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Cursos e discursos sobre o esporte: primeiras suspeitas, breves anúncios

Fidel Machado

O esporte, como um fenômeno sociocultural multifacetado, é atravessado por inúmeros discursos, como rendimento, espetacularização, especialização precoce, profissionalização, métodos de ensino, questões de gênero, raça, classe entre outros. Alguns desses enunciados são próprios do campo e outros já o perpassam de forma tangencial ainda que sejam pertinentes, relevantes e propiciem discussões profícuas para se pensar e questionar esse objeto. Para o fim aqui pretendido, objetivo refletir sobre algumas dessas falas que, ao meu ver, são bem presentes e, muitas vezes, flertam com dimensões morais com vistas a governar condutas e manter intacta uma imagem fraternal de pureza. A saber, farei uso de três associações diretas mais correntes, como: o esporte afasta das drogas; esporte é saúde e, por fim, o esporte ensina valores e virtudes. O que aqui farei não é nada novo, alguns pesquisadores e pesquisadoras já se debruçaram sobre tais problemáticas, mas é sempre importante suspeitarmos e cutucarmos tais sentenças que por mais que sejam balançadas, devido à sua força, permanecem de pé.

Serei cauteloso, não se trata de, com esta suspeita, afirmar que tais noções e afirmações estão equivocadas, colocando em cheque todo um conjunto de crenças e condutas no ambiente esportivo. Antes disso, essa suspeita configura-se como um recurso que pode nos permitir ver algo mais nesse cenário, sofisticando assim a discussão sobre o tema. No caso desta abordagem, trata-se de suspeitar que a valorização de determinados discursos como elementos indispensáveis ao esporte possa estar atendendo também a dispositivos morais que se impõem ao sujeito. Adianto que uma inferência como esta não anseia por dados conclusivos, mas habita o campo do questionamento, o que nos permite apresentar um cenário provocativo para a reflexão ético-estética do esporte.

Percebo, como já mencionei, que tais discursos sobre o esporte possuem papéis basilares e desempenham funções consideráveis na manutenção de algumas narrativas sociais. Em que medida esses enunciados reforçam determinadas crenças? De quais formas afetam as nossas condutas? Quais relações mantém com a realidade? Quais capitais estão em disputa na manutenção hegemônica de algumas lógicas? Quais interesses subsidiam essas falas?

A russa Mariya Savinova comemora medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Londres 2012, posteriormente anulada por doping. Foto: Wikipedia.

Ciente de que a construção desses valores é atravessada por interesses e, por sua vez, essas “verdades” são contingenciais e históricas, penso que ao invés de nos digladiarmos e disputarmos o domínio sobre uma suposta verdade sobre o esporte, podemos problematizar e tentar compreender os motivos que subsidiam e possibilitam a construção dessas lógicas e, assim, perspectivar tais interpretações. Dessa forma, sairíamos de uma dimensão ideológica de disputa de poder para uma seara argumentativa, perspectivista que nos permitiria afirmar que o esporte pode ser saúde, assim como pode não ser; pode ensinar valores e virtudes, mas também pode ensinar a burlar, e talvez até afaste das drogas, mas possui no seu interior uma Agência Mundial Antidoping.

Há em toda essa estrutura um interesse pela manutenção de um certo grau de pureza e preciosismo que tenta ser mantido e disseminado por meio de associações até verdadeiras, mas utilizadas de forma, precipitadamente, universalista e totalizante. Dada essa pretensão já há elementos suficientes para que façamos a crítica e desconfiemos desses discursos.

Uma das questões mais candentes sobre a ética do esporte diz respeito ao doping. Há uma vasta discussão sobre a política vigente que tem estimulado o diálogo em muitas instâncias. Como ilustração dessa ampliação discursiva sobre o tema, há grupos a favor do doping, contra o doping e contra quem é contra o doping. Ressalto que a dupla negativa não significa a defesa da causa como princípio, mas a crítica a alguns argumentos antidoping. Dessa forma, somente pela existência dessa discussão, desses grupos e dessa agência o argumento de que o esporte afasta das drogas é falacioso ou, pelo menos, questionável e passível de refutações.

A presença da agência não atesta o extremo oposto da afirmação primeira, ou seja, a existência da WADA não é suficiente para afirmarmos que o esporte aproxima das drogas. Todavia, corrobora para o questionamento e alimenta a reflexão. Ainda nessa temática, temos que alguns sujeitos que nunca fizeram uso recorrente nem tampouco recreativo de nenhum tipo de “droga”, quando se tornam atletas fazem uso de determinadas substâncias para atingir metas, melhorar a sua performance e se encaixar em determinados padrões atléticos. Endosso que aqui não busco estabelecer nenhum juízo de valor quanto à licitude do uso. O tema é polêmico e muito complexo para tomar uma posição taxativa sem a devida maturação do pensamento. O intuito é gerar, em breves linhas, o questionamento sobre a temática.

