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Dados da seleção feminina em competições oficiais

Luciane de Castro

Resolvi pegar a contra mão das minhas habilidades para fazer um pequeno rastreamento de dados no que diz respeito aos resultados e desempenho da seleção feminina principal em competições oficiais.

Foi na unha. Foi na pesquisa. Foi consultando espaços oficiais e buscando recortes de notícias das referidas épocas para montar uma planilha que pudesse mostrar, com alguma consistência e para além do que a memória nos permite guardar, o quanto seguimos estacionados no que diz respeito ao real desenvolvimento da modalidade em relação aos países que investiram de modo mais adequado em suas futebolistas.

Deveria manter meu espírito em paz, desfrutando da bela natureza ubatubense, e simplesmente não me incomodar com abordagens institucionais sofridas por amigos através das redes sociais. Mas não tolero tentativas de cerceamento.

Como modo de municiar o debate, mergulhei no universo das planilhas e fórmulas rasas – porque não dou conta da matemática como um dia já dei – para mostrar, de modo efetivo, que o retorno de Vadão ao comando da seleção (e sua comissão técnica), foi não só um equívoco, foi também uma provocação.

Ainda que o coordenador de seleções femininas na CBF afirme, de modo categórico, que Vadão é um sucesso à frente do selecionado brasileiro, os dados colhidos mostram o que qualquer um atento à modalidade, sabe de cor e salteado: Vadão é comunzinho. Simples. Se iguala a muitos outros treinadores no que se refere aos resultados em competições oficiais com apenas um fato que o favorece: está há mais tempo no cargo.

A base da pesquisa foi bem básica:

– Todas as competições oficiais – inseri os Jogos Pan Americanos também por valer medalha e esta ter algum peso para a modalidade, ainda que em determinadas edições alguns países melhor posicionados no ranking FIFA e com melhor histórico de conquistas, tenham participado com jogadoras menos experientes. O que não é demérito para a seleção medalhista de ouro, saliente-se.

– Todos os anos desde a primeira Copa do Mundo, em 1991;

– Todos os técnicos a que tive acesso à informação;

– Todas as posições da seleção nas competições;

– O ranking oficial da FIFA a partir de 2003 e a posição nas competições antes desta data;

– Quantidade de jogos realizados entre o Brasil e as demais seleções em jogos oficiais;

– Número de vitórias, empates, derrotas, gols pró e contra;

– Número de vitórias e derrotas por ano frente a cada seleção;

– Em vitórias ou derrotas por pênaltis, considerei o empate no tempo normal.

Deu trabalho, mas não podemos deixar a egolatria dominar os fatos. Por isso me dispus a sentar diante do computador para elaborar a planilha, que, devidamente filtrada, traz números bastante interessantes sobre o desempenho de cada técnico frente à seleção brasileira.

A América do Sul é nossa

Seleção que disputou a Copa América de 2018. Foto: Lucas Figueiredo/CBF.

Seleção que disputou a Copa América de 2018. Foto: Lucas Figueiredo/CBF.

Contra as seleções da América do Sul, o Brasil reina. Foi campeão em 7 das 8 edições. O posicionamento das seleções sul-americanas adversárias no ranking FIFA a partir de 2003, oscila basicamente entre 24ª a 94ª quando não Inativa, o que significa que a seleção não pontuou o suficiente em mais de 18 meses para se mover no ranking.

Foram 48 jogos contra adversárias sul-americanas, com um total de 47 vitórias, 1 derrota, 277 gols pró e 18 gols contra. Superioridade brasileira absoluta. Na disputa do Sul-Americano até 2010, ou seja, com a passagem de Fernando Pires, Ademar Fonseca, Zé Duarte, Paulo Gonçalves, Jorge Barcelos e Kleiton Lima com uma média de 2,5 anos no cargo, o Brasil disputou 33 jogos, com 33 vitórias, 213 gols pró e 12 contra.

Desde que assumiu a seleção em 2014, portanto há 4 anos – o período em que Emily assumiu o comando da seleção não foi suficiente para disputa de competições oficiais, portanto, para efeitos de dados com estes parâmetros específicos, considero o tempo como ininterrupto – Vadão já realizou 15 jogos contra as seleções sul-americanas, tendo 14 vitórias, 1 derrota, 64 gols pró e 6 contra.

O que fica óbvio: qualquer treinador que permanecesse mais tempo no cargo, teria condição de levar mais de um título de campeão da América do Sul, logo, Vadão não fez nada de excepcional nesta amostragem “caseira”.

