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A metáfora é bicolor na aquarela brasileira: há Damares em nós?

Fidel Machado

Damares Regina Alves é advogada, pastora evangélica e atual ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos do (des)governo de Jair Bolsonaro. Há alguns dias, realizou o famigerado pronunciamento: “é uma nova era no Brasil, menino veste azul e menina veste rosa”. Opto por adjetivar, pois Damares é imbatível quando o assunto é afirmação polêmica. Seu repertório é vasto e os destinatários são, “coincidentemente”, o movimento gay, as causas feministas, as famílias e as escolas. Ouso afirmar que seu discurso é singular, proposital e está alinhado com um modo de governar para a unidade.

Alvo constante de críticas e ofensas, as cores, desde o início, tiveram preponderância no cenário político brasileiro. O vermelho passou a ser demonizado e virou a síntese dos malefícios, do terror e dos problemas. Frases como: “Nossa bandeira nunca será vermelha”, eram proferidas a esmo. A missão era extinguir e eliminar o perigo iminente que o vermelho propiciava. Nesse intuito, sigo na metáfora e afirmo que medidas já foram rapidamente tomadas e efetivadas. Inicialmente, eliminaram o ser que personificava a cor vermelha e suas representações: o ex-presidente Lula. Isso feito, seguem deliberadamente tentando eliminar outro ser que simboliza, metaforicamente, o vermelho, a saber, os índios.

Relutei bastante em iniciar a escrita deste ensaio e, principalmente, em manter a escolha do tema que possui, como mote, a fala da ministra e a menção às cores. Contudo, minha insistência está alicerçada no seguinte aforismo: “o óbvio precisa ser dito”. Isso posto, retomarei o pronunciamento e persistirei na problemática que versa sobre a questão de gênero. Ainda que a temática esteja saturada, desgastada, moralizada e metaforizada, penso que tais fatores não esgotam a discussão. Intento, nas próximas linhas, me debruçar sobre as cores e aproximar a fala da ministra ao campo esportivo e os seus dispositivos morais que atravessam e marcam, substancialmente, as condutas dos corpos.

Em determinada passagem do pronunciamento, a ministra anuncia a chegada de uma nova era no Brasil. Talvez os mecanismos de operacionalização sejam distintos, mas a suposta nova era data de séculos atrás em que imperava um conservadorismo tacanho que insistia e ainda insiste em reduzir gênero ao órgão sexual. Consequentemente, a equação culmina em um biologicismo causal, enviesado e simplista. Em outra entrevista, ela verbaliza que uma parcela da sociedade contemporânea, adepta da suposta ideologia de gênero, quer confundir as crianças com doutrinas que desrespeitam as identidades ideológicas dos infantes. Dessa forma, há um caráter determinista que impele uma adequação ao órgão. A própria biologia é desconsiderada, pois não existe somente o sexo masculino e o sexo feminino.

A tal postura da ministra que se diz contra e combate, aguerridamente, a doutrinação ideológica de gênero, carrega em si uma lógica de operacionalização com um viés pretensamente universal e irreversível. Não há opção: menino é azul e menina é rosa. Morreu o assunto.

Ministra de Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil.

Nessa conjuntura, os papéis sociais são muito bem definidos e há um polo bastante valorizado. As funções estão postas. Por mais obsoleto que aparente ser o discurso, uma parcela simbólica da sociedade ainda atribui um juízo moral aos corpos. O corpo do homem exerce um caráter produtivo e o corpo da mulher, um caráter reprodutivo. As atribuições, mais uma vez, são e estão a reboque da moralização arraigada ao sexo. Um exercício de poder naturalizado. A heterossexualidade, como dispositivo dessa lógica, foi construída socialmente como padrão universal de toda e qualquer forma tida como normal. Dada essa norma, as demais formas de identidade de gênero e identidade sexual são tidas como anormais, como estranhas e passíveis de intervenção. A conduta heteronormativa é imposta enquanto os outros corpos são silenciados e invisibilizados. Quando vistos, muitas vezes, são desrespeitados, satirizados, espancados e mortos.

Tal cenário anunciado, abre uma brecha para ampliarmos a discussão. Uma declaração, aparentemente, simplista e falaciosa pode conter em si um arcabouço moral significativo e, mais do que isso, pode estar bem próxima de ações do nosso cotidiano. Em outras palavras, por mais que critiquemos a ministra, talvez haja muito da sua fala em nós.