Qual seria o interesse por trás de outra associação direta que afirma a máxima: esporte é saúde! Seria a manutenção dessa correlação um dos motivos para o uso do doping não ser legalizado? Qual é a definição de saúde posta e adotada? Seria possível falarmos que essa equação é diretamente proporcional? A prática esportiva pode combater alguns fatores de risco, alterar hábitos e promover alguns indícios que se enquadram na definição vigente do termo saúde? Talvez sim! Faz isso sempre? Não. Ademais, saúde não se resume à adequação aos índices nem tampouco à prática de exercícios físicos. A problemática é bem mais ampla e há vários pesquisadores e pesquisadoras muito competentes que questionam essas associações apressadas. Como instrumento ilustrativo, vejamos o exemplo e a carreira de alguns atletas profissionais já aposentados de diversas modalidades. Inúmeros casos de cirurgia, ingestão diária de analgésicos. Impossibilidade de realização recreativa de outras atividades, sem falar nos esporádicos, mas existentes casos de mortes súbitas.  

Por fim, temos a máxima do esporte como uma ferramenta educadora. Como um local para se ensinar e aprender sobre os valores e as virtudes. Nessa associação, é possível questionarmos dois elementos. Primeiro o caráter mediador do esporte. Nesse bojo, o esporte torna-se meio para um fim terceiro. Segundo, não há como garantir o aprendizado purista de determinados valores. Como falei anteriormente, pelos mesmos motivos que a prática esportiva pode propiciar situações em que se possa trabalhar o respeito, ela pode desencadear outros momentos que favoreçam burlar as regras. Como caráter ilustrativo, temos que hoje, nos mais variados esportes, contamos com a presença de árbitros e, mais recentemente, a tecnologia adentrou no campo esportivo para tentar ser ainda mais justa e precisa. O futebol, o vôlei e o tênis que o digam. Se o esporte de fato pudesse garantir o ensino preciso de valores e virtudes, qual seria a necessidade de, no alto rendimento, termos dispositivos de controle para análise e avaliação? Se houvesse garantias, os atletas deveriam ser os paladinos das virtudes. Só esquecemos que os atletas são humanos e que essa imagem idealizada é tão ilusória quanto o mito da Estado laico. Além disso, há STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva), ou seja, talvez precisemos rever essa máxima ou pelo menos desconsiderar esse caráter totalizante.

La Mano de Dios, de Maradona, na Copa do Mundo de 1986, abriu o marcador para a Argentina contra a Inglaterra. Foto: Reprodução.

Vivemos em uma sociedade que se articula e se estrutura, na sua grande maioria, em categorias binárias. Tal divisão pode apresentar-se como um terreno fértil para o estabelecimento de um maniqueísmo problemático entre aquilo que se atribui o juízo de bom e ruim. Nietzsche, filósofo do século XIX, afirma que um dos maiores desserviços do cristianismo para a sociedade moderna e a vida foi a atribuição das categorias de bem e mal. Para o argumento aqui apresentado, o esporte é compreendido como bom, pois atende, incorpora e promove condutas tidas como do bem. Caso contrário ele seria danoso, prejudicial e problemático. Nessa seara, não temos um meio termo, ou é ou não é. Contudo, percebemos que, na multiplicidade, é maior do que a atribuição de caixas de categorias estanques.

O apego às identidades faz com que não questionemos a norma nem tampouco as premissas e isso culmina na culpabilização dos sujeitos que, por uma série de fatores, escapam dessa suposta normalidade. O resultado são os adjetivos. O descumprimento e a fuga da norma resulta na criação dos anormais, dos transgressores ou dos insubordinados. Ratifico que não busco deslegitimar e desconsiderar por completo tais afirmações supracitadas. Questiono o teor dogmático das correlações e, sobretudo, suspeito dos interesses que visam manter a hegemonia de tais falas. Afinal, há interesses na manutenção dessas máximas, pois assim não se perde a influência em determinados setores sociais e se fortalece o status salvador e messiânico extremamente lucrativo. O convite é para nos mantermos atentos e suspeitarmos de narrativas salvacionistas.

A tentativa de fixar o fenômeno esportivo a partir de máximas estaques é inglória. Estabilizar é comprometer o próprio dinamismo da prática esportiva. É cair na armadilha ilusória da Verdade. A tara do domínio ainda perdura insistentemente. Todavia, talvez seja possível pensar o esporte sobre outro prisma. Seria o esporte um potencializador da arte do encontro, do contato e do conflito? Unilateralizar é reduzir o leque de possibilidades que podem ocorrer. É tentar frear um fluxo inexorável. É insistir na busca inglória de querer controlar o incontrolável.