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Da base ao bolso

Lucas Rocha Oliveira

A venda de jogadores formados pela categoria de base do clube foi naturalizada. Se antes a pergunta era “Quantos títulos esse jogador nos dará?”, ela passou para “Quantas dívidas o valor dessa venda pagará?”. A péssima gestão financeira se tornou comum – embora não seja normal –, e, para amenizar as consequências disso, a venda de jogadores formados pelo clube é uma das principais, e quase sempre requerida, forma de alavancar ganhos financeiros. Até aí nada de novo. Falar que um garoto que acabara de subir ao profissional será vendido em breve para pagar as contas é “chover no molhado”, afinal, é um desejo do clube e um desejo do jogador atuar em grandes times europeus, e também desejo do clube fazer caixa. Quem sofre com essa cultura é o torcedor.

Num primeiro momento, tomaremos o Santos FC como exemplo.

Desde o início do século XXI, o Santos FC, segundo dados do UOL Esporte, arrecadou mais de 530 milhões de reais com a venda de jogadores formados pela base. Tem transferências de todos os valores: De 500 mil reais pagos pelo Valência para adquirir o jogador Tiago Carleto em 2008, até os 193 milhões de reais pagos pelo Real Madrid para adquirir um dos últimos raios da vila, o atacante Rodrygo. Vale lembrar que desses 193 milhões de reais, aproximadamente 172 milhões foram para o Santos FC. Além de transferências internacionais, existem as transferências nacionais, que são menos comuns: o volante Adriano Pagode custou 800 mil reais aos cofres do Grêmio em 2013, e Paulo Henrique Ganso 24 milhões de reais ao São Paulo.

Mesmo com toda essa receita arrecadada, o Santos vive uma grave crise financeira devida à péssima administração. Se por um lado grandes promessas são vendidas, contestados jogadores chegaram por altos valores: Cueva  (26 milhões de reais), Copete (aproximadamente 5 milhões de reais) e, claro, Leandro Damião em 2013 (42 milhões de reais na época).

Além de revelar seus jogadores, o Santos os vende, e mais uma vez precisará recorrer a este recurso. A bola da vez é o jogador Lucas Veríssimo. Veríssimo precisa ser vendido para acertar contas urgentes, afinal, o Santos tem salários atrasados e está punido pela FIFA por não honrar seus compromissos referentes aos pagamentos das transferências: Não havia pago o Hamburgo pelo zagueiro Cléber Reis, não pagou o Huachipato pelo atacante Soteldo (um novo acordo está sendo costurado) e não pagou o Atlético Nacional pelo zagueiro Felipe Aguilar. Este último já foi vendido para o Athletico Paranaense, mas o Santos ainda não pagou o Atlético Nacional. O presidente do clube, Orlando Rollo, que assumiu após a caótica gestão de José Carlos Peres, admitiu o desejo e a necessidade de vender Veríssimo, mas o comitê de gestão não autorizou a venda, pois não gostou dos moldes da proposta feita pelo Benfica.

Lucas Veríssimo é formado na base do Santos, se tornou uma das referências do atual elenco e tem contrato até 2024. Foto: Divulgação/SantosFC.

A necessidade de adquirir receita por meio da venda de jogadores é algo explícito até mesmo na previsão orçamentária de cada ano. O Santos por exemplo, previu arrecadar 69 milhões em 2020. Já o São Paulo Futebol clube previu arrecadar 154 milhões de reais, enquanto o Palmeiras 60 milhões de reais, e o Corinthians 66 milhões de reais (todos esses valores foram retirados do ge.com).

Em 2018, o Palmeiras vendeu o atacante Fernando ao Shaktar Doneskt por 24 milhões de reais. Também em 2018, o clube vendeu o goleiro Daniel Fuzato por aproximadamente 2 milhões de reais para a Roma. Em 2019, vendeu o zagueiro Vitão ao Shaktar por 18 milhões de reais. Também em 2019 o clube vendeu o lateral esquerdo Luan Cândido por 34,5 milhões de reais ao RB Leipzig. Todos esses jogadores já foram convocados pela seleção brasileira na base. Em contrapartida, em 2017 o Palmeiras contratou o meio campista Guerra por 10 milhões de reais e em 2019 contratou o atacante Carlos Eduardo por 25,2 milhões de reais. O Palmeiras nesses anos foi um exemplo de vender os jogadores formados em sua base para contratar jogadores não formados em sua base por altos valores. Trocou jogadores identificados com o clube e convocados constantemente pela seleção brasileira de base por jogadores mais velhos que não vingaram. Esse claramente é o caso da subserviência da base ao bolso. Aqui fora retratado a situação do Palmeiras, mas com certeza diversos outros clubes poderiam servir de exemplo. Vender jogador para pagar dívidas e também para pagar outros jogadores faz parte da cultura do futebol brasileiro, cultura essa que também é fomentada pelos jogadores e seus empresários.