Em tempos de um apelo excessivo para as identidades, o campo esportivo poderá servir de alvo para o fortalecimento da reprodução binária. Vale a ressalva que o esporte não é um ente, mas a sua lógica interna pode servir para a manutenção ou mudança de determinados valores. De forma simbólica e material, as modalidades esportivas impulsionam frases, como “joga como homem”; “entrou com pé de moça”; “jogo de mulher não tem graça”; “tá pesado? Faz balé”; “parece o corpo de um homem!”; “Isso não é esporte de menina”; “lutas e futebol para meninos, balé e carimba para meninas”. As frases são múltiplas e variadas. Todavia, o conteúdo de tais afirmações flertam e coadunam com o caráter moralizado e determinista da fala da ministra.

Infelizmente ainda vivemos em uma sociedade em que há modalidades esportivas com reserva masculina. Os corpos de mulheres, ao estarem inseridos dentro de uma área hegemonicamente reservada aos homens, são, constantemente, alvos de comparação e inferiorizados em termos de valências físicas e performance. No que tange à beleza são erotizados e objetificados dentro de uma conjuntura, estruturalmente, androcêntrica. Fora essa questão, ainda somos colonizados por modalidades e formas de se movimentar europeias ou estadunidense, brancas e, muitas vezes, cristã.

O campo esportivo como uma das formas de intervenção no mundo não é imparcial, pois apresenta-se como um construto social carregado de signos e valores construídos de forma contingencial e histórica. Por esse mesmo fator, passível de alteração, mudança, crítica e suspeita dos pilares vigentes. Advogar, ingenuamente, por um caráter neutro ou militar por posições dessa ordem é ilusão.

A nova era brasileira ganhou novas roupagens, para ser mais preciso, novas metáforas para cores hegemonicamente já atribuídas e instauradas. Reduzir ao azul e ao rosa é uma afirmação interessada e talvez possua intentos morais. Na aquarela brasileira dos corpos, a beleza da mistura e da quantidade de cores encanta e compromete a tirania da razão. A beleza do colorido causa espanto. Êxtase.

As modalidades esportivas, nessa conjuntura, podem ser e continuar sendo um potente lugar de viabilizar encontros com corpos cuja humanidade vem sendo negada e traída. Cuja existência é invisibilizada e menosprezada. Os corpos outros, em tempos de democracia, vivem sob um estado de exceção, pois são constantemente atacados dada a sua condição de inadequação, dada a sua força em borrar e misturar cores e sabores.

Ainda não fui convencido de que a existência humana se dá sob a tirania das determinações. Não consigo corroborar com tal condição, pois assim descaracterizaria toda a dimensão das ciências humanas e, sobretudo, da filosofia e a sua ação de produzir conceitos. Deslegitimaria a reflexão sobre as esferas da vida e a inversão das situações estagnadas dado o peso da tradição. Defender causas deterministas é negligenciar a força do encontro e do contato. É desconsiderar toda a potência inventiva do ser humano e sucumbir aos discursos universais, totalizantes e, por sua vez, totalitários.

Ainda que os tempos sejam obscuros e o convite seja para a estagnação e a manutenção imposta do silêncio, penso que a riqueza humana reside no alvoroço, na inquietude, na dúvida, no movimento que instiga e desperta. Cabe a nós a suspeita e a autocrítica constante para evitar a confiança de que superamos nossas heranças, pois pode ser que, simplesmente, tenhamos atualizado de forma inconsciente.

O rompimento com a tradição, muitas vezes, conserva características operacionais de sua lógica. Para tanto, inspirado em Nietzsche, filósofo alemão do século XIX, devemos evitar ser asnos, ou seja, acreditar, dogmaticamente, nas nossas próprias posições como verdades irrefutáveis e assim sucumbirmos a uma tranquilidade passiva por acharmos que estamos de posse da verdade definitiva.

O convite é para a abertura ao jogo do diálogo franco. O enfrentamento das vicissitudes de uma perspectiva ética permeável ao devir que não imobiliza e fixa posturas estanques e unilateralmente interessadas. A razão do pronunciamento é ideológica e não sobre figuras de linguagem. Antes uma confusão pelo leque da escolha à imposição totalitária de uma aceitação muda.

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