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Deixem a Tifanny jogar!

Maurício Rodrigues Pinto

Uma vez que o gênero é uma estrutura de relações sociais, uma questão fundamental na transição é o reconhecimento social. (…) Transicionar abertamente é hoje uma prática corriqueira, muito embora não seja universal, e define mais claramente a questão como sendo de reconhecimento. Envolve uma questão bastante familiar na psicologia social, encontrar apoio social para a autoimagem. (…) O reconhecimento não é algo sempre fácil para as outras pessoas interessadas, por exemplo, a família imediata, e pode ser negado muitas vezes com raiva. (…) Transicionar abertamente significa colocar o sofrimento de uma pessoa para todo mundo ver. (CONNELL, 2016, p.217-218)

“Não se joga bem vôlei só porque se é uma trans. Conta sobretudo o talento, é preciso saber jogar. Minha essência é de mulher: eu mudei para mim, e o vôlei é meu trabalho”. (Tifanny Abreu, jogadora de vôlei).[1]

No dia 2 de fevereiro de 2018, na mesma semana em que se comemorava o Dia Nacional da Visibilidade Trans (celebrado no dia 29 de janeiro), embarquei em um trem rumo a Osasco, para assistir pela primeira vez um jogo da Superliga, principal campeonato interclubes de vôlei do país. A partida em questão reunia o time da casa, o Vôlei Nestlé/Osasco, enfrentando o Vôlei Bauru, que conta no seu elenco com a jogadora Tifanny Abreu, a primeira atleta brasileira transexual a atuar em uma modalidade esportiva de alto rendimento. Além de acompanhar a performance de Tifanny, interessava-me também tentar capturar a reação do público e das demais jogadoras diante da presença e atuação dela durante o jogo.

Esse texto não possui pretensões acadêmicas ou científicas, uma vez que não sou especialista em vôlei e tampouco nos debates que envolvem os critérios e parâmetros científicos que regulam a inclusão de atletas transexuais no esporte. Para leituras mais bem embasadas e que contemplem essas discussões, recomendo, entre outros, o artigo feito por Wagner Xavier Camargo, também publicado pelo Ludopédio[2]; o texto publicado por Nathana Garcez[3] , que apresenta dados e faz comparativos que mostram que o desempenho de Tifanny pode ser considerado compatível ao de jogadoras cisgêneras; e o texto de autoria da transfeminista Amara Moira, que, além de questionar pressupostos transfóbicos nos comentários feitos em relação à performance de Tifanny, também faz a provocação que orienta esse texto: “o que falta também, aliás, é uma análise honesta da atuação da Tifanny em quadra, algo que não é possível por quem acompanha o caso apenas por VTs dos melhores momentos, manchetes e matérias sensacionalistas ou, pior ainda, tuítes. O que viu quem foi ao estádio?”.[4]

Dessa forma, deixo claro que este se trata de um texto de opinião motivado pelo meu interesse de estudo nas questões de gênero/sexualidade e esporte, no qual gostaria de compartilhar algumas impressões sobre o que vi do jogo e, conforme o título do texto já indica, também me posiciono em relação à polêmica recente que tem envolvido o reconhecimento de Tifanny como uma atleta apta a jogar profissionalmente junto a jogadoras cisgêneras, expondo uma resistência à aceitação da participação de pessoas trans no esporte.

Como disse antes, não acompanho a fundo as competições de vôlei, e soube da realização da partida a partir de um evento criado no Facebook, que recebeu o nome de “Vem ver a Tifanny jogar”[5], idealizado por Amara Moira e divulgado pelo jornalista Neto Lucon, responsável pelo canal NLucon[6] –  que produz e divulga notícias e conteúdos relacionados à comunidade LGBT. Além de ter chamado a minha atenção para a oportunidade de ver Tifanny in loco, o evento mobilizou um grupo de cerca de 20 pessoas trans e cisgêneras a irem ao ginásio em Osasco para prestigiar e torcer por Tifanny, que levou bandeiras do movimento trans (listrada nas cores azul, rosa e branco) e cartazes em apoio à Tifanny, que diziam “Tem Trans na Arquibancada”, “Mas também tem na quadra” , deixando claro, naquele momento, que a representatividade transexual se fazia presente não só na quadra, mas também nas arquibancadas do José Liberatti

