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Das gerais

Marcos Marques dos Santos Júnior

Tudo começou em 1993 quando nosso pai nos levou (meu irmão e eu) às gerais do campo, que é como alguns campinenses chamam o Estádio Governador Ernani Sátyro (O Amigão) em Campina Grande na Paraíba, para vermos a final do Campeonato Paraibano daquele ano entre Campinense x Treze. Ficamos nós três sentados na geral, meu pai do lado esquerdo, eu no meio e meu irmão do meu lado direito, e nos disse assim: “Bom… eu trouxe vocês dois para cá, para vocês escolherem o time que irão torcer.” Eu tinha oito anos de idade e meu irmão já beirava os doze, imagino que já tinha em mente o time de coração: O Treze. Pois quando nosso pai o perguntou ele logo respondeu: “O Galo” (mascote oficial do Treze). Confesso que o fato de nosso pai ser raposeiro (torcedor do Campinense) me influenciou na escolha do time de coração.

Cheguei a São Paulo em 2002 e nesse eixo existem muitos times para torcer, a maioria deles muito conhecidos, pois aqui é a grande vitrine do futebol nacional: muitos investimentos, clubes com ampla estrutura, enormes torcidas e mais favorecimento em divulgação pelas mídias. No Nordeste os times de São Paulo e principalmente do Rio de Janeiro são muito conhecidos, uma das maiores redes de televisão brasileira transmite o Campeonato Carioca para lá e muitos torcedores elegeram o Flamengo como segundo time. O fato de os times paraibanos não disputarem campeonatos da dita elite do futebol nacional, ajudou mais ainda nesse processo. Realmente não é fácil estar fora do eixo, o Brasil e o povo brasileiro não se conhece, simplesmente não se conhece, é um problema que temos, um problema de um país que não é nação e quem está fora do eixo não recebe coisas boas, para conseguir coisas boas tem que se esforçar à terceira ou até à quinta potência, o Campinense fez isso e conseguiu se mostrar, ou melhor, mostrar mais.

Confesso que vim para cá torcendo para o Campinense Clube mas mais apaixonado pelo Flamengo e gostando do Palmeiras. Um verdadeiro bandeirinha para alguns. Uns diziam que era muito fácil torcer para três times diferentes ou que eu não tinha personalidade etc.

Sou + Campinense. Foto: Rafael Ribeiro – CBF.

Formei-me em Educação Física e o estudo do futebol como fenômeno complexo me ajudou a aprender a aprender e consequentemente a enxergar um pouco melhor as imbricações que existem nessa complexidade toda. Depois de um tempo vi que o Flamengo estava dominado por pessoas que simplesmente não pensavam no clube, levando cada vez mais o mesmo à falência e vi que poderia continuar gostando do Palmeiras mas sem necessariamente ser um autêntico torcedor. Enfim, fui vendo que era muito fácil torcer por times grandes do eixo Rio-São Paulo, percebi enfim, que o Campinense Clube precisava muito mais da minha ajuda como torcedor. Poderia ajudar na torcida do Campinense Clube para conseguir mais patrocinadores, mais dinheiro para investir em categorias de base, para ampliarmos nosso estádio próprio (O Renatão) para mandar nossos jogos em casa própria etc. coisas que a maioria dos times do Sudeste já tem.

Confesso que em São Paulo já disse que torcia até para o Corinthians, principalmente quando estava assistindo jogos do Timão ao lado da minha ex-namorada (Andréa), comemoramos juntos o título mundial do S. C. Corinthians Paulista, digo ex, pois rompemos, ainda gosto dela mas se ela ler esse texto no qual decido a partir de hoje que torcerei apenas para o Campinense Clube-PB acho que me diria sem nenhuma resenha: “Pois é Marcos Júnior, acho que continuaremos ex-namorados”.

Hoje, vinte anos mais tarde o Campinense se tornou o mais novo campeão da Copa do Nordeste vencendo o Asa-AL nos dois jogos da final. Aqui em São Paulo mais especificamente em Caraguatatuba (Litoral Norte) acompanhei a linda campanha do time pela internet, no site da TV Esporte Interativo que transmitiu os jogos ao vivo da Copa com seu lindo e simples slogan: “O Nordeste merece” e através de conversas ao telefone com meu pai e com meu irmão. Fiquei sabendo por eles que o time começou a ser chamado de “Barcelona do Nordeste” devido ao lindo toque de bola e tranquilidade do elenco. A distância me emociona, tenho saudades da minha família, imaginem nessa época em que o Campinense nos encheu de orgulho… hoje pedi para que meu pai levasse o telefone para o campo (O Amigão), estava no trabalho quando liguei na hora do jogo e das gerais ele atendeu gritando: “Eu sou raposeiro, com muito orgulho, com muito amor”.

Foto do Campinense na final da Copa Nordeste 2013. Foto: Rafael Ribeiro – CBF.

Há algum tempo escrevi um poema relembrando as nossas idas ao campo e às gerais do que se tornou hoje o principal estádio da Paraíba (O Amigão).

Ó Campinense Clube

Das gerais eu te via,
nunca vou te esquecer!

E das mesmas gerais
Deus hei de querer,

que com Didi Sr. meu pai,
um dia volte a te ver!