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Um grande vazio de ideias: o desempenho do Palmeiras a partir das fases e princípios operacionais do esporte coletivo

Gustavo Dal'Bó Pelegrini

Acho que já não há muito o que comentar sobre os bastidores de Palmeiras x Flamengo, o “Jogo da vergonha”. Escancarando mais uma vez que o futebol não devia ter voltado no Brasil, a ridícula guerra de liminares e declarações foi mais um capítulo da total indiferença quanto a saúde das pessoas dentro e fora do jogo, culminando num constrangedor minuto de silêncio pelas vítimas da Covid antes da bola rolar. Mas por fim, houve um jogo, com mais uma demonstração do trabalho frágil de Vanderlei Luxemburgo em seu retorno ao Palestra.

O treinador palmeirense adota como mantra o discurso de que o futebol não mudou. Luxa não perde a oportunidade de se vangloriar dos trabalhos feitos ainda na década de 1990, falando que ele já fazia lá atrás o que aplaudimos hoje. Os resultados obtidos por ele, porém, já não são os mesmos, e muito menos o desempenho. Seus times não encantam como antes, e a qualidade de jogo do Palmeiras é a maior prova disso.

Mas nesse momento, apenas dizer que seu trabalho não é bom seria muito simplista. Sinceramente, não acho que Luxemburgo acredite realmente que o futebol não é mais o mesmo. Pelo contrário, eu consigo enxergar algumas coisas consideradas modernas que o treinador tenta implementar na equipe. A saída de bola pelo chão e utilização dos goleiros com os pés são exemplos, assim como a pressão na marcação ainda no campo de ataque.

O técnico Vanderlei Luxemburgo do Palmeiras. Foto: Cesar Greco.

Por isso vou tentar destrinchar um pouco mais o desempenho geral palmeirense a partir de uma referência teórica, que são as fases e princípios operacionais dos esportes coletivos. São elas: 1) fase de ataque, quando o time tem a bola (princípios de manutenção de posse de bola, progressão ao alvo e finalização); 2) fase de defesa, quando o time não tem a bola (princípios de recuperação da posse da bola, bloqueio da progressão e bloqueio da finalização); 3) fase de transição defensiva, que é o momento em que a equipe perde a bola e se prepara para defender; e 4) fase de transição ofensiva, que é o momento no qual a equipe recupera a bola e se prepara para o ataque (BAYER, 1994). Espero assim criticar de forma mais precisa os pontos que fazem com que o trabalho do treinador palmeirense não mereça muitos elogios apesar do título paulista e dos bons resultados até aqui na Libertadores.

Começarei pelo ataque. Com 43 gols em 31 jogos no ano (1,38 de média), o ataque palmeirense não tem muito do que se orgulhar. Vemos uma dificuldade muito grande na criação e uma verdadeira carência de ideias em todos os seus momentos. O time troca passes de forma lenta e pouco intensa, com jogadores muito distantes entre si, principalmente os defensores e meio-campistas. A equipe não tem grande dificuldade em manter a posse de bola, mas trata-se de uma posse estéril, normalmente ainda no campo de defesa, onde os zagueiros trocam passes sem conseguir progredir no campo e furar as linhas adversárias. Quando acaba a paciência, o goleiro ou os zagueiros buscam o lançamento longo, que normalmente acaba em perda da bola.

Quando ainda assim conseguimos quebrar uma primeira linha de marcação e avançar no campo, temos um outro grande problema: a concentração de jogo por um mesmo lado, que se dá por dois motivos. Primeiramente, nosso time é desbalanceado. Luxa tem colocado Lucas Lima ou Raphael Veiga fechando uma linha de meio campo pela direita sem a bola, mas no ataque esses jogadores flutuam buscando a região central. Ao mesmo tempo, tem escolhido sempre um atacante de velocidade (Verón, Wesley ou Rony) junto de um centroavante mais fixo (Luiz Adriano ou Willian). Como o atacante de velocidade tem atuado do lado esquerdo, quando Lima ou Veiga buscam o centro, o lado direito fica totalmente despovoado.

O segundo ponto é até uma consequência do anterior. Com a falta de um jogador mais ofensivo pela direita, o Palmeiras não consegue mudar o lado do ataque, que se dá quase sempre totalmente pela esquerda. Os jogadores do meio campo podem até receber a bola e olhar para o outro lado, mas ao ver apenas o lateral Marcos Rocha, acabam sem opção e jogam de novo para o lado esquerdo. A falta de circulação de bola faz com que a defesa adversária se concentre ainda mais e negue espaços. O jogo é previsível.

As dificuldades de criação se refletem nos números. O Palmeiras é o 10º time no Brasileirão em finalizações, e apenas o 14º em finalizações corretas. Essa diferença entre as finalizações e as finalizações corretas mostram como a equipe sofre para criar chances claras. Outra estatística que demonstra a dificuldade de criação é a de jogadores com mais finalizações na competição. O palmeirense melhor classificado é o volante Gabriel Menino, com 18 finalizações em 11 jogos e o 24° jogador na estatística do campeonato, enquanto Luiz Adriano, centroavante titular, tem apenas 11 finalizações em 10 jogos(*). O time, portanto, tem dificuldade na progressão em direção ao alvo, fazendo com que as finalizações sejam poucas e ruins no geral.