O meu primeiro impacto ao chegar ao ginásio, pouco antes do início da partida, foi muito positivo. Uma grande fila indicava que o ginásio estaria lotado para acompanhar um jogo de fase classificatória do campeonato. O time de Osasco (em que pese as muitas mudanças de patrocinadores e nomes) é historicamente uma das principais equipes do país – cinco vezes campeã da Superliga e uma vez campeã mundial interclubes, em 2014 –, disputando a supremacia no vôlei feminino com o time do Rio de Janeiro, atualmente Sesc RJ Vôlei Feminino.

Apesar do meu incômodo com a figura do animador de torcida (que com um alto falante em volume máximo, puxou gritos e cantos de apoio ao time da casa durante toda a partida), foi muito legal ver a atmosfera que o público cria durante o jogo para apoiar o time local. Claro, essa participação da torcida envolve vaias e provocações ao time adversário, o Vôlei Bauru, assim como comemorações diante dos erros cometidos pelas jogadoras do time adversário. Mas vale destacar que, em geral, tais manifestações se dão de forma respeitável (falo isso dentro dos limites em que pude acompanhar, sobretudo por parte do grupo de torcedores e torcedoras que estavam no meu entorno, na arquibancada).

O grupo que foi apoiar Tifanny, que recebeu o nome de “caravana trans”, curiosamente ficou na área reservada à torcida do time visitante (que só chegou ao ginásio e ocupou o setor reservado a ela quando o jogo já se encaminhava para o quarto set). O grupo não fez feio ao entoar gritos de guerra para apoiar a equipe de Bauru, em alguns momentos chegando a preencher momentos de silêncio da torcida local. Por outro lado, de onde estava pude também perceber da parte de alguns torcedores e torcedoras do time de Osasco demonstrações de respeito e apoio a Tifanny. Não foi raro ver empolgados torcedores e torcedoras do Osasco comemorarem os ataques e bloqueios dela que resultaram em pontos contra o time da casa.

Óbvio que não é possível considerar apenas um jogo como uma amostra significativa, mas a postura do público presente no ginásio revelou ser de muito maior aceitação e respeito à presença da atleta do que a que vem sendo demonstrada por atletas, dirigentes e, principalmente, por setores da mídia esportiva especializada, que têm dado espaço a muitos questionamentos a possíveis “vantagens biológicas” da jogadora, que lhe confeririam uma força e potência superiores às das demais jogadoras cisgêneras, além de enfatizar o fato de Tifanny ter se tornado a jogadora com a maior média de pontos do campeonato, como se esse fosse o único aspecto relevante na análise do desempenho de uma jogadora –, “inventando”, assim, uma rivalidade com a principal atacante do time de Osasco, a também oposta Tandara.

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Tifanny. Foto: Divulgação/Vôlei Bauru.

Em um determinado momento do jogo, conversei com uma mulher que estava sentada ao meu lado e carregava uma bandeira do movimento transexual. Perguntei se ela tinha vindo especificamente para prestigiar a Tifanny e ela, uma representante do movimento transexual de Osasco, declarou-se torcedora e frequentadora dos jogos da equipe de vôlei da cidade. Apesar da torcida pelo time local, ela disse que fazia questão de estar no ginásio também para demonstrar o seu apoio a Tifanny. Ela também se disse impressionada com a lotação do ginásio, algo que, segundo ela, só é visto em jogos de fases decisivas de campeonatos, mais um possível indicativo de que a presença de Tifanny no jogo contribuiu para elevar o interesse do público pelo jogo.

Apesar da vitória do Osasco apenas no set de desempate (parciais de 25/19, 25/20, 18/25, 19/25 e 15/10), a partida foi marcada pelas oscilações demonstradas pelas duas equipes. Nos dois primeiros sets, Tifanny apresentou uma atuação mais errática e viu o seu time ser derrotado até com certa facilidade. Já no terceiro e no quarto sets, o volume do jogo de Tifanny cresceu, mostrando maior eficiência no ataque, e a equipe de Bauru aproveitou-se também da instabilidade e dos muitos erros cometidos pelo time de Osasco. No tie-break, ficou evidente a superioridade técnica do time da casa, que fez valer o fato de contar com jogadoras de maior renome e experiência, inclusive integrantes do elenco da seleção brasileira. Tifanny e Tandara foram as maiores pontuadoras do jogo, com 31 pontos cada uma.

