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Da Inglaterra a Madri: O que carregam os finalistas da Champions League 2018/19?

Mariana Vantine de Lara Villela

Jürgen Klopp e Mauricio Pochettino conduziram muito bem seus times à final da Champions League 2019. Mas, além de equipes bem treinadas, vão entrar em campo no próximo dia 1 de junho histórias de luta. Como se refere Gramsci à ideologia: “concepção do mundo que se manifesta implicitamente na arte, no direito, na atividade econômica, em todas as manifestações da vida individual e coletiva”. Assim, apesar das contradições do futebol moderno, Liverpool FC, da terra dos Beatles, e Tottenham Hotspur, de Tottenham, subúrbio no norte de Londres, carregam consigo os ideais e as histórias de seus respectivos lugares de origem.

Em 5 de setembro de 1882 era fundado o Hotspur Football Club, que em 1884 viria a se chamar o Tottenham Hotspur FC. Tottenham era uma região que abrigava diversas fábricas, desde borracha a cerveja. O White Hart Lane, antigo estádio do clube construído em 1889, também contribuiu para a expansão do setor industrial no local. Uma das maiores, se não a maior, fábrica era a “Gestetner Factory”, e fechou as portas em 1979 causando grande impacto e fazendo um anúncio dos tempos que estavam por vir: a desindustrialização do governo neoliberal de Margareth Tatcher.

O bairro de casas geminadas se via cada vez mais em abandono. E isso também tem a ver com a conhecida “implicância” da Dama de Ferro com territórios de oposição, afinal ali sempre foi um reduto do Labour Party.

Imigrantes também são um símbolo de Tottenham. Foi em um local de diversas nacionalidades, negros e judeus que os Spurs nasceram. Não por acaso, em 1909, o clube foi o primeiro da divisão de elite a contratar um jogador negro. E suas raízes judaicas também sempre foram muito explícitas. Depois de ser alvo de diversos cantos antissemitas, o termo pejorativo “Yids”, utilizado por fascistas ingleses que apoiavam o extermínio dos judeus, acabou sendo utilizado pela própria torcida para se autodenominar, e deixá-los sem respostas. Um episódio emblemático foi a partida entre Inglaterra e Alemanha, em 1934, justamente no White Hart Lane, onde estenderam uma bandeira da suástica e um torcedor da casa foi até lá para tirar e tentar rasgá-la.

Mensagem dos torcedores do Tottenham Hotspur nas quartas de final da Champions League, quando o clube londrino enfrentou o Manchester City: “To dare is to do” (“Ousar é fazer”, em tradução livre). Foto: Wikipedia.

A relação dos Spurs com sua região natal ficou evidente mais uma vez quando o então presidente entrou na disputa do Estádio Olímpico de Londres, localizado em Stratford. A decisão causou revolta e vários protestos em Tottenham, que reivindicavam: “esse é o nosso clube. Ele é daqui, e nos orgulhamos disso”. No fim, o antigo estádio foi demolido, mas o novo se ergueu no mesmo lugar.

A história dos Reds de Liverpool também não se resume às quatro linhas. No ano de 1959 um personagem peculiar e politizado chamou atenção. Tratava-se do técnico escocês Bill Shankly, que conduziu o clube da segunda divisão à conquista do campeonato da elite em menos de 5 anos. Assim como Klopp, o treinador da época não escondia suas posições políticas, era abertamente socialista e afirmou “O socialismo que acredito é todo mundo trabalhando para um mesmo objetivo e todo mundo tendo parte da recompensa. Assim entendo o futebol e assim entendo a vida”. Também ficou marcado por ser uma figura carismática próxima aos torcedores, inclusive tendo assistido a jogos junto aos hooligans no estádio de Anfield.

 

A canção que virou hino do Liverpool, “You ‘ll never walk alone” (“Você nunca andará sozinho”, em tradução livre), adorna tanto o portão do estádio Anfield em homenagem ao ex-treinador Bill Shankly quanto o escudo do clube inglês. Foto: Wikipedia.

Posteriormente, nos anos 80 a cidade de Liverpool sofreu com o “Tatcherismo”, tendo refletindo diretamente no clube. A cidade industrial era sede de um forte movimento sindical e, assim como Tottenham, historicamente alinhada ao Labour, fatos que desagradaram e muito a Primeira-Ministra. Os sindicatos eram frequentemente associados aos hooligans, os quais eram sempre taxados de “violentos e vagabundos”. Em abril de 1989, o Liverpool foi a campo no estádio de Hillsborough, em Sheffield. A polícia do condado em questão, South Yorkshire, já era conhecida por reprimir duramente movimentos a mando de Tatcher, como foi o caso da greve dos mineiros entre os anos de 1984 e 1985. Na ocasião do jogo, não foi diferente.

Em meio a uma superlotação, centenas de torcedores Reds foram esmagados entre a arquibancada e o alambrado, levando 96 deles à morte. E o que a polícia fez? Se negou a ajudar, alegando que os torcedores violentos estariam tentando na verdade invadir o campo. Em uma cooperação entre a polícia e a Dama de Ferro, foi criado o Relatório Taylor, apurando falsamente que o acidente havia sido fruto da violência da torcida. Este relatório, deu início ao que chamamos de “futebol moderno”. Abriu caminho para a arenização e os clubes-empresa. Os torcedores do Liverpool foram punidos por um longo tempo dos estádios e difamados por tabloides, especialmente o “The Sun”, até hoje proibido de entrar tanto no Anfield quanto no estádio do Everton.

Esse episódio travou uma luta da torcida vermelha por justiça, que teve enfim uma resposta em 2016, quando foi comprovada a fraude no relatório e a negligência policial. Liverpool nunca deixou de protestar dentro ou fora de campo. Em 1997, por exemplo, Robbie Fouler exibiu, após marcar um gol, uma camisa escrito “DoCKers” (significa estivadores), em apoio à greve dos estaleiros na época. Nas arquibancadas, também, não é raro ver manifestações políticas.

Sem dúvidas tanto o time londrino quanto o do noroeste inglês representam muita coisa. O último título continental dos Reds foi em 2005, enquanto dos Spurs em 1984. Ambos nunca ganharam a Premier League. No próximo dia 1 de junho, os dois time entram em campo para escrever mais um capítulo dessa bonita história. Podemos ter dessa vez um jogador muçulmano consagrado. Ou quem iria imaginar: um sul-coreano. Ainda temos aqueles europeus imigrantes, que jogando seu futebol apurado, também colocam o dedo na ferida naqueles que insistem em discriminá-los. E há quem diga que são apenas pessoas correndo atrás de uma bola.