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Dirceu Lopes, um expoente do futebol-arte

Elcio Loureiro Cornelsen, Matheus Marinho

“O Dirceu Lopes é sensacional. Tenho a convicção de que na seleção brasileira pode cumprir a mesma função de Cruyff na Holanda e talvez até render mais, pois é um jogador bem mais completo” [1] 
Didi, o “Folha Seca”, em 1974.

Foto: Reprodução.

Introdução

Baseado na excelente obra do jornalista mineiro Pedro Blank, O príncipe: a real história de Dirceu Lopes, resolvi fazer esta resenha sobre a história de um craque, tido por muitos como o maior camisa dez da história do futebol mineiro. Ídolo eterno do Cruzeiro nas décadas de 60 e 70, Dirceu ainda passou no final de sua carreira por Fluminense e Uberlândia.

Num roteiro costumeiro, Dirceu cresceu em uma família humilde e realizou seu sonho de se tornar jogador profissional e ajudar sua família, porém, sua trajetória no futebol fica distante da mediocridade. Amplamente reconhecido pela crítica e pelo maior de todos (Rei Pelé), tornou-se um representante eterno do nostálgico futebol-arte, na era de ouro do futebol brasileiro. Preterido sucessivamente por Zagallo na seleção, em uma época de abundância de craques, teve no Cruzeiro as suas maiores realizações no esporte e na vida.

Notas metodológicas

Logo no subtítulo da obra, há uma inferência polêmica: “a real história de Dirceu Lopes”. Como é sabido, podemos problematizar o sentido de “real” nesta frase. Seguindo a obra biográfica, pode-se problematizar sua capacidade de “dar conta” da realidade plena e fiel de uma vida. Autores como Philippe Lejeune e François Dosse discorreram sobre os limites e as potencialidades dos gêneros autobiográfico e biográfico. Neste último, a potencialidade se encontra em reconstruir, a partir de relatos orais e também via documentação, por intermédio de um terceiro (no caso, Blank), a rica história individual de uma pessoa, suas experiências e subjetividades mais marcantes. Sendo esta pessoa notável ou anônima, trata-se de um caráter documental memorialístico válido e importante. As limitações se encontram no caráter híbrido do gênero biográfico, que, segundo Dosse (2009), é um misto de ficção e realidade histórica. Na obra de Blank, a realidade histórica é dada pelos documentos fotográficos e de imprensa, sobre os episódios amplamente conhecidos do personagem, além de diversas passagens em primeira pessoa e entre aspas, de Dirceu Lopes comentando os relatos. Já a ficção está contida na reconstrução e reprodução de diálogos distantes no tempo (como os dos dirigentes, treinadores, diretores, jogadores e árbitros da época), dispostos entre aspas, na primeira pessoa. Também são de tom ficcional as reproduções das emoções sentidas pelo personagem e por terceiros em determinados momentos. Outros exemplos do tom romântico da narrativa se deram da seguinte forma: “O sol amanheceu brilhando como nunca na serra do curral” (BLANK, 2014, p. 108). “A camisa celeste despertou um transe coletivo raro na Pampulha” (p. 109).

Assim, como nos explica Dosse sobre o caráter ficcional da biografia (2009), a memória humana é falha, lacunar e, às vezes, reconstrutiva de fatos, que são modificados em processos biológicos e psicológicos naturais. Isto não quer dizer que se tratam de mentiras ou histórias aumentadas, mas sim dos limites naturais da memória humana, de sua capacidade imaginativa e ilustrativa. Segundo o autor francês, a biografia, antes de tudo, é um misto de arte e ciência.

A biografia de Blank é clássica, ou seja, os fatos são narrados em uma linha cronológica, com exceção do primeiro capítulo, onde o autor introduz a partida mais imponente da carreira de Dirceu (contra o Santos em 1966). Por sua vez, no último capítulo, Dirceu fala de si, da família, do futebol, da carreira e da vida de forma geral, em primeira pessoa.

