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De Mariana a Brumadinho, de Brumadinho ao Ninho do Urubu

Georgino Jorge de Souza Neto, Ildenilson Meireles Barbosa, Mailton Oliveira

A tragédia ocorrida no Ninho do Urubu[1], o Centro de Treinamento do Clube de Regatas Flamengo, no último dia 8 de fevereiro de 2019, abre uma imensa ferida escamoteada pelos gestores dos grandes clubes de futebol no Brasil ao longo dos anos. Um acontecimento dessa proporção provoca inevitavelmente, para além de dor e tristeza, a necessidade de uma reflexão mais profunda sobre o real cenário do futebol de base no país. Além de outras coisas, as categorias de base sempre foram vistas pelos torcedores como a grande esperança de surgimento de uma revelação, um jogador extraordinário. Para os clubes, a grande chance de um negócio em altas cifras para o mercado europeu. Para empresários e agenciadores, uma oportunidade de ouro com custo-benefício de dar inveja a investidores de bolsas de valores.

Nossa vocação de “fábrica de jogadores” alimenta um mercado lucrativo para a mais significativa indústria do entretenimento. A imensa massa de garotos que sonha com a aludida ascensão social via futebol acaba se transformando em pé de obra barato para um espetáculo exageradamente rentável para clubes e empresários. São milhares de meninos que tentam, a cada ano, o ingresso nas categorias de base dos grandes clubes brasileiros. Expectativa de realização de um sonho que acaba, para a maioria expressiva, antes mesmo de começar. Como o sonho de muitos meninos e meninas interrompido pelo rompimento das barragens de Mariana e Brumadinho.

Estima-se que nas peneiras promovidas por estes clubes, apenas 0,03% alcançam a base (a partir do sub-14). Destes, somente 1% chegará ao profissional. O funil do futebol brasileiro é um verdadeiro tsunami, que engole impiedosamente o sonho daqueles que tentam chegar ao topo. Uma frustração ainda mais impactante, se considerarmos a origem social desfavorecida da maior parte destes garotos, cujas famílias projetaram algum sucesso financeiro a partir do êxito dos seus filhos. Em vários casos, um investimento sem retorno e um dinheiro gasto que fará falta à mesa das famílias pobres.

Outra questão a ser considerada é a falsa percepção de que o futebol representa um oásis financeiro para os jogadores. O senso comum absorve a ideia difundida na grande mídia, que reflete apenas a ponta do iceberg, aquele do estrito espaço do futebol espetacularizado que gira em torno de um grande craque entre 17 e 20 anos e que já se tornou milionário. Camufla-se, assim, o real panorama da distribuição extremamente desigual entre os proventos advindos desta profissão.

Os dados disponíveis pela CBF referentes ao ano de 2009 apontam que 84% dos jogadores, de todas as divisões do futebol profissional no Brasil, recebem salários até 1.000 reais; 13% recebem entre 1000 e 9000 reais e apenas 3% recebem acima de 9000 reais por mês. Ou seja, o futebol reflete (e redimensiona) a lógica de mercado presente na estrutura social vigente: muitos ganham pouco e poucos ganham muito.

CT George Helal, popularmente chamado de Ninho do Urubu. Foto: Reprodução/Facebook.

Neste contexto de enormes contradições, o futebol de base retroalimenta a dinâmica que sustenta a ponta. Quando se comparam as condições estruturais do futebol de base com a dos profissionais, a distância se mostra abissal. Há flagrantemente uma melhor qualidade (advinda de um investimento muito maior) destinada a uma minoria que ascendeu ao profissional. Alojamento, alimentação, recursos materiais, dentre outros, privilegiam os “eleitos”, em contraposição ao desleixo que muitos clubes promovem nas suas categorias de base.

Esse tipo de irresponsabilidade que aconteceu com os 10 meninos no Flamengo é somente a demonstração de que a maior preocupação dos clubes são os grandes negócios com a vida dos seus jogadores. Impressiona um clube como o Flamengo, que recentemente fechou contratações em valores inimagináveis na vida real, não tenha um mínimo de cuidado com a vida de adolescentes que estão sob sua tutela. A confiar nas várias matérias que pudemos acessar, está tudo muito errado. Um desastre dessa proporção no futebol, como foram os desastres de Mariana e Brumadinho, esconde certamente uma série de improbidades, irregularidades, vista grossa do poder público, dentre tantas outras irresponsabilidades em favor da mão de obra barata e do acúmulo de capital dos clubes e empresas.

Mas o Flamengo é somente o começo e a pequena demonstração das irregularidades mantidas pelos clubes brasileiros. Perder 10 jovens jogadores em preparação, quase um time inteiro, 10 famílias destruídas, e por quê? Porque um clube bilionário fez uma economia estúpida. A sensação de perda é estarrecedora. De Mariana a Brumadinho, de Brumadinho ao Ninho do Urubu, muitas vidas passíveis de luto. Vidas que importam.


[1] Um incêndio ocorrido nos contêineres que serviam de alojamento para os jogadores de base do Flamengo, que acarretou a morte de dez jogadores do clube com idade entre 14 e 16 anos.