02.3

Davi e Golias em Belo Horizonte

Fernando José Lourenço Filho

É lugar comum falar que o futebol é uma caixinha de surpresas, mas o que é mais comum ainda, são as inesperadas “zebras” que rondam os gramados do mundo desde que um grupo de ingleses teve a brilhante idéia de criar um jogo em que usássemos os pés para chutar uma bola. As “zebras” são episódios que apresentam um caráter quase bíblico, é como se testemunhássemos nos estádios uma re-encenação do episódio de Davi e Golias. São os Deuses do futebol nos mostrando que se existe uma lógica no futebol, ela é permeada pelo imponderável.

Na Copa de 1950, disputada aqui no Brasil, aconteceu aquela, que é considerada por muitos como a maior zebra da história, Estados Unidos um a zero na Inglaterra. Muito se fala desse jogo, disputado no dia 29 de junho de 1950, mas pouco se fala dos jogadores que realizaram essa façanha, um grupo interessante de atletas, composto por filhos de imigrantes irlandeses, italianos, portugueses e espanhóis, além de um negro haitiano. Nenhum deles vivia do futebol como profissionais, eram lavadores de prato, carteiros, e um, caso do goleiro Frank Borghi, motorista de carro fúnebre. Era um time de amadores apaixonados por um esporte ignorado em seu país, contra a até então mais respeitada equipe do mundo.

Assim sendo, a vitória contra a Inglaterra era o resultado mais improvável que se poderia imaginar. Era o primeiro mundial que os ingleses participariam, pois até então, os inventores do futebol se recusavam a participar, por se sentirem naturalmente superiores às demais seleções, tese esta, assinada pela maioria dos especialistas da época. Pura soberba. O English Team batera a Itália por 4 x 0 em Turim, Portugal por 10 x 0 em Lisboa e um combinado chamado de “Melhores da Europa” por 6 x 1. Já a seleção dos Estados Unidos, nos últimos sete jogos que disputara tinha feito apenas 2 míseros gols e sofrido nada mais que 45.

O que mais chamava atenção na seleção norte-americana, não era nem de longe o seu estilo de jogo, e sim o acessório utilizado em campo por um de seus zagueiros, Charley Columbo, uma luva de boxe. Em uma das raras fotos deste confronto, é possível ver o zagueiro-boxeador disputando a bola com um atacante inglês, só que fazendo uso da cabeça, para sorte de seu adversário. As bolsas de apostas de então faziam coro ao favoritismo inglês, enquanto que em cada libra apostada na seleção inglesa, em caso de vitória, se ganhava apenas três, para os norte-americanos, quinhentas, tamanha era a improbabilidade de um resultado desfavorável aos súditos da rainha. Mas aos 37 minutos do primeiro tempo, o haitiano naturalizado americano Joe Gaetjens manda para o vinagre, com um gol de cabeça, todas as previsões. O jogo seguiu com um intenso, porém infrutífero, bombardeio inglês ao gol dos norte-americanos. Os ingleses corriam desesperadamente atrás do empate, era o nome do futebol inglês que estava em jogo agora, mas era tarde demais, pois para os norte-americanos, aquele já era o jogo de suas vidas.

A partida acaba. Eufóricos com o que acabavam de presenciar, torcedores brasileiros invadem o gramado do Estádio Independência em Belo Horizonte, e carregam sobre os ombros, os jogadores da seleção americana como heróis. Davi derrotara Golias, e os Deuses do futebol mostravam quão surpreendentes e brincalhões podem ser. No dia seguinte, o jornal New York Times se recusava a publicar a notícia, pois acreditava que não passava de um trote, já o The Times, de Londres, anunciava: “Morreu e foi sepultado ontem, em um campo da distante Belo Horizonte, Brasil, o outrora respeitável English Team.”

Acabada a Copa do Mundo para os norte-americanos, eles correram fazer suas malas, pois precisavam estar de volta aos seus empregos na segunda-feira, e como a viagem levava 29 horas, saíram do Brasil em uma quinta-feira. Poucos anos depois Joe Gaetjens, autor do gol histórico, é morto no Haiti. A seleção norte-americana só voltaria a participar de uma Copa do Mundo em 1990, na Itália, não chegando nem perto de fazer algo parecido com a façanha de 1950. Mas o fantasma daquele distante 29 de junho continua vivo e assombrando favoritos pelos campos do mundo. E de vez em quando ele reaparece, mostrando quão irônico, apaixonante e imprevisível pode ser o futebol.