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Atenção! Procuram-se culpados pelo vexame

Vitor Freire

Na última quarta-feira, o São Paulo deu início a rodada das quartas de final do Paulista contra o Mirassol. O que parecia ser um jogo fácil contra um time despedaçado pela pandemia do COVID-19, se tornou um dos maiores vexames da história do clube. Não por conta da instituição Mirassol (que vem sendo uma das mais consistentes do interior paulista), e sim, por conta da situação que o Mirassol se encontrava, onde o atleta Zé Roberto, que chegou dias antes ao clube e tinha feito apenas um treino com a equipe, fez dois gols no jogo que eliminou o tricolor paulista da competição. Não está fácil ser são-paulino nos últimos anos.

Há alguns anos vemos o São Paulo iniciar o Paulista em crise, classificar com tranquilidade, virar sensação do campeonato, ser eliminado e voltar a estar em crise. O Paulista é um campeonato cruel, que salva poucos e derruba muitos. Toda eliminação são-paulina nós saímos com a sensação de que dava pra ter sido melhor e que a bola sempre está contra a gente, porém esse jogo pode ser marcado como um despertar do torcedor cansado de ver seu time sendo eliminado em jogos “atípicos”. Esse despertar surge pelas memórias de eliminações recentes em jogos que o São Paulo devia ter rendido mais e não rendeu.

Ano passado vimos o Cuca ser demitido no meio do Campeonato Brasileiro e escrevemos aqui no texto “A culpa não é do Cuca” que o problema do São Paulo ia além do treinador. Fernando Diniz foi contratado e o São Paulo de 2020 empolgava. Empolgava por ter jogadores bons e renomados atuando em um estilo de jogo vistoso e, até terça-feira, vencedor. Contudo, o jogo “atípico” de quarta-feira, nos mostrou muitas semelhanças de outras eliminações recentes que vimos com o clube. A principal delas é a aparente falta de dedicação e concentração dos jogadores em jogos eliminatórios.

Há anos vemos jogadores São-paulinos passando por jogos importantes como se fossem mais um e, infelizmente, o futebol brasileiro não dá espaço para esses times. Vimos muitos jogadores passando pelo clube sem ter clareza da importância dos jogos e sem reconhecer o peso da camisa que estava vestindo. Então, após mais uma decepção, o torcedor dá voz a sua insatisfação procurando culpados.

Um dos primeiros culpados a ser citado pelo torcedor, é a própria diretoria do clube, com contratações caras e duvidosas que não renderam em suas passagens. Utilizando exemplos recentes, podemos citar Juanfran e Pato, que surgiram no clube logo após as contratações de Daniel Alves e Pablo. Essas contratações demonstram a falta de sensatez na hora de ir ao mercado, já que ambos poderiam chegar e jogar tão bem quanto já jogaram em suas carreiras, que eles continuariam sendo contratações sem sentido se pensarmos o plantel do clube e suas próprias contratações.

Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

Para agravar, Cotia é reconhecidamente uma das melhores bases do país, com muitas conquistas e revelando muitos jogadores de sucesso. Quantos jogadores podemos citar que foram mal aproveitados pelo São Paulo e fizeram sucesso depois de sair do clube? Ou então quantos jogadores que podiam ter feito sucesso no clube e foram mal aproveitados? Entretanto, quando chegamos nesse questionamento do clube, entendemos a hipocrisia do são-paulino, pois esses jogadores são mal utilizados por conta da postura da própria torcida são-paulina que ano após ano consegue destruir a carreira de jovens talentos que surgem no clube (como Rodrigo Caio e Casemiro), conforme citamos no texto “O São Paulo não pode ter medo de usar Cotia”.

Essa mesma torcida que cobra mudanças e jogadores que entendam o peso da camisa São-Paulina, atrapalha o crescimento dos jogadores que passaram a vida toda vestindo o manto tricolor e sonhando com esse momento. A mesma torcida que cobra um São Paulo que brigue por títulos, sai criticando o primeiro treinador que, depois de muito tempo, nos põe como um dos melhores times do país. A mesma torcida que cobra raça e vontade todo jogo, pede a saída de Reinaldo, o qual vem sendo há um bom tempo o principal jogador São Paulino nesse sentido.

Fernando Diniz é muito criticado por trazer um trabalho que não gera resultados, mas isso vem do nosso pensamento imediatista. Devemos lembrar que o treinador brasileiro mais consagrado atualmente, Tite, teve no início da sua carreira 10 anos em clubes pequenos de Santa Catarina, até conseguir sucesso com o Caxias em 2000 e ir para o Grêmio, onde conquistou a Copa do Brasil, mas foi demitido no ano seguinte. Após essa demissão foram mais 10 anos com equipes sem sucesso e passagens curtas, até chegar ao Corinthians em 2010. Após ser eliminado na Libertadores em 2011, muitos o criticaram e pediram sua saída, mas a diretoria o bancou e ele foi campeão Brasileiro, da Libertadores e Mundial na sequência. Trabalhos e carreiras de sucesso exigem muito mais tempo do que o brasileiro está disposto a dar em seus clubes.

Conforme começamos dizendo, não está fácil ser são-paulino, temos o direito de cobrar vitórias, raça, títulos e equipes a altura do São Paulo. Todos os funcionários do clube têm que entender que é inadmissível para um time do tamanho do tricolor perder para o Talleres de Córdoba em uma pré-Libertadores e perder para o Mirassol nas quartas de final de Paulista, após esse ter perdido 18 jogadores durante a pandemia. Sabemos que o futebol é ingrato e cruel, mas quando esses acontecimentos se repetem anualmente, devemos rever conceitos e fazer mudanças, porque o que está sendo cotado como “atípico”, está se tornando constante.

Entretanto, como torcedor temos o dever de apoiar e incentivar jogadores e a comissão técnica que nos dão esperanças de um time que colocará o São Paulo de volta ao lugar que nunca deveria ter saído, porque se fizermos uma autoavaliação veremos que um dos principais culpados pela queda de rendimento são-paulina, é o próprio são-paulino!

Como citar

FREIRE, Vitor. Atenção! Procuram-se culpados pelo vexame. Ludopédio, São Paulo, v. 134, n. 5, 2020.