Se nas arquibancadas foi possível perceber uma atmosfera de respeito e apoio a Tifanny, algumas entrevistas pós-jogo acabaram expondo a resistência ao fato de uma jogadora transexual também poder fazer parte de um esporte junto a atletas cisgêneras. A já citada Tandara, ao ser questionada sobre o que pensava a respeito de Tifanny e da chancela dada tanto pelo COI (Comitê Olímpico Internacional) como pela FIVB (Federação Internacional de Vôlei) para que ela pudesse atuar em competições oficiais, declarou de forma enfática que não concordava com a participação de Tifanny na Superliga. Evocando um discurso “científico”, ao fazer referência à fisiologia, Tandara disse: “Durante muito tempo, a puberdade inteira, ela se desenvolveu como sexo masculino. Não é o fato de tirar espaço de quem está chegando, é muito delicado isso. Não é homofobia o que estou falando. É fisiologia. Querendo ou não, ela tem vantagem”[7]. Apesar de dizer que respeitava Tifanny e a sua trajetória de vida, Tandara, em resposta a uma das perguntas feitas a ela, afirmou que a jogadora do time de Bauru “segurava o braço” em alguns ataques, comentário que dá também a entender que Tifanny finge, engana ser uma mulher jogando vôlei, e, que por extensão, nega tanto a sua condição de jogadora, como a de mulher.

Tal pensamento externado por Tandara, que reflete os discursos de outras pessoas ligadas à modalidade (destacando as declarações dadas e amplamente repercutidas pela mídia da ex-jogadora de vôlei Ana Paula Henkel), assim como os de canais da mídia especializada, além de colocar em xeque o direito obtido por Tifanny para ser uma jogadora de vôlei apta a disputar competições esportivas de alto rendimento, também questionam a legitimidade de todo o processo de transição feito por Tifanny para se reconhecer (e ser também reconhecida) como mulher.

Diante de tantos argumentos e estudos que tem questionado e se contraposto atal pensamento, trago algumas reflexões feitas pela antropóloga transexual australiana, Raewyn Connell, em relação aos procedimentos médicos que envolvem a transição feita por pessoas trans, nos quais a autora relata detalhes desse processo que envolve muitos traumas físicos e emocionais. Dentre eles, a resistência e os questionamentos colocados pela sociedade às pessoas trans, evidenciando também a necessidade de se pensar para além de pressupostos baseados no binarismo e na cisgeneridade:

“A medicina transexual ainda é de forma substancial o conjunto desenvolvido nos anos 1950-1960 (Tugnet et al., 2007), embora com aperfeiçoamentos e maior variedade nas partes do conjunto que as mulheres transexuais adotam. A transição medicamente assistida é um negócio lento. Seus efeitos são limitados: não há mudanças genéticas, não há mudanças ósseas, não há capacidade de gestação. Partes desse procedimento são muito dolorosas (eletrólise, cirurgias de todos os tipos). Outras partes têm um amplo impacto no corpo (antiandrogênicos, estrogênios, cirurgia genital) e ainda outras têm um efeito local (eletrólise, raspagem de traqueia, treinamento vocal). O processo é inevitavelmente traumático, conforme demonstrado na excelente narrativa de Griggs (1996). Nenhum corpo fica fisicamente mais saudável por meio dela, e há efeitos traumáticos, em longo prazo, tais como a osteoporose. (CONNELL, 2016, p. 243 – grifos meus)”.

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Tandara (a jogadora de Osasco teve 56% de eficiência no ataque contra 54% de Tifanny). Foto: Zorro2212/Wikipédia.

