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De Lusa à Luísa, não existem acasos na Portuguesa

Pedro Henrique Brandão

Antes da pandemia da Covid-19 mudar o mundo que conhecemos e, por tabela, nos privar do futebol, num final de semana de fevereiro, a Portuguesa foi a campo para, mais uma vez, provar que resiste bravamente ou como dizem seus torcedores “time que tem torcida não morre”.

Na história quase centenária da Portuguesa nunca houve uma entrada em campo tão importante quanto a do domingo chuvoso de 16 de fevereiro de 2020. Ao menos para mim.

No estádio Dr. Osvaldo Teixeira Duarte, a Fabulosa pisou o tradicional gramado para mais uma inglória batalha pela Série A2 do Campeonato Paulista e entre as crianças que acompanhavam os jogadores, estava a pequena Luísa, de mãos dadas com o time para a execução do hino nacional.

A pequena Luísa. (Foto: Dorival Rosa / Portuguesa)

O adversário da tarde seria o Monte Azul. Homônimo da cidade onde fora fundado, o modesto time do interior paulista já viveu momentos melhores do que o atual, mas nunca chegou a assustar os times da capital. Longe do glamour de outras temporadas e a cada jogo mais pressionada em razão da ameaça de outro rebaixamento no estadual, a Portuguesa, há algum tempo, quando entra em campo joga pela própria existência e não seria diferente naquele dia.

Não é de se imaginar que num momento assim, alguém dedique uma tarde de domingo para assistir um time que em nada faz lembrar as glórias lusitanas de outrora. A Lusa que volta e meia aprontava com o Trio de Ferro e até com o Santos de Pelé, que disputou final de Brasileirão, ou aquela Barcelusa, que faturou a Série B e encantou as noites dos rubro-verdes em 2011, parece ter ficado no passado.

Ainda assim, há gente que vai ao Canindé religiosamente. Essa gente não vai pela vitória ou pelo gol. É gente que vai em busca de suas raízes, em busca de um amor que não se mede e nem se explica.

Torcer é sempre uma vocação. Torcer pela Portuguesa no atual momento é mais que isso, não é uma escolha, é ser escolhido.

Ser escolhido pela Lusa implica uma porção de responsabilidades. Uma delas, talvez a mais importante, é a missão de semear as novas gerações. É difícil afastar uma criança das tentações de torcer pelos outros times de São Paulo, que têm mais títulos, são mais ricos, têm estádios maiores e mais modernos e contam com muito mais exposição na mídia.

Luísa, porém, é filha de Armando, que se dedica ritualisticamente ao objetivo de legar ao mundo uma nova torcedora lusitana. Com apenas um aninho e meio, Luísa foi levada ao Canindé para o devido batismo. Correu, brincou, pulou, gritou — no colo do pai — junto àquela massa de marmanjos para empurrar a Portuguesa.

Foi na despedida de Zé Roberto, um “senhor jogador” que iniciou sua carreira nas categorias de base do clube e, coincidentemente, a primeira vez da Luísa no estádio aconteceu na última do Zé. As fotos daquela noite mostram uma ainda bebê — como será sempre para os que a amam — Lulu.

Muito antes daquela noite, no entanto, um esforço para fertilizar mais uma portuguesinha no mundo já havia sido feito. No dia 8 de julho de 2016, quando veio ao mundo, por escolha do pai, ganhou o nome de Luísa, que nada mais é que Lusa com um “í” no meio.

Não existem acasos na Lusa.

Quando Luísa entrou no gramado de mãos dadas com o camisa 11, não me interessou saber quem era o 11 da Portuguesa, quem era o adversário, o treinador ou o goleiro, não quis saber o esquema tático e nem quantos pontos a Lusa tinha na tabela. 

Só consegui me alegrar por presenciar o nascimento de uma nova torcedora e desejar que a Luísa vá ao estádio quantas vezes quiser, entre em campo com a Lusa quantas vezes puder, se divirta, pule, cante e ame a Portuguesa como o pai dela sonhou.

Que ela vá e grite o seu “tá dormindo?”, a cornetada que rapidamente aprendeu para chamar a atenção dos jogadores que parecem cochilar em campo e não conseguem fazer o que ela pouco entende, mas muito sente.

Que a Luísa, se quiser, seja presença carimbada no Canindé para guiar a Lusa pela mão e me conte nos áudios de whatsapp como foi legal entrar no gramado com o time e que “a moça deu um uniforme completo para ir de novo”, mas quero ouvi-la dizer que teve picolé e pipoca, afinal, para uma criança, é o que importa.

Luísa mostrou, do alto dos seus quase quatro aninhos, que não há idade para amar uma camisa. Mesmo debaixo de chuva, é preciso pegar o time do coração pela mão e levá-lo ao campo de jogo. Enquanto as “Luísas” insistirem na Lusa, ela vai sobreviver. É na força da nova geração que a Portuguesa vai derrubar todos os Golias que a atormentam e a levaram ao fundo do poço.

Gostaria que os pequenos torcedores pudessem ter visto a Portuguesa Fita Azul, a Lusa dos anos 1990 ou a fabulosa Barcelusa. Não gostaria que precisassem saber do que aconteceu em 2013, porém, tenho certeza que vieram no tempo certo. É a partir deles que a Lusa vai virar o jogo, vai sobreviver, resistir e renascer mais forte para um futuro de glórias.

Desejo, mas não sei se realmente será tudo assim. Sei, apenas, que a cena das crianças entre as poças de água e lama do surrado gramado do Canindé, conduzindo a combalida e resistente Portuguesa pela mão, me deu uma certeza: a Lusa nunca vai acabar!