Luiz Adriano em ação. Foto: Cesar Greco/Palmeiras.

Na defesa, os problemas continuam. Mesmo sendo a segunda melhor defesa do campeonato brasileiro, com 10 gols sofridos em 11 jogos, existe uma estatística que muito preocupa: apenas em duas partidas nossa meta não foi vazada. Esse número se mostra muito problemático quando lembramos nossa dificuldade em marcar gols, e o resultado disso são 7 empates em 11 partidas. Invicto, mas com quase o dobro de empates em relação a vitórias.

Vamos tentar olhar como atua o sistema defensivo. Quase todo jogo a equipe ensaia uma pressão sem a bola no campo de ataque, ou pelo menos uma marcação em linha alta. O time, porém, defende de forma passiva e espaçada, mais cercando do que buscando realmente reaver a bola. Dentro disso, duas situações são comuns: vemos sempre o centroavante correndo sozinho entre os zagueiros que, com o apoio do goleiro, saem jogando tranquilamente, e vemos também a equipe adversária conseguindo trocar passes, sair da pressão meia boca palmeirense e avançar por longos espaços vazios, enquanto nossa linha de defesa corre pra trás. Não atoa Felipe Melo toma cartão por parar jogadas do tipo quase todo jogo: lento e exposto, é presa fácil.

Quando uma equipe se dispõe a marcar o adversário já no campo de ataque, ela precisa avançar bastante seus meias para combater a saída de bola. Isso gera um “despovoamento” à frente da defesa, o que por si só não é um problema. Com a equipe pressionando, o adversário é obrigado a buscar lançamentos longos ou apenas se livrar da bola, o que é uma grande vantagem da defesa. Entretanto, se a equipe não pressiona de forma intensa, esse espaço à frente da defesa é facilmente explorado e a linha defensiva fica exposta. Contra o Flamengo, esse foi um problema bastante recorrente. A dificuldade na fase defensiva se dá principalmente ao tentar impedir a progressão da equipe adversária.

As transições também têm seus problemas. Na ofensiva, desde que perdemos Dudu, não conseguimos mais atacar em velocidade logo que retomamos a bola. Assim que a recuperamos, quase sempre nossos jogadores se veem sem opções de passe a frente e precisando recuar a bola, facilitando a volta defensiva adversária.

Já na transição defensiva, a falta de proximidade entre os nossos atletas enquanto atacamos gera um grande problema quando perdemos a bola: faltam jogadores próximos a ela para pressionar e buscar sua retomada. Sem pressão na bola, sofremos o contra-ataque.

Nada do que falo aqui, porém, é a reinvenção da roda, muito longe disso. São coisas simples, feitas já há muito tempo, talvez até nos anos de glória de Luxemburgo. O que realmente mudou no jogo daqueles tempos para agora é a intensidade das ações, e é isso que Luxa parece não entender ou não conseguir realizar. Não adianta sair jogando pelo chão sem intensidade no passe. Não adianta marcar alto sem intensidade na marcação. Não adianta atacar com vários jogadores sem intensidade para brigar pela bola quando a perder.

Nas entrevistas pós jogo, o treinador quase sempre resume sua responsabilidade em “dar oportunidade” para os jogadores que vêm bem. Mas é necessário mais do que isso. A função do treinador é muito maior do que entregar os coletes para seus atletas. O treino é a simulação das situações de jogo, e é impossível apresentar em jogo algo diferente do que se apresenta nos treinos. Dificilmente acharemos muitos elencos melhores que o do Palmeiras no Brasil, e acredito que apenas o do Flamengo se compare em capacidade técnica. O treinador do Palmeiras tem que ser cobrado para além dos resultados. Não se trata de jogar bonito, e sim, de jogar bem.

Após o empate em 0 a 0 contra o Guarani-PAR pela Libertadores na última quarta-feira (23), Luxemburgo disse que não entendia tanta cobrança já que o time tinha bons resultados. Acontece que o futebol é cíclico, todo time oscila e uma hora o Palmeiras vai perder. Felipão e Mano Menezes também eram treinadores “de resultado” e caíram quando pararam de vencer. Dificilmente será diferente com Luxa. O problema de só analisarmos os resultados é que uma hora eles param de vir. O que tiraremos do trabalho do atual treinador quando as derrotas aparecerem? Eu respondo: um grande nada.

Referências

BAYER, Claude. O ensino dos desportos colectivos. Lisboa: Dinalivros, 1994.

(*) Fonte: Interativos Globo Esporte


Como citar

PELEGRINI, Gustavo Dal'Bó. Um grande vazio de ideias: o desempenho do Palmeiras a partir das fases e princípios operacionais do esporte coletivo. Ludopédio, São Paulo, v. 135, n. 71, 2020.