22.2

Dinheiro na mão é vendaval, no time alheio

Vitor dos Santos Canale

Mais uma janela de transferência de jogadores se fechou na Europa, mais exatamente no dia 31 de janeiro, enquanto o torcedor do Brasil e de outros centros exportadores de jogadores respiram aliviados, por contarem com parte dos seus elencos até agosto próximo; na Europa fala-se muito do fair play financeiro, mas pouco tem se visto da propalada ponderação de gastos.

O mecanismo de fair play financeiro, que soa como novidade, mas não é, foi aprovado pela UEFA em setembro de 2009 buscando atenuar os efeitos da crise financeira que assolou, e ainda assola, os Estados Unidos e Europa, desde 2008, quando veio a tona. Baseando-se num conceito simples, mas desconhecido por muitos clubes e torcedores apaixonados, no lado de cá e de lá do Atlântico, o principal é que as agremiações devem gastar apenas aquilo que têm em caixa ou que cofiam que irão arrecadar em breve período.

Assim, contratações milionárias, altos salários, grandes elencos recheados de protagonistas tem tudo para serem situações de um passado pré-crise, pensaram os comissários da UEFA munidos de uma ingenuidade quase infantil.

A volta aos tempos de revelações das bases, a aposta em jogadores dos times pequenos e de desconhecidos de outros países seriam os reflexos dessa nova política, de um capitalismo menos inconseqüente e agressivos, esperava-se.

Entretanto, ainda espera-se tanto as ações dos clubes como os seus reflexos, com exceção do pioneirismo de alguns clubes alemães. Arrisco-me a dizer que a crise mundial, agora mais de dois anos depois de sua implosão, afetou muito pouco a política de investimento da maioria dos grandes clubes do futebol europeu e não sensibilizou como o esperado suas práticas de captação de jogadores.

Neste período o Real Madrid, integrante da UEFA, levou a cabo duas das três contratações de jogadores mais caras da história do futebol (Cristiano Ronaldo por 93 milhões de euros e Kaká por 65 milhões de euros), e outros mercados permanecem cada vez mais aquecidos.

Kaká comemora gol. Foto: Alejandro Ramos.

 

Cristiano Ronaldo. Foto: Alejandro Ramos.

O caso que mais chamou a atenção em dezembro e janeiro últimos foi a transferência de Fernando Torres do Liverpool para o rival Chelsea, para além das questões da rivalidade o que mais chama a atenção são as cifras envolvidas e como o Liverpool utilizou o dinheiro ganho com o desligamento do jogador espanhol.

O valor de 58 milhões de euros pagos pelo Chelsea ao Liverpool tornou Fernando Torres a transferência mais cara da história a envolver alguma equipe inglesa, ultrapassando a contratação de Robinho pelo Manchester City. A perda de Torres obrigou o Liverpool a buscar um novo atacante de referência para o seu plantel, vaga que foi preenchida pela aquisição de Andy Carroll, por aproximadamente 41 milhões de euros.

Logo, podemos fazer algumas indagações: estamos mesmo falando de uma crise econômica mundial e dos desdobramentos no futebol de alto rendimento europeu, o mecanismo do fair play financeiro, proposta de resolução dos males da gastança desenfreada surte efeito sobre quem deveria surtir? Afinal, creio que esse mecanismo não tenha sido criado para frear a liberalidade financeira do Bari da Itália ou o Arles Avignon da França.

O mecanismo de proteção aos clubes e aos mercados solenemente ignorado, faz com que vivamos num mundo de fantasia futebolística em que o dinheiro dos clubes parece ilimitado, e de muitos verdadeiramente é, e que a performance de determinados atletas valham quantias nunca antes pensadas por pessoas como eu ou você.

Desta forma, Andy Carroll pode ter sua força de trabalho avaliada em muitos milhões de euros, mesmo tendo marcado meros 17 gols na segunda divisão inglesa, o que nem para garantir a artilharia do torneio lhe serviu. O que convenhamos lhe coloca como a aposta, ou experiência como preferirem, mais cara do futebol inglês de todos os tempos.

E além da competitividade, da sede de ganhar, a que podemos atribuir esse novo panorama, em que as receitas dos clubes ficam em segundo plano na montagem de um elenco e que os balanços negativos dos clubes são situações que se repetem e se acumulam ao longo dos anos?

Ao fenômeno que começou na Inglaterra, tem casos na Itália e parece ter chego à Espanha com força nos últimos tempos: a aquisição de times por milionários dos mais diferentes ramos e a posterior venda e trocas de donos quando o passatempo do futebol deixa de ter importância para os investidores. Assim é com Abramovich no Chelsea e assim passou a ser no Malagá com xeique Bin Nasser Al-Thani. As diferentes condutas que variam entre investir em grandes estrelas ou contratar jovens promessas não mudam um viés: a grande maioria dos clubes não são instituições auto-sustentáveis.

E ampliando essa observação percebemos que a situação é recorrente em times que contam com o aporte financeiro de donos milionários, mas também é cotidiana em equipes que não contam com proprietários, caso gritante do Atlético de Madrid, que mesmo com uma dívida divulgada de 700 milhões de euros continua a contratar atletas com alto valor no mercado.

Bandeira da União Europeia. Imagem: Wikipedia.

A pergunta é: até que ponto esse sistema de futebol que a Europa vive agüentar? E quando tudo isso estourar, quem vai pagar a conta?

As respostas eu não sei, mas creio que a crise financeira e o estourar da bolha da especulação possam trazer importantes lições, esperemos.