Outro ponto importante é a referência clara à obra Futebol ao sol e à sombra (1995), de Eduardo Galeano, na construção do início da narrativa em quase todos os capítulos. Assim como o gênio escritor uruguaio, Blank (que cita o autor no texto e nas referências) introduz os fatos da carreira do jogador após explanações sobre o contexto social de Belo Horizonte, de Minas Gerais e do Brasil, citando as transformações urbanas da capital mineira e a conjuntura política da ditadura militar.

Ao final, Blank conseguiu embasar seus argumentos com referências documentais de crônicas esportivas da época, relatos de grandes craques, e com as belas imagens que a obra apresenta. Por outro lado, em sua habilidade literária e romanesca, consegue transferir fluidez ao texto, amarrando a narrativa documental ao tom afetivo de um torcedor cruzeirense. Ambos na medida certa, como faz um bom biógrafo. Sem dúvida, o produto final é uma obra excepcional, que faz justiça (segundo Dosse, outra função corriqueira do gênero biográfico) à figura do craque Dirceu Lopes.

O início de Nô (1963-1964)

Nos capítulos iniciais, o autor demostra o caminho no qual deseja criar a narrativa da vida de Dirceu. Em tom romanceado, de escrita leve e prazerosa, na qual se prende qualquer leitor, Pedro Blank descreve a origem humilde de Dirceu começando pela vida simples de seu pais: senhor Tito e dona Maria. Tito, pai de Dirceu, era caminhoneiro e sustentava a família com muito esforço, ao passo que dona Maria cuidava dos afazeres domésticos e da educação dos 11 filhos, como uma típica família da época e do local descritos. Dirceu era o segundo filho do casal.

Nos campos de Várzea da Região Metropolitana de Belo Horizonte, Tito tinha a fama de craque. Primeiro, jogou no Retiro, de Nova Lima, e depois no Esporte Clube Pedro Leopoldo, da cidade onde se estabeleceu. Assim, o DNA de craque foi passado de pai para o filho Nô, apelido pelo qual chamavam Dirceu.

Dirceu Lopes nasceu em 25 de Julho de 1946 e, pela distância do cartório, foi registrado em 3 de Setembro de 1946. Trabalhando desde os 8 anos como engraxate e depois aos 12 fabricando tijolos, sendo aprendiz de sapateiro (onde aprendeu a consertar bolas) e servente de pedreiro, Dirceu ajudava a família e não largava a bola. Frequentou a escola e trabalhou muito, ao mesmo tempo em que se destacava na cidade e era chamado para compor diversos times locais. Cruzeirense num tempo onde América e Atlético detinham de longe as maiores torcidas, Dirceu adorava os ídolos Nilo e Pelau, posteriormente Elmo, Emerson e Norival.

Num dos amistosos de um time local com o Atlético, dirigentes do clube alvinegro prometeram voltar para levar Dirceu. Para sorte dos cruzeirenses, eles nunca voltaram. Assim, Juca, jogador do Cruzeiro de 1962-1964, sobrinho da mãe de Dirceu, recomendou o menino aos dirigentes da Raposa, que logo foram buscá-lo para testes na equipe juvenil. O convite chegou diretamente na fábrica onde trabalhava. Segundo Dirceu: “Quando foram me buscar em Pedro Leopoldo para ir ao Cruzeiro, só não tive um infarto porque era muito novo. E minha vida mudou completamente depois que fui parar no Barro Preto”[2]. Surpreendentemente, por uma indicação, em 1963 Dirceu Lopes começou sua história no futebol. Com 1,61 metros de altura, Dirceu chegou ao Cruzeiro para compor o juvenil com a desconfiança dos dirigentes, mas logo arrebentou no treino contra os titulares e ganhou a confiança dos cartolas.

Martim Francisco, ex-treinador do Atlético de Madrid e inventor do esquema 4-2-4, foi o técnico do Cruzeiro em 1963. Precisou de apenas de um amistoso para testar Dirceu, aos 16 anos. Posteriormente, já o escalou, nada mais e nada menos que com a camisa 10, no clássico contra o América. Com problemas com alcoolismo, Martim Francisco logo deixou o clube celeste. Leonízio Fantoni, o “Niginho”, ídolo do Cruzeiro e da Lazio, entrou no lugar de Martim no comando técnico. Segundo a obra, ele foi o responsável por encaixar Dirceu na armação e avançar Tostão ao ataque.