Copa do Mundo e Jogos Olímpicos, onde importa muito
Quando analisamos os dados da seleção frente a seleções da UEFA entre os anos de 1991 e 2012, temos 23 jogos com 9 vitórias, 6 empates, 8 derrotas, 36 gols pró e 28 gols contra. Vale salientar que as seleções da UEFA são as que ocupam as dez primeiras posições do ranking FIFA com a Grécia (adversária em 2004) a única com posição acima de 50º lugar. O critério tempo no cargo permanece o mesmo, uma média de 2,5 anos.

Contra as seleções da CONCACAF, o desempenho da seleção entre os anos de 1991 e 2012 é de 18 jogos com  vitórias, 2 empates e 6 derrotas, 42 gols pró e 17 contra. Destes números, 8 são os jogos contra os EUA onde temos 2 vitórias e 6 derrotas. As duas vitórias se deram em 2007, quando ficamos com o vice campeonato mundial diante da Alemanha.

O ranking das seleções da CONCACAF vai dos EUA no 1º lugar, Canadá oscilando entre 6º e 11º e México, Costa Rica e Haiti do 22º para cima.

Diante das seleções da AFC, no mesmo período e com treinadores diversos, o Brasil realizou 12 jogos com 9 vitórias, 3 derrotas, 22 gols pró e 11 contra. As seleções se posicionavam entre o 3º e 24º lugar no ranking.

Neste período abordado, tivemos:
Copas do Mundo: o vice campeonato como melhor resultado em 2007, sob o comando de Jorge Barcellos. Ficamos na fase de grupos em 1991 com Fernando Pires e 1995 com Ademar Fonseca. Terceiro lugar em 1999 com Wilson Oliveira e quartas-de-final em 2003 e 2011 com Paulo Gonçalves e Kleiton Lima, respectivamente.

Jogos Olímpicos: Quarto lugar em 1996 e 2000 com Zé Duarte, medalha de prata em 2004 e 2008 com René Simões e Jorge Barcellos, respectivamente, e ficamos nas quartas-de-final em 2012 com Barcellos novamente.

As seleções adversárias em 2004, 2007 e 2008, logo, anos com os melhores resultados em grandes competições, posicionavam-se entre o 1º e o 25º lugar no ranking. Foram 17 jogos com 12 vitórias, 1 empate e 4 derrotas. 41 gols pró e 11 contra.

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Vadão ao lado de Marta. Foto: Gregorio Fernandes/CBF.

Dados refinados nos últimos 3 anos
Já discorri sobre os resultados de Vadão com a seleção em jogos contra as seleções sul-americanas. Diante de seleções da UEFA e CONCACAF nos anos de 2015 e 2016 e com posição no ranking entre o 5º e o 25º lugar, a seleção conta com 10 jogos, 6 vitórias, 2 empates, 2 derrotas, 18 gols pró e 6 contra. As competições abrangidas são Copa do Mundo, Olimpíadas e Jogos Pan Americanos.

Convertido em resultados definitivos e ampliando os dados para abranger jogos contra as seleções da CAF, AFC e OFC, temos eliminação nas oitavas-de-final na Copa do Canadá e quarto lugar nas Olimpíadas do Rio.

Mas há as informações implícitas nestes números, e elas dizem respeito à qualidade do futebol apresentado que é pautado no individualismo, o que em termos práticos significa “mete a bola para fulana que ela tenta resolver”, ou ainda quando vemos Marta voltando insanamente para buscar um jogo que não avança, que não desenvolve. Ou ainda quando leio que a seleção “abusou dos lançamentos”, o que no bom e velho futebolês nada mais é que “chutão”.

Com mais tempo disponível e estrutura mais adequada para trabalhar, o resultado apresentado por Vadão em competições oficiais de nível mundial, não passa do comum apresentado pela maioria dos técnicos, com exceção de René Simões e Jorge Barcellos.

Quando o coordenador quer travestir de sucesso um trabalho mediano, citando torneios amistosos (ou tradicionais em que levamos anos para participar ou foi negada a participação sob o comando de Emily Lima alegando estar “desprestigiado”) ou competições cujos adversários estão muito desfalcados ou mal qualificados no ranking FIFA e alega resultado inexpressivo de Emily no mesmo torneio amistoso, fica evidente a ausência de um critério  pertinente para manutenção de um técnico à frente da seleção na CBF atual.

Há uma grande diferença em sermos derrotados pelas mesmas fortes seleções com um futebol vistoso e sermos derrotados apresentando um futebol mal conduzido. Querer empurrar goela abaixo das pessoas que acompanham e entendem da modalidade, que ninguém sabe como é que se faz e que o que está sendo feito é o perfeito, é soberba. E ela não se esconde entre números numa tabela, tampouco nas mensagens privadas pelas redes sociais.