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Diário da arquibancada: um relato dos protestos dos Gaviões da Fiel no primeiro semestre de 2016 (parte 2)

Bernardo Borges Buarque de Hollanda, Felipe Tavares Paes Lopes

Continuação do texto publicado no dia 05/09.

As faixas se tornaram um emblema do agrupamento e passaram desde então a ser exibidas tanto nos jogos em casa quanto naqueles disputados em outras cidades. Não demorou para que, transcorrido cerca de um mês depois do emblemático jogo contra o tricolor paulista, a polêmica e a violência voltassem a recrudescer. No dia 16 de março, o jogo entre Corinthians e Cerro Portenho, válido pela fase de grupos da Copa Libertadores da América, foi marcado por atos violentos e repressivos da polícia, na calada da noite, já terminada a partida, no momento da dispersão dos Gaviões do setor norte do estádio.

A ação da polícia não ficou sem resposta. Três dias depois, 19 de março, a partida entre Corinthians e Linense, disputada pelo Campeonato Paulista, assistiu ao mais forte confronto entre policiais e torcedores desde então. Na saída de Itaquera, nem a goleada de 4 a 0 do clube alvinegro foi capaz de contornar a tensão reinante entre os dois lados.

Depois de justificar a ação por supostamente ter alguns de seus policiais agredidos por torcedores organizados fora do estádio, a PM parte para cima. Um numeroso contingente resolve lançar, então, de maneira incessante, por cerca de dez minutos, bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral. A ação causou muita correria, empurra-empurra e pânico entre os espectadores, sobretudo os torcedores anônimos e incautos, que não entendiam as causas de tamanha truculência. Em desespero, pais com crianças de colo voltavam às dependências da arena, em busca de proteção.

Em nota oficial, a PM alegava que reagiu à vingança orquestrada pelos torcedores. Estes, por sua vez, teriam atacado policiais em provável represália à partida de meio-de-semana, quando a torcida foi agredida. Os Gaviões também emitiram um comunicado por meio de seu site, em que contestaram a versão da polícia, baseando-se nos relatos de torcedores não-uniformizados, que filmavam com seus celulares os abusos da polícia e o emprego da força desproporcional, quando não desnecessária.

O ato seguinte ocorreu no mês de abril e continuou por todo o primeiro semestre, em paralelo e à medida que as circunstâncias da crise política brasileira se acentuavam. Em São Paulo, um grande escândalo ganhou vulto na política estadual, após denúncias sobre o desvio de verbas para alimentação nas escolas públicas da rede de ensino do estado. O caso se tornou conhecido popularmente como “CPI da Merenda” e mobilizou parte expressiva da opinião pública e, em especial, do movimento estudantil, que viria a ocupar diversas escolas do estado.

Qual a relação disso com o futebol? Vamos explicar. Um dos acusados era o deputado que presidia a Assembleia Legislativa do Estado (ALESP). As críticas a ele foram motivadas pelas denúncias que o envolviam no esquema de fraude em licitações de merenda escolar em vinte e duas cidades de São Paulo. Agora suspeito de receber propina, o deputado estadual era o mesmo que ganhara notabilidade em meados da década de 1990, quando atuava como promotor público.

São Paulo - O presidente da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, Fernando Capez, fala sobre a ocupação plenário por um grupo de estudantes secundaristas (Rovena Rosa/Agência Brasil)

Fernando Capez, presidente da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil.

Sua projeção se deu justamente a partir do momento em que travou uma cruzada jurídica contra as torcidas organizadas paulistas. À época, a aparição do personagem deveu-se aos confrontos entre palmeirenses e são-paulinos, a chamada “batalha campal do Pacaembu”, em 1995, triste episódio que resultou na morte de um torcedor e em uma centena de feridos. O futuro deputado tomou então a decisão de extinguir temporariamente as duas principais torcidas organizadas de cada clube – a Mancha Verde, do Palmeiras, e a Independente, do São Paulo. Ganhou fama perante a sociedade e resolveu lançar-se na carreira política, tonando-se, no entanto, ferrenho adversário, espécie de inimigo número 1 das torcidas.

Os Gaviões da Fiel não perderam a oportunidade e envergaram a bandeira da punição aos envolvidos nos escândalos, em particular o referido deputado. Foram assim às ruas pedir mais transparência na política e no futebol, incluindo no centro de seus protestos “o ladrão de merendas”. Outras torcidas corintianas – a Camisa 12, a Estopim Corintiano e a Pavilhão Nove – aderiam à campanha contra o presidente da Assembleia Legislativa.

Torcidas organizadas de outros clubes também passaram a demonstrar seu apoio à luta dos Gaviões. No jogo entre Corinthians e São Bernardo, no estádio Primeiro de Maio, pelo Campeonato Paulista, foi possível escutar o eco da torcida do clube local a cantar, sob o embalo do ritmo da música Sorte grande, da cantora Ivete Sangalo, o principal bordão das passeatas dos Gaviões: “ – merenda-aaa, merenda-aaa, merenda-aaa… – cadê a merenda?”. Além dos dias de jogos, os Gaviões protestaram em frente à sede da Assembleia Legislativa, no centro de São Paulo, com pedidos de punição aos envolvidos na “máfia da merenda”.

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Em partida pela Libertadores, a torcida do Corinthians protesta contra a Globo, CBF e FPF. Na faixa maior, acima das propagandas pede CPI DA MERENDA JÁ. Foto: Fábio Soares/futeboldecampo.net.

Essa série de atos teria por consequência uma reação mais dura e sofisticada por parte das forças de segurança do estado. Esta seria exitosa, sendo capaz de desestabilizar a força dos protestos e de desarticular o crescimento e a visibilidade da “politização” da torcida. A ação, ao final, conseguiria recolocar o tema da violência na ordem do dia, esvaziando, por assim dizer, o sentido político dos debates.

