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Derrotas do Vasco da Gama, vitórias que esqueci

Alexandre Fernandez Vaz

Para os amigos vascaínos, Antônio Jorge, Felipe, Carlos Alberto.

Diz-se que Pelé, na infância, era vascaíno. Um ano antes de ser campeão do mundo pela primeira vez, na Suécia em 1958, chegou a vestir a camisa do Clube de Regatas Vasco da Gama, ao disputar, representando um combinado do clube e com sua agremiação, o Santos, em um torneio amistoso. Décadas depois, e já tendo encerrado a carreira de jogador de futebol profissional, envergaria a do grande rival, o Flamengo, em jogo contra o Atlético Mineiro. A partida disputada no Maracanã em 1979, com Zico vestindo a 9 (a de número 10 sempre terá um dono), teve a renda destinada aos desabrigados de uma enchente em Minas Gerais.

Todo o carinho do Rei pelo cruzmaltino não foi suficiente para que o time não entrasse para sua história como aquele que tomou o seu milésimo gol. Era raro Pelé perder um pênalti, e não foi naquela noite em 1969 que isso aconteceria. O bom goleiro argentino Andrada saltou para o lado certo, mas a bola entrou rente à trave esquerda. Ainda criança vi a revi a cena muitas vezes, sempre muito impressionado com o fato de que Pelé fora carregado em triunfo campo afora, com dezenas de jornalistas e radialistas ao redor. Parar uma partida por causa de um milésimo é só mesmo para quem, com sua presença, suspendera uma guerra na África.

Eram notórias as rusgas do craque dos craques com os zagueiros do Vasco no final dos anos sessenta e no início da década seguinte. Brito, mas, principalmente, Fontana, ambos do elenco verde-amarelo tricampeão no México, o primeiro como titular, nunca tiveram vida fácil contra o Santos, e as provocações que, conta-se, faziam a Pelé, sempre tiveram efeito contrário ao pretendido. Talvez venha daí a minha simpatia pelo Vasco, já que o santista foi um terrível algoz de meu time de coração, o Corinthians. Foram onze anos sem vencer o time da Baixada, de 1957 a 1968, com cinquenta e dois gols do Gênio, em cinquenta contendas entre as equipes. A maldição só foi quebrada por um dois a zero com gols de Flávio – que agregaria Minuano ao nome, quando foi artilheiro pelo Inter, porque era forte como o vento sul –, e do então estreante Paulo Borges, recém contratado do Bangu.

Torcedor do Vasco e sua paixão pelo clube. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

Minhas recordações podem ser por demais seletivas – a memória costuma ser injusta –, mas o fato é que para mim o Vasco sempre foi, como o Corinthians durante tantos anos, um time perdedor. Venceu a Taça Guanabara de 1977, uma das recordações mais presentes que tenho, com Mazarópi defendendo pênalti cobrado por Tita, mas foi derrotado no estadual de 1978 pelo Flamengo, que iniciava a fase de tantas glórias. Além disso, classificou-se a duras penas para a Série A, quando de sua última participação na segunda divisão brasileira. Sim, houve a vitória na Copa Mercosul contra o Palmeiras e a da Copa João Havelange, ambas em 2000, derrotando o surpreendente São Caetano. Juninho Pernambucano, Pedrinho, Felipe, Romário e Edmundo, craques dirigidos por Oswaldo de Oliveira, demitido pelo lamentável Eurico Miranda porque abraçara Luiz Felipe Scolari antes de uma partida contra o Cruzeiro, e pelo simpático Joel Santana. Ambos competentes. Houve ainda o Brasileiro de 1997, quando Edmundo foi o melhor jogador da temporada, possivelmente no mundo todo, a Libertadores no ano seguinte. Eu não morava no Brasil, não vivi isso de perto.

Para mim, portanto, o Vasco foi o de Abel (e Renê) sendo superados por Rondinelli no gol de 1978, o de Alcir tomando um desmoralizante elástico de Roberto Rivelino, do Fluminense, não o do estilista Mauro Galvão. Todos bons zagueiros, técnicos, ainda que nem sempre afáveis com os adversários. Como Moisés, que também atuou no Corinthians, onde foi campeão em 1977, e que se orgulhava de não receber o Troféu Belfort Duarte, então destinado aos atletas não sancionados com cartões ao longo de dez anos. E como Orlando, que antes jogara, no próprio Vasco, na lateral-direita, posição em que se destacara também no Santos. A boa técnica que o fez jogar na seleção brasileira não era empecilho para ser um jogador que às vezes apelava para a violência. Lembro-me de um ponteiro-esquerdo do Fluminense, Zezé, que dizia que o defensor vascaíno já dava uma entrada dura já no início do jogo, como que para repelir a insolência dos atacantes dribladores.

Mas o Vasco, para mim, foi também o de Roberto Dinamite fazendo sombra a Zico nos anos 1970 e 1980, e na década seguinte jogando de ponta-de-lança para dar as assistências a Romário, em plena juventude dos arranques imparáveis. Mas como poucos títulos, menos do que ele merecia, com destaque para o brasileiro de 1974, torneio que, em minha pouca idade, quase não acompanhei.

O Mundial não veio em 2000 contra o Corinthians, mesmo com Romário e Edmundo no ataque, tampouco dois anos antes, no Torneio Intercontinental, na derrota frente ao Real Madrid. Mas, o Vasco não precisa deles para ser grande, querido, um clube de imigrantes que construíram seu estádio, arena cuja nobreza é indiscutível, apesar de já ter sido comparado com uma praça de touros por um goleiro da seleção da Espanha que lá treinava. Arcaico, antigo, anacrônico, velho, não importa. São Januário é um orgulho para os vascaínos. É lá que amanhã o time recebe o Palmeiras, contra o qual a derrota deve vir, fazendo com que a definição da permanência na Série A fique para a última rodada. Não faz mal. Já não temos o Expresso da Vitória das décadas de quarenta e cinquenta, mas uma equipe tentando não descender. Minha memória me traiu, são muitas as conquistas que vi do Vasco. Tem minha simpatia esse time.

Ilha de Santa Catarina, novembro de 2018.