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Cruzeiro EC: recordações a propósito

Alexandre Fernandez Vaz

Há algumas semanas, em viagem à Belo Horizonte, ressurgiu o antigo desejo de ter uma camiseta do Cruzeiro Esporte Clube. Não seria qualquer uma, mas a do título da Copa Libertadores de 1976, tanto porque me traz boas lembranças futebolísticas, quanto pela beleza do objeto, as estrelas brancas da constelação sobre o tecido azul, gola em v, nada mais.

Nunca fui cruzeirense, é pouco provável que me torne um, mas sempre admirei a Raposa, desde aquele ano em que conheci a força do time que fora, soube então, vice-campeão no ano anterior, derrotado por apenas um a zero pelo poderoso Sport Club Internacional, de Porto Alegre. Em novo encontro no ano da competição sul-americana, vi Palhinha desferir uma cotovelada que nocauteou o zagueiro chileno Elias Figueroa, capitão colorado, e ser expulso. Os adultos na sala me informaram que seria a vingança do atacante, golpeado da mesma maneira no jogo final do Campeonato Brasileiro do ano anterior. Além de fraturar o nariz do adversário, o camisa 3 do Beira-Rio ainda marcara o tento da vitória, de cabeça. O gol iluminado, como ficaria conhecido, recebeu sobre si um facho de luz no momento de sua consecução, tornando ainda mais marcante a bola no canto direito de Raul Plassmann. Naquela tarde de domingo o grande goleiro não usava uma das costumeiras camisas amarelas.

Palhinha, Raul, Zé Carlos, Piazza, Joãozinho, Roberto Batata, Jairzinho, Nelinho, venceram a torneio sul-americano e foram valentes contra o Bayern de Munique, na decisão da Copa Intercontinental, realizada ainda em 1976, em dois jogos. No primeiro, derrota por dois a zero em Munique, debaixo de muita neve, a bola era vermelha para se destacar no piso esbranquiçado. No segundo, não foi suficiente a força da torcida que lotou o Mineirão, mas viu o empate sem gols dar o título aos bávaros. Choveu muito na noite de dezembro de 1976, e tive a impressão de que o aguaceiro ajudou o time alemão liderado pelo líbero Franz Beckenbauer e composto por vários outros campeões da Copa do Mundo de 1974.

Afora a agressão a Figueroa, Palhinha foi o grande destaque do time campeão da Libertadores, chegando à artilharia do torneio com média superior a um gol por partida. Depois de anos se destacando no Cruzeiro, o substituto do ídolo Tostão sobressaiu no Corinthians Paulista, primeiro fazendo dupla de ataque com Geraldo, em 1977, logo com Sócrates a partir do ano seguinte. Foram dois títulos paulistas (1977, 1979) em que o jogador formado na Raposa atuou de forma decisiva.

Torcida do Cruzeiro, no Mineirão, em Belo Horizonte/MG. Foto: Vinnicius Silva/Cruzeiro.

Em 1977 eu já seguia o futebol com mais atenção e acompanhei o Cruzeiro na Libertadores em que alcançou o vice-campeonato. Em julho daquele ano eu estivera na Argentina e ganhara de meu pai um exemplar de El Gráfico, a revista semanal de esportes de lá. Nas páginas de papel brilhante e mais largas que as de Placar, que eu lia todas as semanas no Brasil, inteirei-me com mais detalhes da campanha do Boca Juniors, que viria a ser o adversário do Cruzeiro nas finais. Invicto na Libertadores, também vinha bem no campeonato nacional do país vizinho. No primeiro jogo decisivo o time do bairro portuário de Buenos Aires, jogando em casa, venceu. No segundo, em Belo Horizonte, o lateral-direito Nelinho, já com a partida indo para o fim, bateu uma falta com a violência e o efeito costumeiros, tornando impossível a defesa de Hugo Gatti. O goleiro portenho seria, no entanto, o herói da partida extra no mítico Centenário, em Montevidéu, que terminou empatada, inclusive na prorrogação. Na disputa por pênaltis defendeu a última cobrança do Cruzeiro.

Esse é o Cruzeiro que encontra melhor lugar em minha memória, do qual na minha infância sempre ouvia falar que tinha a melhor estrutura de concentração do futebol brasileiro, a Toca da Raposa. Até a seleção, antes de ter a Granja Comary como centro de treinamento, se reunia lá para treinar.

Mas há outros, como o campeão da Copa do Brasil de 2000. A forte defesa formada por Rodrigo, Cris, Cléber e Sorín dava sustentação para que os atacantes Jackson, Oséas, Müller, Fábio Júnior e Giovanni resolvessem na frente. Contra a ótima equipe que o São Paulo detinha na época (Raí, Rogério Ceni, Edmílson, Marcelinho Paraíba, Beletti, França), os mineiros venceram o jogo decisivo, em Belo Horizonte, por dois a um, depois de empatarem sem gols no primeiro encontro das finais, no Morumbi. O gol que definiu a partida começou a ser construído numa arrancada de Giovanni que deixou Rogério Pinheiro na saudade. Sem alternativas, o zagueiro, que seria expulso, derrubou o atacante na entrada da área, ele que disparava contra a meta de Rogério Ceni. O próprio Giovanni cobrou a falta, com violência, com a bola passando no meio da barreira tricolor e traindo o bom arqueiro. Aos quarenta e quatro do segundo tempo, o Mineirão viu o time local virar o jogo e vencer o torneio.

Sim, houve o time da Tríplice Coroa, em 2003, com Vanderlei Luxemburgo no comando, Alex como maestro, ele que no ano seguinte começaria uma carreira de oito anos no Galatasaray, tornando-se, talvez, o maior ídolo da história do clube. Sim, também houve o maior de todos, é provável, o dos anos 1960, que era páreo para os grandes da década, Santos Futebol Clube e Botafogo de Futebol e Regatas, com Tostão, Raul, Piazza e Dirceu Lopes.

O Cruzeiro acaba de cair para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro. Jornalistas esportivos tecem suas críticas (e dizem, muitos deles, como costumeiro: nós avisamos, sabíamos que ia acontecer etc., videntes do passado que são), torcedores esbravejam, alguns vandalizam, dirigentes inventam culpados, procura-se um bode expiatório. Melhor é ter serenidade, reorganizar as coisas, e ir adiante. A Série B é campeonato, vale tentar vencê-lo. Importante é que o futebol siga. Torço pelo Palestra Mineiro.

Ilha de Santa Catarina, dezembro de 2019.