Um exemplo disso é um novo talento que vem se consolidando no time do Grêmio: o armador Jean Pyerre. Quando perguntado sobre seus pontos negativos como jogador de futebol, Jean Pyerre – muito lúcido fora de campo, assim como dentro –, responde:

“Tenho que procurar evoluir cada vez mais […], melhorar a marcação, ser intenso dentro do jogo são coisas que estou trabalhando e evoluindo, não cheguei a um nível ideal […] Eu evoluindo essas coisas me põe numa situação muito boa tanto para times da Europa quanto para a seleção, mas também agrega para mim e ao meu futebol. Isso agrega para a equipe. Isso é uma coisa que ajuda a mim e ajuda a equipe também”.

Para Jean, ajudar o time vem por último.

Se o jogador ainda puder ir direto para times europeus, melhor ainda, pois evoluem lá.

Jean Pyerre, o novo camisa 10 do Grêmio. Foto: Lucas Uebel/Divulgação Grêmio.

Esse é o caso de três jogadores formados na base santista: Caio Henrique, Kaique Rocha e Giovanni Ribeiro. Estes jovens preferiram assinar o seu primeiro vínculo profissional com Atlético de Madrid, Sampdoria e Ajax, respectivamente. Vale ressaltar que todos também passaram pelas categorias de base da seleção brasileira. Kaique chegou ao Santos no sub13, mas não chegou a estrear no profissional. Caio Henrique e Giovanni também não estrearam no profissional. Essa situação é recorrente.

Quando uma transferência precoce acontece junta a fome com a vontade de comer. A vontade/necessidade da diretoria se une à vontade do jovem. Cada vez menos os times da elite do futebol brasileiro conseguem consolidar um jogador como ídolo que fica por muito tempo, mesmo que não sejam formados na base, como por exemplo Harlei no Goiás, Márcio no Atlético GO, Marcos no Palmeiras, Fábio no Cruzeiro e Ceni no São Paulo. Detalhe curioso é que todos os citados é (Fábio) ou foram, goleiros. Formados na base então fica ainda mais difícil.

Acredito que o único que sofre com isso é o torcedor, pois vê o jovem com “pedigree” ser vendido tão novo, e junto com ele se vai a esperança de um novo craque formado em casa. O futebol é um esporte de românticos, e até mesmo aqueles que se consideram torcedores racionais (existem?), olham com esperança para a base. Talvez esperam um novo Neymar que, em tempo de vacas magras, lidera um time campeão da Copa Libertadores. Talvez esperam um novo Gabriel Jesus, campeão e eleito craque do brasileirão. Talvez esperam um novo Alexandre Pato fazendo embaixadinhas de ombro na final de um Mundial de clubes, ou até mesmo um Ronaldinho Gaúcho, que no auge de sua juventude humilhou o capitão do tetra que jogava no seu arquirrival numa partida em que fez o gol do título estadual.

Gui Deodato retornou à equipe de Bauru para a temporada 2020/21. Foto: Divulgação/LNB.

Lembro-me quando Gui Deodato, ala promissor da equipe de Basquete de Bauru, não teve seu contrato renovado. Gui nasceu em Bauru, estudou em Bauru, morou no mesmo bairro que eu, na rua de trás. Vira e mexe o Gui aparecia na minha rua pra jogar basquete no aro que penduramos no muro de um dos vizinhos. Lembro que a minha máxima nessa época era: “Jogador bom a gente não compra, a gente faz”. Falava isso com orgulho. Quando o Gui deixou a equipe de Bauru, acredito que um pouco da equipe de Bauru deixou de ser a equipe de Bauru. Eu deixei de frequentar o ginásio por um tempo, até chegar uma fase em que novos jogadores da base foram incorporados no time principal. Na verdade, até eu me sentir representado.

Eu torço para que acabe a filosofia “da base ao Bolso”. Eu quero mesmo é ver da base ao coração. Da base ao rol dos ídolos. Por mais “Guilhermes Deodatos”, ou melhor, por mais de nós em nossos times.

Referências

TRASKINI, Éder. Santos faturou mais de meio bilhão com vendas de Meninos da Vila no século. UOL, 2020.

CASSUCCI, Bruno. Corinthians prevê R$ 66 milhões em vendas de atletas e queda nas oitavas da Libertadores em 2020. Ge.com, 2019. .

DOS SANTOS, Gabriel. Conselho do Santos aprova orçamento com redução da projeção de receitas para 2020. Ge.com, 2020

Palmeiras fica perto de meta do ano e faz caixa de R$ 46 milhões para reforços. Espn.com, 2020. 

RODRIGUES, Eduardo. HAZAN, Marcelo. Orçamento de 2020 do São Paulo é aprovado e prevê R$ 154 milhões em vendas de jogadores. Ge.com, 2019.


Como citar

OLIVEIRA, Lucas Rocha. Da base ao bolso. Ludopédio, São Paulo, v. 138, n. 54, 2020.