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Diego Hypolito e seu ato de bravura!

Wagner Xavier de Camargo

Na segunda semana de maio de 2019, alguns sites na internet noticiaram que Diego Hypolito tinha se declarado publicamente “gay” e, a partir disso, trouxeram cenas e acontecimentos de sua história de vida e percurso relacionado à sua sexualidade. Em que pese choverem comentários depreciativos, preconceituosos, discriminatórios embaixo das referidas matérias, principalmente destacando sarcasticamente que não havia novidade alguma quanto a esta declaração, o feito de Diego deve ser admirado e parabenizado: foi um ato de bravura! Primeiro porque o cenário ultraconservador da política nacional, que tem cassado direitos de minorias sociais, não contribui para que pessoas LGBTI+ (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transgêneros, intersexos e outros) vivam plenamente suas sexualidades, e, segundo, porque o esporte não é lá um campo propriamente dito de aceitação irrestrita de dissidências sexuais e de gênero.

O que está em jogo é como a sexualidade é entendida no Ocidente e como ela é encarcerada dentro de casa pela imagem do “casal procriador”, como diria Michel Foucault. Se, historicamente, ela foi arquitetada em segredo no Ocidente e a história deste segredo permanece no “armário da sexualidade” (segundo Eve Sedgwick), o que ocorre no mundo do esporte (em relação à sexualização de corpos de meninas e meninos atletas, abusos sexuais generalizados na ginástica e no futebol de juniores, desejos homoeróticos castrados, surubas entre futebolistas e travestis, etc.) também participa de um segredo único, exclusivo, peculiar, guardado sempre a muitas chaves.

O “sair do armário” não é, e nunca foi, um processo fácil – já escrevi mais detalhadamente sobre tal tema no meio esportivo em outro momento[1]. O esporte, por sua vez, torna isso um processo complicado, pois, em geral, famílias, clubes ou associações, torcedores/as, equipes técnicas e o público em geral têm altas expectativas sobre o/a atleta e, dentro de tais expectativas, sempre se espera que ele ou ela se torne um herói ou uma heroína nacional. A performance esportiva é o foco e medalhas são sempre esperadas. Quando o/a atleta torna-se mais humano, e, portanto, mais susceptível a questões talvez menos “heroicas”, como o não se enquadrar no estereótipo esperado do/a “esportista padrão” (heterossexual, cristã/ão, branco/a, musculoso/a e bonito/a), uma decepção pode minar ou mesmo acabar com sua carreira.

Diego Hypolito. Foto: Reprodução/Instagram.

E assim funciona também no caso da sexualidade: como o mundo esportivo é rigidamente binário (sempre dividido em categorias masculina e feminina) em função da garantia de uma “igualdade de chances”, atletas homens devem competir entre si e atletas mulheres devem fazer o mesmo. Qualquer divergência de um corpo em relação à sua sexualidade no esporte não será levada em conta, visto que tal sujeito deverá se enquadrar ou na categoria masculina ou na feminina para poder competir. A impositiva e arbitrária frase “não interessa o que faz na cama, basta jogar bem” apaga o sujeito político, seus desejos, orientações sexuais, identidades de gênero e exige que “homens sejam homens” e “mulheres sejam mulheres” no campo esportivo.

Pelos relatos de Diego sobre os bullying que sofreu, as vergonhas que passou, todos os controles externos sobre sua sexualidade a que teve de se submeter (como fingir ser um atleta heterossexual, interessado em garotas de sua idade), os martírios e dúvidas sobre se contava ou não para as pessoas próximas, e mesmo o medo de perder patrocínios, contribuíram para instaurar uma crise de identidade e mesmo um questionamento sobre sua performance esportiva na ginástica.

O que, em minha opinião, permitiu que o ginasta saísse com mais tranquilidade do “armário da heterossexualidade” para se revelar um homem que tem desejos orientados a outros homens foram dois fatores principais: primeiro, sua medalha olímpica, conquistada no solo, na modalidade ginástica artística, nos Jogos Olímpicos do Rio-2016, e, segundo, sua idade já tardia para a modalidade (33 anos em junho próximo). Com sua conquista, as próprias expectativas e anseios baixaram e, por outro lado, é bem possível que o atleta se aposente ou continue participando de competições menores, como campeonatos regionais, de promoção ou beneficentes, deixando, aos poucos, o esporte competitivo.

Na literatura (particularmente internacional) sobre gênero no esporte, que foca na sexualidade nas arenas esportivas, é comum atletas assumirem outra identidade sexual ou de gênero quando já atingiram certo reconhecimento público (pela conquista de medalhas ou por suas performances espetaculares), estão em processo de retirada do esporte (por exemplo, em vias de se aposentarem), ou ainda, já conquistaram considerável fama[2].

A sexualidade (no esporte ou fora dele) ainda continua sendo um tabu em nossa sociedade. Como já mencionei em outro lugar[3], não se trata de especular se um/a atleta, de qualquer modalidade esportiva, é ou não gay, bissexual, lésbica, transgênero, intersexo, não binário, etc. Em que pese a escolha pela enunciação ser privada do sujeito, o respeito à sua decisão deve ser público. De um ponto de vista crítico, o esporte precisa se reinventar em relação a tal tabu e, além disso, seja a ginástica artística ou rítmica, o futebol, o skate ou qualquer outra modalidade esportiva não deveriam ser tomadas como monoliticamente heterossexuais. As pessoas são plurais e vivem suas sexualidades de tal forma. Hipóteses especulativas e circunscritas sobre sexualidades individuais não levam a lugar algum!

 

NOTAS DE RODAPÉ

[1] CAMARGO, Wagner Xavier. O armário da sexualidade no mundo esportivo. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 26, n. 1, abr. 2018.

[2] O pesquisador estadunidense Eric Anderson, no livro In the Game, de 2005, mostra bem isso em relação aos atletas com os quais pesquisa.

[3] CAMARGO, Wagner. Nos armários da sexualidade: polêmicas no futebol alemão. Contemporânea (uma quase revista), Florianópolis, v. 3, p. 10 – 11, 13 jan. 2013.

 

Sobre o caso:

Diego Hypolito fala sobre homossexualidade e abusos que sofreu na ginástica olímpica. Huffpost. Disponível em <https://www.huffpostbrasil.com/entry/diego-hypolito-atleta-gay_br_5cd351f1e4b09f321bdb6596>. Acesso em: 14 maio 2019.

HYPOLITO, Diego. Quero falar uma coisa. Sessão Minha História, UOL online. Disponível em < https://esporte.uol.com.br/reportagens-especiais/minha-historia-diego-hypolito/index.htm#quero-falar-uma-coisa>. Acesso em: 09 maio 2019.

WILKSON, Adriano. ‘Será bem-vindo ao nosso vale’, dizem ativistas LGBT sobre Diego Hypolito. Esporte – UOL online. Disponível em < https://esporte.uol.com.br/ginastica/ultimas-noticias/2019/05/09/sera-bem-vindo-ao-nosso-vale-dizem-ativistas-lgbt-sobre-diego-hypolito.htm?fbclid=IwAR3qDq_d7Z4_-UAtKiW5tjtx8TPgqGhewAFAhC76DywwZUCwK83hVfYAg6I>. Acesso em: 09 maio 2019.

 

Para aprofundar a temática:

ANDERSON, Eric. In the game: gay athletes and the cult of masculinity. New York: State University of New York, 2005.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade: a vontade de saber I. 8. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1985.

SEDGWICK, Eve Kosofsky. A epistemologia do armário. Cadernos PAGU/Campinas, v. 1, n. 28, p. 19-54, jan./jun. 2007.