128.13

Desacordos

Marco Sirangelo

Político de carreira, Walter Feldman tornou-se assessor de Marco Polo Del Nero na Federação Paulista em 2014 e seguiu com ele para a CBF em 2015. Desde então ocupa o cargo de secretário-geral no mais alto escalão gerencial do futebol brasileiro.

Completados dois anos de uma entrevista marcante concedida pelo cartola para a ESPN Brasil, podemos voltar ao ótimo questionamento realizado pelo jornalista Leonardo Bertozzi sobre o motivo da CBF ainda ser responsável pela organização do Campeonato Brasileiro, mesmo com o torneio sendo deficitário há anos – fato pouquíssimo divulgado. Feldman abusou da retórica para fugir desse e de outros assuntos em questão e deixou o programa de rompante logo após discursar sobre o caráter ideológico do canal no trato com a Confederação.

Pouco depois, em setembro de 2019, o secretário discursou sobre a necessidade de ampliação da capacidade de exportação dos direitos de transmissão do futebol brasileiro, uma vez que é inaceitável que os grandes clubes do país não sejam reconhecidos no exterior. De acordo com Feldman, a CBF tem hoje capacidade de inovação, tecnologia e de formatação de conteúdo pra vender esse produto e trazer para os nossos clubes não apenas o reconhecimento internacional, mas também os recursos financeiros decorrentes destes acordos.

Walter Feldman, secretário-geral da CBF em 2019. Foto: CBF.

Como sempre ocorre quando o assunto é a Confederação Brasileira de Futebol, a realidade é diferente dos discursos de seus dirigentes e a atual situação dos direitos internacionais do Campeonato Brasileiro permanece uma incógnita. De acordo com notícias do portal Máquina do Esporte, em maio de 2018 a CBF negociou essa propriedade com a desconhecida empresa BR News Media, vencedora de uma licitação que envolveu agências conhecidas como Lagardère e IMG. O acordo, que também contemplaria os direitos de exploração de placas de publicidade, foi rompido em janeiro de 2019 por conta de problemas financeiros envolvendo a empresa.

Após nova licitação, a agência SportPromotion garantiu o contrato com a CBF. Três meses depois este novo acordo também foi rompido graças a “alterações substanciais na minuta que havia sido anteriormente aceita, relativas a questões comerciais, jurídicas e técnicas”, conforme apontou uma nota da entidade. Dessa forma, o último Brasileirão não gerou um centavo referente aos direitos internacionais de transmissão. Desde então a última vez que a CBF falou algo sobre o assunto foi através do discurso vago de Feldman. Restam menos de três meses para o início da edição 2020 do torneio e, por enquanto, sua transmissão para outros países segue inexistente.

Não há informações sobre a última empresa vencedora de uma licitação da CBF.

Por mais que o apelo internacional gerado pelo Brasileirão não se compare com o das grandes ligas europeias, é surreal que o torneio não possa ser transmitido para fora do país por decisão exclusiva da CBF. A Argentina, por exemplo, já iniciou seu processo de renovação para a venda desses direitos para a próxima temporada (2020-21). Atualmente cotados em US$ 6 milhões anuais, a Superliga espera chegar em valores próximos a US$15 milhões, e empresas como a ESPN e a Mediapro estudam formalizar uma proposta, de acordo com o SportBusiness.

O processo de internacionalização do futebol brasileiro não é algo que vai ocorrer facilmente. A concorrência com outras ligas, outros esportes e, principalmente, outros meios de entretenimento é cada vez mais elevada. Mas isso também não é motivo para uma política de total ostracismo. Além disso, são cerca de 2 milhões de brasileiros que moram fora do Brasil, número em franca ascensão de acordo com a Forbes, e a principal alternativa para que eles possam acompanhar seu time do exterior é através da pirataria.   

Os clubes brasileiros precisam entender que a falta de competência da CBF para planejar um processo de licitação com antecedência e, também, para escolher uma empresa com competência e credibilidade para assumir essa importante propriedade está fazendo com que eles deixem de faturar. Além disso, menos exposição é gerada direta e indiretamente para o futebol nacional e os clubes permanecem escondidos mundo afora.

Isso tudo faz ainda menos sentido quando a CBF afirma publicamente que o Brasileirão é deficitário. Como organizadora do torneio, a entidade deveria se preocupar mais em criar outras formas de receita e em aumentar a exposição daquele que deveria ser seu principal produto. Mas a falta de transparência e a adoção de caminhos inversos são tão previsíveis quanto os discursos de seus cartolas/políticos.

Como citar

SIRANGELO, Marco. Desacordos. Ludopédio, São Paulo, v. 128, n. 13, 2020.