Em 1964, com as obras do Mineirão a todo vapor, Dirceu decepcionou-se com a decisão de regressar ao juvenil para o ano seguinte. O presidente Felício Brandi e o diretor Carmine Furletti tinham planos para que o jovem pudesse ajudar na conquista do Campeonato Mineiro Juvenil, torneio que o Cruzeiro estava sem vencer há 12 anos. Dirceu foi protagonista da conquista, regressando aos profissionais ainda em 1964. Niginho foi substituído pelo técnico Mário Celso de Abreu, “o Marão”. Com ele, Dirceu sofreu na posição de volante, vítima da teimosia do treinador. Os maus resultados culminaram na contratação de Airton Moreira, técnico irmão de Zezé Moreira e Aymoré Moreira, treinadores famosos do cenário nacional.

O Príncipe (1965-1969)

Foto: Reprodução.

Em 1965, Airton Moreira montou a base da equipe que encantou o futebol nacional: no time que já tinha Natal, Pedro Paulo, Piazza, Tostão e Dirceu Lopes, oriundos das categorias de base, contou com as contratações de Zé Carlos, Procópio e Neco.

Antes da inauguração do Mineirão, Dirceu já atraia olhares dos clubes cariocas após grande amistoso no Rio de Janeiro contra o Fluminense. Um gol e uma assistência foram os cartões de visita do meia. A imprensa já apontava as qualidades de Dirceu: veloz, habilidoso e driblador, ambidestro com uma precisão invejável. Tudo isso traduzido em gols e assistências aos montes. O estilo era de um “motorzinho” que servia o ponta-de-lança Tostão.

Dois dias após completar 19 anos, a ascensão meteórica na carreira começara de fato na inauguração do Mineirão. O selecionado mineiro enfrentaria o River Plate da Argentina, no dia 05 de setembro 1965, data da inauguração do Estádio Minas Gerais, hoje Mineirão. Com uma bela assistência de Dirceu para o atleticano Bougleaux, os mineiros venceram por 1 x 0. Os cronistas e a comissão do técnico da seleção sob o comando de Vicente Feola elogiaram Dirceu. Após o jogo, outros dois amistosos foram realizados no “gigante da Pampulha”: a derrota por 3 x 2 do selecionado mineiro para o Botafogo (de Manga, Gerson, Jairzinho e Garrincha) e a vitória de 2 x 1 para cima do Santos (de Pelé, Gilmar, Pepe e Coutinho). Os dois jogos terminaram com Dirceu eleito pela crônica o melhor em campo. No segundo, tabelou com Tostão para fazer o gol da vitória. Surge o apelido que o acompanharia: Príncipe, em comparação ao Rei Pelé.

O estadual de 1965 só terminara em 1966, o ano do Cruzeiro. O tripé Piazza-Dirceu Lopes-Tostão fazia sucesso. Após campanha impecável, faltava ao Cruzeiro vencer o até então carrasco América para assegurar a taça. Foi o que ocorreu, na virada por 3×1. Dois gols do príncipe e o primeiro título pelo profissional.

A lista de Vicente Feola para a Copa do Mundo de 1966 saíra logo após. Com preferência pelos paulistas e cariocas, em Minas somente Tostão foi convocado. Partia o Cruzeiro para a Taça Brasil, reforçado com Evaldo, do Fluminense e o goleiro Raul, do São Paulo. O mineiro de 1966 também iniciara. O Cruzeiro sobrava em campo. Pela Taça Brasil, quatro disputas no mata-mata. O primeiro, contra o Americano-RJ, terminou com vitórias celestes por 4×0 no Rio e 6×1 no Mineirão, Dirceu, contundido, não jogou o segundo jogo. Na segunda etapa do torneio nacional: 0x0 contra o Grêmio no sul, e Dirceu voltou a sentir a lesão. No Mineirão, a volta foi emocionante e a partida foi vencida a duras penas por 2×1, acabando com um tabu das equipes mineiras perante os gaúchos nas competições nacionais. Nas semifinais, o Fluminense. 1×0 no Mineirão, gol de Evaldo, ex-tricolor. No Maracanã, 3 x 1 e outro show de Dirceu e Evaldo (2 gols). “Cruzeiro ganhou como quis”, estampou a manchete do Jornal dos Sports do dia 24 de novembro de 1966. Festas nas arquibancadas do Maraca, a torcida celeste compareceu em peso e cantava nas arquibancadas cariocas.

