago. Cruzeiro 100 anos: provocações e frases que marcaram a história do clube. Acesso em: 1 fev. 2021.

[7] PALHINHA apud DRUMOND, Angel. Conquista da Libertadores da América de 1976 completa 40 anos. Site oficial do Cruzeiro Esporte Clube, 2016. Acesso em: 2 fev. 2021.

[8] MATTOS, Amir (org.). O time do meu coração: Cruzeiro Esporte Clube. Belo Horizonte: Ed. Leitura, 2008, p. 60.

[9] MATTOS, Amir (org.). O time do meu coração: Cruzeiro Esporte Clube. Belo Horizonte: Ed. Leitura, 2008, p. 65.

[10] TORCIDA do Cruzeiro é a sexta maior do Brasil com mais de 8 milhões de pessoas, diz pesquisa. Superesportes, 2019. Acesso em: 2 fev. 2021.

[11] ARREGUY, Cláudio. Os dez mais do Cruzeiro. Rio de Janeiro: Maquinaria, 2010, p. 61.

[12] MATTOS, Amir (org.). O time do meu coração: Cruzeiro Esporte Clube. Belo Horizonte: Ed. Leitura, 2008, p. 57.

[13] ALEX apud SANTANA, Jorge. Páginas heróicas: onde a imagem do Cruzeiro resplandece. São Paulo: DBA, 2003, p. 14.

[14] MATTOS, Amir (org.). O time do meu coração: Cruzeiro Esporte Clube. Belo Horizonte: Ed. Leitura, 2008, p. 15.

[15] ALEIXO, Gustavo. Confira todo o elenco da máquina celeste campeã nacional de 2013. Site oficial do Cruzeiro, 2014. Acesso em: 1 fev. 2021.

[16] SIMÕES, Alexandre. Rei de Copas: Cruzeiro Esporte Clube. Belo Horizonte: Ed. Leitura, 2009.

[17] MATTOS, Amir (org.). O time do meu coração: Cruzeiro Esporte Clube. Belo Horizonte: Ed. Leitura, 2008, p. 64.

[18] MATTOS, Amir (org.). O time do meu coração: Cruzeiro Esporte Clube. Belo Horizonte: Ed. Leitura, 2008, p. 68.

Referências

ALEIXO, Gustavo. Confira todo o elenco da máquina celeste campeã nacional de 2013. Site oficial do Cruzeiro Esporte Clube, 2014. Acesso em: 1 fev. 2021.

ARREGUY, Cláudio. Os dez mais do Cruzeiro. Rio de Janeiro: Maquinaria, 2010

DRUMOND, Angel. Conquista da Libertadores da América de 1976 completa 40 anos. Site oficial do Cruzeiro Esporte Clube, 2016. Acesso em: 2 fev. 2021.

ESCUDOS do clube. Blog do Chico Maia. Disponível em: ; Acesso em: 3 fev. 2021.

FURTADO, Bruno; MADUREIRA, Thiago. Cruzeiro 100 anos: provocações e frases que marcaram a história do clube. Acesso em: 1 fev. 2021.

LIBERTADORES de 1997: 20 fatos marcantes e curiosidades do bicampeonato do Cruzeiro. Superesportes, 2017.  Acesso em: 2 fev. 2021.

MATTOS, Amir (org.). O time do meu coração: Cruzeiro Esporte Clube. Belo Horizonte: Ed. Leitura, 2008.

PESQUISA NACIONAL – torcidas de futebol. Paraná Pesquisas. 26 dez. 2016. Acesso em: 3 fev. 2021

SANTANA, Jorge. Páginas heróicas: onde a imagem do Cruzeiro resplandece. São Paulo: DBA, 2003.

SIMÕES, Alexandre. Rei de Copas: Cruzeiro Esporte Clube. Belo Horizonte: Ed. Leitura, 2009.

SOUZA, Adriano Lopes de. A hipocrisia do time do povo. Arquibancada. v. 79, n. 9, 20 jan. 2016. Acesso em: 3 fev. 2021.

TORCIDA do Cruzeiro é a sexta maior do Brasil com mais de 8 milhões de pessoas, diz pesquisa. Superesportes, 2019. Acesso em: 2 fev. 2021.

UM GIGANTE incontestado. Guerreiro dos gramados, 02 set. 2014. Acesso em: 3 fev. 2021.


Como citar

FERRAZ, Luiza Reis; CORNELSEN, Elcio Loureiro. Cruzeiro Esporte Clube: 100 anos de história e conquistas. Ludopédio, São Paulo, v. 140, n. 24, 2021.