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Deuses do Futebol – São Dimas, Zé Pelintra e Garrincha

Guilherme Trucco

Estátua de São Dimas na República Checa. Foto: Wikipedia.

São Dimas é conhecido como o “bom ladrão”.

Foi um ladrão confesso condenado e crucificado ao lado de Jesus Cristo, e ali, aos 48 do segundo tempo, se arrependeu e se redimiu de seus pecados.

É considerado por Mano Brown o primeiro vida loka da história, sendo até citado na letra da música Vida Loka II, no álbum Nada como um Dia após o Outro Dia.

Não encontrei nenhum sincretismo tradicional de São Dimas tanto no Candomblé, quanto na Umbanda. Entretanto, faço sua analogia primeiramente com Zé Pelintra.

Zé Pelintra. Foto: Wikipedia.

Seu Zé Pelintra é uma entidade da Umbanda, caracterizada dentro da linha dos Malandros. É, na realidade, o patrono dos botecos, locais de jogo, da rua, é o bom malandro.

Conta a história que Zé Pelintra veio do sertão do Pernambuco, sendo descendente de índios, e sentou praça no Recife. Criou-se na rua entre malandros, e trabalhou como garoto de recados, sendo cuidado pelas prostitutas da região. Amava o jogo e as suas muitas mães.

Zé Pelintra acabou indo morar no Rio de Janeiro, onde se encaixou muito bem na boemia carioca.

Em muitos casos, Zé Pelintra, por ser da rua, é associado ao Orixá Exu.

Exu é o dono da rua, das encruzilhadas. Sem Exu nada se faz. Exu acertou o pássaro ontem com a pedra que jogou hoje.

Garrincha. Foto: Wikipedia.

É por esses caminhos e encruzas que faço o sincretismo de São Dimas com Zé Pelintra e Exu, e no futebol com o passarinho Garrincha.

Garrincha é descendente de índios Fulniôs, provindos da região onde se encontra o estado do Pernambuco. Tem no sangue a mesma linhagem cabocla de Zé Pelintra.

Garrincha é o nosso bom malandro por definição. É torto. Dribla sempre para o mesmo lado, e depois dá a gargalhada de mais um João caído no chão. Gargalhada gostosa, que faz o próprio zagueiro rir dele mesmo.

Garrincha é dono das encruzas do campo, dos caminhos, das mumunhas. Sem ele nada se faz em campo. Com ele, tudo é possível, até fazer o gol ontem, com a bola que chutou hoje.

Seus problemas com o álcool, suas escapadas da concentração para caçar mulher, sua conduta sempre fora das regras, o sincretizam com São Dimas, o bom ladrão, o bom malandro.


*Este é o artigo número 2 da série “Deuses do Futebol”, no qual o autor busca fazer o sincretismo de jogadores míticos brasileiros com os santos e entidades cultuados no Brasil em diversas religiões.