Foto: Reprodução.

O dia D… D de Dirceu Lopes

A final contra o Santos do Rei atraía os olhares de todo país. O jovem e veloz time mineiro versus o consagrado bicampeão mundial. Quase 100 mil pessoas lotavam o Mineirão no primeiro jogo da decisão. Logo no primeiro minuto: Cruzeiro 1 x 0 – Zé Carlos contra. Aos 5 minutos, Dirceu serve Natal, o “diabo loiro” fuzila no ângulo, 2 x 0. Aos 20 minutos, Dirceu chuta no ângulo. 3 x 0. Em um rebote de Gilmar, Dirceu Lopes confere mais um tento. 4 x 0. Houve tempo para mais um: aos 41 minutos, o impossível Dirceu ginga e Oberdam comete pênalti. Tostão fecha o placar. Sonoros 5 x 0 no primeiro tempo deixaram o Mineirão calado, incrédulo. Dirceu relata: “No fundo, ninguém acreditava que tínhamos feito 5 a 0 em apenas 45 minutos. E não eram só os jogadores. O Mineirão estava em silêncio.” (BLANK, 2014, p. 110).

No retorno do intervalo, o Santos voltou ligado e o Cruzeiro relaxado, Toninho marcou duas vezes aos 6 e aos 10 minutos. A equipe se apavorou e só foi acalmada nos dizeres de tranquilidade do capitão Piazza. Aos 27 minutos, com Gilmar caído após rebote, Dirceu empurra para a rede, 6 x 2. Dirceu fechou o maior jogo de sua carreira com 3 gols, um pênalti sofrido e uma assistência. O Jornal dos Sports destacava no dia 01 de dezembro de 1966:

Foto: Reprodução.

O jogo de volta poderia definir o título, caso o Cruzeiro vencesse ou empatasse. Se o peixe vencesse, obrigaria o terceiro jogo. Em um campo enlameado pela chuva, a velocidade e o toque de bola celestes foram prejudicados. O Santos abriu logo 2 x 0 no primeiro tempo com Toninho e Pelé. Tostão ainda perdera um pênalti. Em seguida, o Santos perdeu um gol feito. No intervalo, os dirigentes paulistas quiseram marcar antecipadamente o terceiro jogo. O presidente do Cruzeiro negou veementemente e tal fato mexeu com os brios dos jogadores. Com muita luta, a equipe celeste marcou de falta com Tostão e empatou com o genial Dirceu Lopes. Aos 44 do segundo tempo, o golpe final veio com Natal, após linda jogada de Tostão. Com final heroico, o primeiro título nacional de Minas Gerais foi parar na Toca da Raposa.

O Jornal dos Sports do dia 08 de dezembro de 1966 atestava o que o Brasil já sabia:

Foto: Reprodução.

Segundo Dirceu: “Se tivesse de encerrar a carreira naquele dia, retornaria para casa feliz da vida” (BLANK, 2014, p. 117). Dois dias após o feito, no dia 09 de dezembro de 1966, Nelson Rodrigues, com sua hipérbole característica, discorria sobre o Cruzeiro no Jornal dos Sports:

Foto: Reprodução.

O Cruzeiro formou uma geração de ouro no contexto da inauguração do Mineirão. Raul no gol, Neco na esquerda, William e Procópio na zaga, Pedro Paulo na direita. A meiuca tinha Piazza, o capitão-xerife, Dirceu Lopes, o Príncipe, e Tostão na ponta-de-lança. Na frente: Natal e Hilton Oliveira pelas pontas e o centroavante Evaldo.