Na manhã seguinte à manifestação na Assembleia (ALESP), a Polícia Civil, com apoio da tropa de choque, invadiu a sede da torcida no bairro Bom Retiro. Com mandado de busca e apreensão, vasculhou todas as dependências da quadra da torcida. A invasão chamou grande atenção, pois se tratava de uma semana reconhecidamente tensa na rivalidade inter-torcidas, às vésperas da realização de uma partida entre Corinthians e Palmeiras.

No mesmo dia, em outra linha de ação, a investigação, agora mais repressiva e intimidadora, liderada por autoridades do governo e por comandantes de alto escalão da polícia, foi feita contra a torcida rival palmeirense. A investida resultou na prisão de um membro da torcida Mancha-Alviverde, acusado de espancar o presidente dos Gaviões da Fiel, numa emboscada realizada num estacionamento de um supermercado na Barra Funda, zona oeste de São Paulo, logo depois que o torcedor deixara o fórum, para uma suspeita reunião, ocorrida a pedido de um promotor.

A prisão do palmeirense foi feita numa sexta-feira, dias antes do derby. Ao invés de intimidar e inibir, o ato acirrou ainda mais os ânimos entre os torcedores. Coincidência ou não, o clássico acabou sendo marcado por uma série de distúrbios nos trens, no metrô e em bairros distantes do estádio. Em um desses episódios, ocorrido em São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo, um confronto entre corintianos e palmeirenses deixou uma pessoa morta, vítima de bala perdida, que caminhava pela rua e que nada tinha a ver com os grupos de lutadores.

Na segunda-feira após o jogo, depois de uma reunião com representantes da Federação Paulista de Futebol, do Ministério Público, da PM e da Polícia Civil, o então secretário de segurança pública de São Paulo anunciou que os clássicos realizados no estado passariam a ter torcida única. O pacote de medidas repressoras anunciou que as torcidas uniformizadas estavam proibidas até o final do ano de levar adereços que as identificassem nos estádios e que os clubes não poderiam mais reservar cota de ingressos às mesmas.

Dias depois, a Polícia Civil iniciou a midiática “Operação Cartão Vermelho”. Uma série de apreensões em sedes de torcidas organizadas na capital, na grande São Paulo, no interior e no litoral foi realizada, com ampla cobertura da mídia. Uma delas, feita na quadra dos Gaviões, chegou a contar com a presença do então secretário de segurança do Estado. Sem encontrar armas de fogo, exibiram à imprensa dezenas de faca que, em verdade, servem à dispensa da cozinha da quadra, para as feijoadas da torcida, tradicional refeição oferecida à comunidade todos os sábados, na hora do almoço. Além disto, na busca por “criar um fato”, foram feitas várias detenções preventivas de suspeitos de participarem de brigas e crimes.

Tais apreensões e encarceramentos ocorreram numa sexta-feira, 15 de abril, horas antes de os Gaviões da Fiel realizarem um grande protesto público no Vale do Anhangabaú. O ato, intitulado “Contra todo aquele que no futebol quiser mandar”, contou com mais de três mil torcedores, segundo estimativas da própria torcida. Neste protesto, lideranças da torcida discursavam sobre um carro de som, manifestavam repúdio à repressão policial, lamentavam a determinação de torcida única nos estádios e mencionavam a prisão arbitrária de 27 associados, classificando-as de “perseguições políticas”.

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Corintianos protestam no Anhangabaú contra ditadura nas arquibancadas. Foto: Fábio Soares/futeboldecampo.net.

Durante o evento, muitas críticas também foram dirigidas às entidades todo-poderosas do futebol – a Federação Paulista, a CBF e a Globo, entre outras. Os discursos reiteravam a reprovação ao preço elevado dos ingressos, ao chamado “futebol moderno” e à figura do deputado Fernando Capez. As críticas a este último foram, no início de maio, reproduzidas por estudantes secundaristas de São Paulo, que ocuparam a ALESP, cantando uma das mais emblemáticas músicas dos protestos da torcida: “ – Eu não roubo merenda/ Eu não sou deputado/Trabalho todo dia/ Não roubo meu Estado…”.

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Polêmicas à parte, temos ciência de que os limites de espaço impedem-nos de avançar na análise do complexo fenômeno da violência no futebol e, por conseguinte, na problemática situação das torcidas organizadas na contemporaneidade. Optamos assim por uma descrição por assim dizer “densa”, que procurou reconstituir o que o turbulento e movimentado primeiro semestre deste ano testemunhou no país e no universo futebolístico, em particular.

Pode-se afirmar, ao menos, que o conjunto desses relatos revelam-nos um dado importante: ao contrário do que acredita o senso-comum, futebol e política estão longe de ser fenômenos antagônicos. É errônea a suposição de que o primeiro é utilizado de maneira apenas instrumental pelo segundo e de que a prática futebolística serve apenas para alienar as massas, supostamente passivas e resignadas.

Ao menos em São Paulo, a intensa experiência de conscientização e de demanda por direitos à participação no espaço público, tal como vivenciada e protagonizada por uma torcida uniformizada de futebol ao longo do primeiro semestre deste ano, com todos os seus evidentes problemas e contradições, proporciona-nos reflexões instigantes sobre os nexos sociais e sobre as conexões políticas que unem os esportes à vida coletiva do país.

Como citar

HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de; LOPES, Felipe Tavares Paes. Diário da arquibancada: um relato dos protestos dos Gaviões da Fiel no primeiro semestre de 2016 (parte 2). Ludopédio, São Paulo, v. 87, n. 3, 2016.