130.22

Déjà vu da bola ou o fim do futebol idealizado nas memórias da pandemia

Chico Brinati

Jogo arrastado. Zico corta para a esquerda, entra na área cercado pelo soviético, chuta torto, mal, pela linha de fundo, tiro de meta. Segue 1 a 0 para a URSS. Nos rastros do que me contaram ou do que li sobre 1982, era impossível tal lance. Afinal, a seleção seria brilhante, encantadora, perderia apenas num acaso “paolorrossiano” no Sarriá. Essa memória idealizada era contada e replicada sempre que o assunto “futebol brasileiro” era debatido em mesas redondas e/ou de bar. Só não contava que, com isolamento imposto pela pandemia que assola nossos mundos e mentes, fôssemos colocados diante dos nossos passados. Os futebolísticos, inclusive. 

Zico em ação na Copa de 1982. Foto: Divulgação.

Com a suspensão dos campeonatos de futebol, os canais esportivos passaram a reprisar grandes momentos do esporte. Sentamos dias e dias diante da televisão para ver partidas históricas, copas que achávamos não esquecidas. Digo achávamos porque redescobrimos Kahn e Kléberson de 2002, por exemplo. São muitos jogos. Muitas histórias. Na íntegra, nada de melhores momentos de Youtube. Um sucesso de audiência. Essa restauração completa de um passado, agora rememorado, vai nos apontar um lugar dentro da história esportiva. Estamos formando uma geração de comentaristas que vão assistir todos os possíveis esquadrões das mais variadas épocas. Se discute pelas redes sociais a transição da defesa para o ataque de um Felipão antes do 7 a 1. O estilo Guardiola em Telê Santana. “Ah, o Romário perdeu um gol que o Gabigol faria”. “Pelé era craque mesmo, mas prefiro Messi”.

Em um loop que dá munição ao conhecimento, mas ao mesmo tempo destrói a idealização de times, seleções, craques, partidas… Já não podemos lançar mão das imprecisões que o tempo nos traz. Navegar por esquecimentos. Impossível diante de verdades resgatadas e instauradas. Talvez sejam as partidas de futebol o ápice da memória afetiva coletiva dos torcedores. Durante décadas, a narrativa da imprensa foi a responsável pela manutenção destas “verdades” futebolísticas e transmissão destas culturas que mantinham o status quo das falas de variados comentaristas esportivos. 

Em particular, os detalhes de alguns destes jogos já estavam em raspas e restos de uma memória que era refúgio afetivo de um “eu” já esquecido. Mas sempre me interessavam. Um dos passatempos preferidos era buscar “de cabeça”, sem “googada”, escalar o Grêmio de 1995. A graça era perder segundos em busca de um Arílson apagado dos meus arquivos.

O Kléberson da final de 2002 redescoberto na quarentena de 2020.

Não nos será permitido o esquecimento. Pelo menos, por agora. O encanto do não visto, o imaginário sutil e leve contado antes em vozes de rádio ou em tubos de TV, ficou agora represado numa tela de plasma, gravado e atualizado em conceitos táticos e técnicos de hoje. Saberemos tudo de todos os jogos mais importantes da História.

Confesso que, em certos momentos, me emociono. Não com o mesmo sentimento de quando assisti o jogo lá atrás. Algo diferente. Ao ver novamente Ronaldo marcar o segundo gol diante da Alemanha, ouvi um grito vizinho, abri a janela. A rua estava vazia, como naquela manhã de domingo de 2002. Fiquei alguns minutos olhando para o nada ouvindo o infinito rasgar do “R” narrado por Galvão Bueno. Ali, fiz algo que não tinha feito há 18 anos. Chorei. Talvez pela nostalgia. Não só de um futebol brasileiro que não existe mais, mas de um mundo que por mais que a gente busque lembrar, vai ficar no passado. Pelo menos da forma como o conhecemos. Que seja, então, uma mudança para melhor.

Como citar

BRINATI, Chico. Déjà vu da bola ou o fim do futebol idealizado nas memórias da pandemia. Ludopédio, São Paulo, v. 130, n. 22, 2020.