A música que homenageia os campeões era entoada na capital mineira – “Raul na meta, Procópio e Neco, William, Pedro Paulo, Piazza e Natal. E Dirceu Lopes, um furacão, e o nosso artilheiro Tostão! Evaldo, que não é de brincadeira, e lá na ponta corre o Hilton de Oliveira[3].

Em 1966, o Cruzeiro ainda faturou o Campeonato Mineiro em dezembro. Já em 1967, a primeira participação na Taça Libertadores da América valeu como experiência. A equipe passou bem pela primeira fase, mas caiu, inexperiente, diante do Peñarol histórico, na fria Montevidéu.

O Campeonato Mineiro de 1967 terminou em 1968. A equipe celeste faturou o caneco após novo show de Dirceu, Tostão e Piazza. O meia Zé Carlos, o Zelão, começou seu protagonismo como 12º jogador, versátil e polivalente. Substituía Dirceu, eventualmente, com maestria. Os anos de 1967, 1968 e 1969 reservaram para Dirceu títulos estaduais, a confirmação da idolatria e convocações para a seleção brasileira. O escrete mineiro não teve a mesma sorte nos campeonatos nacionais destes anos. Em 1969, foi vice para a academia palmeirense de Ademir da Guia. O quadrangular terminou empatado em pontos, mas os palestrinos paulistas ficaram com o título por um gol a mais de saldo.

Felício Brandi limpava os cofres celestes com a construção do centro de treinamentos da Toca da Raposa II. O Cruzeiro aproveitava o momento para crescer estruturalmente. O CT é referência em estrutura no Brasil até os dias de hoje.

Neste período, a terceira força de Minas Gerais emergiu do desconhecimento nacional para a glória: hegemonia estadual no pentacampeonato (65-69), 3 anos de invencibilidade perante o rival Atlético-MG (65-68) e campeão brasileiro em cima do Santos de Pelé. Nascia um gigante brasileiro.

Intermezzo (1970-1971)

Palinha surgia como uma revelação fenomenal do ataque celeste, assim como Roberto Batata. Dirceu tinha novos companheiros de ataque. Fontana chegava para reforçar a zaga, assim como o excelente zagueiro Roberto Perfumo. O rival Atlético montava um esquadrão de respeito e o Cruzeiro sucumbiu com o vice-campeonato estadual nos dois anos citados, após uma grave crise financeira oriunda da construção da Toca da Raposa.

Um episódio marcou a carreira de Dirceu Lopes. A não convocação do príncipe para a Copa de 1970. A frustração de seus admiradores é compartilhada pelo craque, que, sempre quando questionado sobre o episódio em entrevistas, se emociona bastante, apesar de entender toda a grandeza de sua carreira.

Como é sabido, o campeão do mundo Zagallo, substituto de Saldanha nas vésperas da Copa de 1970, optou por cortar Dirceu, alegando excesso de meio campistas. Cortou também Zé Carlos, proeminente meia do elenco cruzeirense, campeão brasileiro e da Libertadores com a equipe celeste, além de ter sido campeão brasileiro com o Guarani de Campinas. A explicação formal foi contrastada com a explicação informal, com contornos de mito, na qual Dirceu cedeu lugar no esquadrão do Tri para Dario, o Dadá Maravilha, centroavante de preferência do ditador Emílio Garrastasu Médici, que, segundo a lenda, impôs a convocação do camisa 9. A história é totalmente ratificada e “documentada” na biografia do meia celeste.

Dirceu Lopes assina sua biografia. Foto: Cruzeiro/Divulgação.