Por mais que Tandara se posicione usando também da sua autoridade como jogadora, a minha percepção da arquibancada – e creio que compartilhada por muitas pessoas presentes no ginásio – foi a de que o desempenho de Tifanny pode ser considerado normal para uma jogadora que atua na posição de oposta, atacante que tem a responsabilidade de ser a bola de segurança e desafogo da sua equipe, visivelmente mais limitada tecnicamente que uma equipe como a de Osasco. Ainda que tenha sido a maior pontuadora do jogo, o seu nível de eficiência foi inferior ao da própria Tandara (a jogadora de Osasco teve 56% de eficiência no ataque contra 54% de Tifanny)[8], e no seu repertório de jogadas, além de cortadas potentes, também fizeram parte largadas, saques flutuantes, recepções e defesas de ataques do time adversário, assim como erros de passe, ataques bloqueados ou que nem chegaram a passar a rede. O público que acompanhou o jogo percebeu isso e reconheceu Tifanny como mais uma jogadora, ainda que tenha uma posição de destaque no seu time. Aliás, pergunto se Tifanny –  ou qualquer outra mulher trans – não fosse tão boa no que faz, não tivesse atuações de destaque, será que ela teria chance de figurar em algum elenco de time que disputa a Superliga?

Então, atletas, dirigentes, mídia, comunidade esportiva e pessoas que opinam com base no achômetro (transfóbico), faço um singelo apelo: apenas parem e deixem a Tifanny jogar!  Deixem-na atacar, cravar, dar e receber medalha, bloquear e ser bloqueada, ser aplaudida e vaiada, ganhar ou perder… Mas simplesmente, deixem a Tifanny jogar! E diante que presenciei no Ginásio José Liberatti, em Osasco, ainda que existam resistências e questionamentos à sua presença, não tenho dúvidas também de que apoio e torcida para ela também não vão faltar.

Referências
CONNELL, Raewyn. “Mulheres transexuais e o pensamento feminista”. In CONNELL, Raewyn. Gênero em termos reais. São Paulo: nVersos, 2016.

CONNELL, Raewyn. “Excepcionalmente sãs: Psiquiatria e mulheres transexuais”. In CONNELL, Raewyn. Gênero em termos reais. São Paulo: nVersos, 2016.

Notas
[1] Frase extraída da reportagem “A polêmica envolvendo Tifanny, primeira mulher trans do vôlei brasileiro”, de 23/01/2018. Disponível em < https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/01/23/A-pol%C3%AAmica-envolvendo-Tifanny-primeira-mulher-trans-do-v%C3%B4lei-brasileiro>. Acesso em 07/02/2018.

[2] CAMARGO, Wagner Xavier. “A era dos invisíveis no esporte”, de 24/12/2017. Disponível em: < https://www.ludopedio.com.br/arquibancada/era-dos-invisiveis-no-esporte/ >. Acesso em 05/02/2018.

[3] GARCEZ, Nathana. “Machismo, transfobia e desinformação: Por que devemos repensar as críticas à inclusão da jogadora Tiffany na Superliga”, de 02/01/2018. Disponível em: < https://medium.com/@nathgarcez/por-que-devemos-apoiar-a-inclus%C3%A3o-de-tiffany-na-superliga-635d76c8d1ae >. Acesso em 05/02/2018.

[4] MOIRA, Amara. “Amara Moira: Não é homofobia, é fisiologia”, de 05/02/2018. Disponível em: <http://midianinja.org/amaramoira/amara-moira-nao-e-homofobia-e-fisiologia/ >. Acesso em 06/02/2018.

[5] O link para acesso ao evento criado no site de rede social Facebook: <https://www.facebook.com/events/403961236712362/ >.

[6] O endereço do canal de notícias NLucon é: < http://www.nlucon.com/ >.

[7] Extraída da reportagem “Tandara diz que Tifanny “segura braço” e discorda de presença na Superliga”, de 02/02/2018. Disponível em: < https://esporte.uol.com.br/volei/ultimas-noticias/2018/02/02/tandara-diz-que-tifanny-segura-braco-e-discorda-de-presenca-na-superliga.htm >. Acesso em 03/02/2018.

[8] Dados obtidos na matéria “Tandara diz que Tifanny “segura braço” e discorda de presença na Superliga”, de 02/02/2018. Disponível em: < https://esporte.uol.com.br/volei/ultimas-noticias/2018/02/02/tandara-diz-que-tifanny-segura-braco-e-discorda-de-presenca-na-superliga.htm >. Acesso em 03/02/2018.