Porém, para Tostão, em análise ao mesmo tempo sóbria e excepcional, Dirceu não foi convocado para a Copa, pois jogava na mesma posição de nada mais nada menos que Pelé, Rivelino e Gérson. Numa fartura imensa de craques, Dirceu acabou sofrendo o revés. Segundo Tostão:

Afonsinho era um ótimo jogador, mas atletas muito superiores a ele também ficaram de fora da Copa, como Zé Carlos, Dirceu Lopes e Ademir da Guia. Tampouco Dario foi convocado por exigência do ditador Médici, como ainda dizem. Zagallo achava que o Brasil não tinha centroavantes e por isso chamou Dario e Roberto. [4]

Tal opinião é compartilhada pelo cantor Samuel Rosa, ilustre torcedor celeste que escreveu parte da apresentação da obra de Blank. João Saldanha, o técnico que mais admirava e dava oportunidades para Dirceu Lopes na seleção brasileira, elogiava “Zé do Milho” (apelido carinhoso pelo qual chamava Dirceu) e o convocou em todo o período que esteve na seleção. Segundo Dirceu,
Saldanha sempre deixou claro que o levaria para o México a qualquer custo. Em crônica para o jornal O Globo, após a convocação de Zagallo, Saldanha usou o termo “barbaridade” para designar o corte do baixinho Dirceu. A demissão de Saldanha pegou todos de surpresa, quando faltavam apenas 3 meses para a Copa. A substituição deu certo, Brasil campeão. Porém, a polêmica da interferência militar na lista final ficou.

Apesar de tudo o que é veiculado, acredito que alguns fatos sobressaem. Tais como: Dirceu Lopes merecia ser campeão do mundo em 1970, assim como Zé Carlos, “o divino” Ademir da Guia e Afonsinho. Zagallo fez um excelente trabalho, assim como Saldanha e suas feras. Saldanha foi um baluarte do futebol romântico, onde quem tem mais técnica, joga. Privilegiava o improviso e as raízes do futebol brasileiro. Zagallo, um calculista, estrategista, utilizou Tostão de camisa 9 com maestria, conseguindo acabar com a polêmica se Tostão podia ou não jogar com Pelé.

No prefácio da obra de Blank, Tostão, amigo e companheiro de Dirceu na dupla mais artilheira (Tostão 245 gols, seguido por Dirceu 223) da história do Cruzeiro, relata com a sobriedade que lhe é de praxe, que Dirceu não precisou ir à Copa para ser eterno. Nas duas apresentações que se seguem, relatos de dois famosos torcedores do Cruzeiro, Samuel Rosa e Aécio Neves ressaltam o mito em torno de Dirceu e endossam o discurso sobre a injustiça das chances que o craque não teve na seleção. Com afeto, relembram do ídolo.

Protagonismo (1972-1975)

O ano de 1972 foi marcado pela bombástica saída de Tostão para o Vasco, após o craque boicotar a chegada do truculento técnico Yustrich, bancado pelo presidente celeste Felício Brandi. Em 1973, após nova complicação da lesão ocular que quase o tirou da Copa do Mundo de 1970, Tostão, o companheiro de Dirceu no incrível ataque do Cruzeiro dos anos 60, se aposenta precocemente aos 26 anos.

Brandi insistia que a equipe e seus medalhões fizessem corpo mole em 1970 e 1971, teoria rechaçada pelo príncipe, bola de prata em 70 e 71. Dirceu tornou-se a maior referência. Jogou por diversas vezes com infiltração, sob fortes dores oriundas das pancadas dos implacáveis rivais que o marcavam. Ao lado dos experientes Piazza, Perfumo e Zelão, a renovação do esquadrão veio com Palinha, Roberto Batata e, mais tarde, com o excelente Joãozinho, “o Bailarino”. Outro que despontava era Nelinho, com seus chutes inacreditáveis. Na lateral esquerda, Vanderlei permaneceria até 1979.

Mesmo após a aposentadoria de Pelé na seleção, Zagallo insistia em convocar Dirceu para ficar no banco de reservas. Em 1972, saturado, Dirceu vociferou para a imprensa sua insatisfação. A relação ruim com Zagallo permaneceu igual.

Dirceu Lopes posa com a camisa do Cruzeiro. Foto: Reprodução/Facebook/@cruzeirooficial.

Dirceu regeu o time do Cruzeiro com maestria e foi tetra campeão estadual 72-75. Ainda foi vice-campeão brasileiro em duas oportunidades. Em 1973, em um dos episódios que o baixinho de Pedro Leopoldo conta com mais orgulho, integrou a seleção da FIFA, que disputou a partida de encerramento da carreira do fenômeno Eusébio. Craques como George Best, P.C.Caju, Bobby Charlton e Gordon Banks foram parceiros de time por um dia, do príncipe Dirceu.

Em 1974, ocorreu a derrota na final do Campeonato Brasileiro para o Vasco da Gama em arbitragem suspeita do árbitro Armando Marques, no Maracanã. O jogo estava marcado para Belo Horizonte até a véspera da partida. Tudo de acordo com o regulamento. Uma manobra vascaína junto à CBD e à comissão técnica do Cruzeiro (que aceitou a parcela polpuda da renda da bilheteria oferecida pelos cartolas vascaínos), transferiu o jogo para o Rio, pegando os jogadores de surpresa. O clima era péssimo e os jogadores desconfiaram da mudança repentina. O primeiro jogo ficara 0 x 0 no gigante da Pampulha O Cruzeiro era amplamente superior tecnicamente, mas o Vasco era um time incansável e fez 2 a 1 na partida derradeira. O lance polêmico surgiu no final da segunda etapa, quando Baiano cruzou para Zé Carlos, (muito atrás da linha da bola) sozinho empatar a partida. Armando Marques, contrariando a decisão do auxiliar na bandeira, anulou o gol celeste. O capítulo de Blank que relata o caso se chama “Roubo no Maracanã (1974)”. Em entrevista recente, Nelinho explicita o caso [5].

Após o trauma, 1975 trouxe o segundo vice-campeonato brasileiro para a Raposa. Em partidas incríveis, Internacional de Falcão, Lula e Figueroa, venceu, sem polêmicas o escrete celeste, por 1 x 0, na partida derradeira em Porto Alegre.

Apagar das luzes (1976-1979)

Em 1976, Dirceu sofria com uma lesão no tendão de aquiles, herança do ano anterior. Ficou afastado praticamente o ano inteiro. O Cruzeiro foi mal no Brasileiro e no estadual. Porém, na Taça Libertadores, o substituto de Dirceu brilhou. O experiente Jairzinho liderou o elenco, marcando em todos os jogos da campanha. Palinha, Nelinho e Joãozinho sagravam-se ídolos expoentes de uma nova geração celeste. A nota triste ficou por conta do falecimento do ponta promissor Roberto Batata, vitimado em um acidente de carro, um dia após a vitória por 4 x 0 sobre o Alianza Lima do Peru. O elenco inteiro se comoveu e, em particular, Dirceu sentiu muito a perda do amigo e vizinho. Neste campeonato, uma das maiores partidas do Cruzeiro e da Taça Libertadores terminou em magníficos 5 x 4, vitória celeste que vingou o Campeonato Brasileiro perdido contra o Internacional no ano anterior. Palinha e Joãozinho marcaram 2 gols cada, enquanto que o craque Nelinho marcou um. Na final do torneio, O Cruzeiro venceu o terceiro jogo da final contra o River Plate, em Santiago do Chile, por 3 x 2, após mítica cobrança de falta de Joãozinho. Foi o lance mais genialmente irresponsável da história do Cruzeiro, uma vez que o batedor oficial, Nelinho deu as costas para tomar distância e “o bailarino” desferiu sem autorização o golpe fatal. Dirceu torcia de longe, lesionado, esperando a volta para o Mundial Interclubes contra o Bayern de Munique, base da seleção alemã de 1974. Craques como Rummennige, Franz Beckenbauer e Sepp Maier figuravam no elenco da Baviera. Dirceu voltou a tempo, porém, fora de ritmo, entrou durante a partida perdida por 2 x 0 para os alemães em um campo coberto de neve no estádio Olímpico de Berlim. No Mineirão, uma briga entre diretores e a indefinição sobre o pagamento do “bicho”, caso o título viesse, estragou o clima interno do elenco. O placar de 0 x 0 frustrou a equipe mineira, que saiu do torneio para um grande clube, com dignidade.

Em 1977, Dirceu deixa o Cruzeiro, vencido pela lesão e pelo desempenho abaixo de seu nível costumeiro. O elenco celeste entrara em declínio, após a perda da Libertadores, na final e nos pênaltis, para o Boca Juniors. Assim, Dirceu teve breve passagem pelo Fluminense. Poucas chances com o técnico e atuações abaixo de seu nível, deixou o tricolor sem deixar saudades. A lesão o impedira de ser o Dirceu que o Brasil aplaudiu nos 10 anos anteriores. Em 1978 e 1979 teve duas passagens pelo modesto Uberlândia, da região do Triângulo Mineiro. Num Brasileirão com 94 times, Dirceu comandou o “periquito” até a nona colocação do torneio, além do título simbólico de campeão mineiro do interior, ambos feitos ocorreram em 1979. Após jogo de despedida contra os amigos do Cruzeiro, Dirceu seguiu a vida como empresário, ajudando a criar empregos para seus conterrâneos e sua família, concluindo um desejo altruísta que o perseguia no decorrer dos anos.

Dirceu Lopes conquistou o respeito de todos os seus contemporâneos, da imprensa, dos dirigentes, da torcida e dos companheiros de campo. O Nô de Pedro Leopoldo encerrou a carreira tendo sido expulso apenas duas vezes e colecionando prêmios da revista Placar (As premiações da revista começaram apenas em 1970), angariou Bolas de Prata três vezes (1970, 1971 e 1973) e uma Bola de Ouro (1971, que foi entregue apenas em 2013). Numa época de importância sem igual dos torneios estaduais, Dirceu venceu nove, de doze edições que disputou no campeonato mineiro (penta 65-69 e tetra 72-75).

Como torcedor declarado da Raposa, Dirceu recusou caminhões de dinheiro de Fluminense, Corinthians, Vasco, São Paulo, Sporting de Portugal e do Santos, em 1974, após a saída de Pelé. Neste último intento, Pelé endossava junto a sua diretoria sobre o substituto ideal: Dirceu. A cúpula celeste acertou todos os detalhes e Dirceu preferiu ficar na Toca da Raposa e consolidar-se como o maior camisa 10 da história da celeste.

Foto: Reprodução.

Notas

[1] BLANK, Pedro. O príncipe: a real história de Dirceu Lopes. 1ª ed. – Belo Horizonte: Asa de Papel, 2014, p. 314.

[2] BLANK, Pedro. O príncipe: a real história de Dirceu Lopes. 1ª ed. – Belo Horizonte: Asa de Papel, 2014, p. 337.

[3] https://www.youtube.com/watch?v=LJd6DpKT9oo

[4] TOSTÃO. Tempos vividos, sonhados e perdidos: um olhar sobre o futebol. 1ª ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 49.
(Ver também: https://www.ludopedio.com.br/arquibancada/tostao-lembrancas-e-digressoes-acerca-dos-5-titulos-mundiais-brasileiros/)

[5] https://www.youtube.com/watch?v=CabX30GYul0

Referências

DOSSE, François. O desafio biográfico: escrever uma vida. Tradução: Gilson César Cardoso de Souza. São Paulo: EDUSP, 2009.

Jornal dos Sports, Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

https://trivela.com.br/meu-time-de-botao-cruzeiro-de-1966-que-bateu-o-santos-numa-goleada-quase-humoristica/

Canal 100 – Cruzeiro 6 x 2 Santos 1966 https://www.youtube.com/watch?v=tmHvVFoiLB4

Canal 100 – Cruzeiro 3 x 1 Atlético 1968 https://www.youtube.com/watch?v=apLUPThCqcA

Depoimentos orais

Ademir da Guia sobre Dirceu: https://www.youtube.com/watch?v=lTxmSwgKD_0
Raul sobre Garrincha e Dirceu: https://www.youtube.com/watch?v=PpLzX6KE9s0
Documentário Esporte Espetacular: https://globoplay.globo.com/v/6512299/