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Dirigentes de futebol: vaidades, desejos, jogo

Alexandre Fernandez Vaz

“Vaidade”!, respondeu-me um jornalista esportivo há muitos anos, quando lhe perguntei o que levava um homem adulto a querer ser presidente de um clube de futebol. Embora eu pudesse considerar a paixão pelo clube, nunca deixou de me surpreender que alguém dedicasse tempo e energia a um empreendimento no qual as pressões são violentas e as chances de dar errado são enormes. Pensava, naquele momento, em dois casos, ambos de pessoas que havia conhecido. O primeiro era o de um amigo de meu pai, torcedor fanático de um dos times de Santa Catarina, que se dispôs por um curto período à tarefa de dirigir um clube falido. Fracassou, como era de se esperar, não sem antes ouvir a demanda do astro do plantel, a mesma que colocara a outros presidentes: o clube lhe deveria pagar o valor de uma correntinha de ouro que costumava levar ao pescoço, perdida durante uma partida. Esperava que, como de praxe, a posição paternalista dos dirigentes tradicionais prevalecesse. Prevaleceu.

Em outro clube, também em Santa Catarina, o presidente era, há décadas atrás, um professor de matemática de tradicional escola. Os alunos diziam que o carro velho e alquebrado do mestre era resultado de sua devoção ao time do coração, que drenava os parcos recursos de seu salário. Manifestava-se, na forma de galhofa, todo o ressentimento acumulado na relação entre mestre e jovens estudantes, dois dos pontos frágeis do primeiro indicados pelos últimos: paixão por equipe precária; professor exigente cuja matéria gerava dificuldades, mas mal remunerado e habitante de camada social inferior à das famílias que enviavam seus filhos ao colégio de elite.

Cresci me surpreendendo com os casos acima, mas também acompanhando trajetórias de dirigentes de grandes clubes do Brasil. No final dos anos 1970 eu lia na Placar sobre Francisco Horta, presidente do Fluminense que montara a Máquina Tricolor, time bicampeão carioca (1975-1976), e promovera os famosos troca-trocas entre os times do Rio que, renovados, se apresentavam com novas configurações a cada torneio. Horta contratara Roberto Rivelino, o Reizinho do Parque, injustamente responsabilizado pela derrota corintiana frente ao Palmeiras na final do Paulista de 1974. O grande adversário, Flamengo, seria dirigido nos anos seguintes por Márcio Braga e George Helal, responsáveis pelo timaço campeão de quase tudo entre 1978 e 1981. E, principalmente, pela formação do franzino Zico como atleta, dando condições para que ele se tornasse o craque que foi. “Atleta de laboratório” se dizia do Galinho do bairro de Quintino, atualizando-se o imaginário que contrapõe natureza e ciência no jogo de futebol. Zico, por sua vez, foi um competente dirigente de seu próprio clube e no Japão, não pôde ter o mesmo êxito no amado rubro-negro, derrotado pelas disputas políticas na Gávea.

Vicente Mateus, ex-presidente do Corinthians. Foto: Divulgação.

Se Riva ganhou seus primeiros títulos no Brasil pelo tricolor carioca, o Corinthians apenas em 1977 sairia da fila. A campanha teve Vicente Mateus na direção, figura folclórica que confundia nomes de jogadores, demitia treinadores ao bel-prazer, agia nos bastidores como poucos e sem constrangimentos. Fez presidente a esposa, Marlene, quando já não podia reeleger-se. Diz-se que Mateus contratou Geraldão Manteiga, atacante do Botafogo de Ribeirão Preto, por engano, já que o certo teria sido levar Sócrates para o Parque São Jorge, suposto erro corrigido poucos anos depois. O grande craque viria a se opor ao presidente que o contratara, fazendo dupla com o sociólogo Adílson Monteiro Alves, alçado a diretor de futebol da Democracia Corintiana.

Por falar no Timão, foi também por meio da leitura da Placar do final dos anos 1970 que entendi as relações perigosas entre a política institucional e a do futebol. A revista semanal, dirigida pelo corintiano Juca Kfouri, era crítica da gestão da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), cujo dirigente máximo era o Almirante Heleno Nunes. Estávamos em plena ditatura, cujo nascimento completa cinquenta e cinco anos no próximo 31 do corrente mês, e não era casual a posição militar do presidente da entidade. Em São Paulo mandava Nabi Abi Chedid, depois vice-presidente da entidade nacional, já sob a nova denominação de CBF. Deputado, foi um dos pioneiros da bancada da bola.

Bancada que, aliás, teve como um de seus grandes destaques Eurico Miranda, o primeiro presidente não português (mas filho de um) a presidir o Clube de Regatas Vasco da Gama, após mandar no clube por vários anos como diretor de futebol. Morto há poucos dias, Eurico foi deputado federal pelo Rio de Janeiro, mas sempre se disse representante não do estado, mas de seu time. O “deputado do Vasco” entrou para a galeria dos dirigentes bizarros do futebol carioca, estrelada também pelo bicheiro e patrono do Bangu Atlético Clube e da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel, Castor de Andrade.

Eurico Miranda, ex-presidente do Vasco. Foto: Divulgação.

Por mais que goste de futebol, suponho que nunca chegarei a entenderei bem por que alguém se dispõe, no Brasil e de maneira não profissional, a ser dirigente do esporte. Os que escolhem esse caminho demitem treinadores conforme a pressão de conselheiros e torcedores, emprestam fortunas aos clubes (nem sempre com a devida restituição), têm atitudes tresloucadas, mesmo quando são gente altamente gabaritada, crítica, sensata, até mesmo brilhante, como Luiz Gonzaga Belluzzo. Presidente do Palmeiras em 2009 e 2010, o economista e professor foi condenado em 2013 a pagar indenização ao ex árbitro Carlos Eugênio Simon, depois de tê-lo chamado de “vigarista, safado e crápula” durante seu primeiro ano de gestão. Diz-se que pagou sem reclamar, observando que o valor (R$60.000,00) seria o baixo preço da dignidade do hoje ótimo comentarista televisivo e que, na ocasião, era árbitro FIFA.

Costuma-se dizer que há dirigentes que enriquecem com o futebol. Sem me referir a eles, cujas razões para atuar no esporte são pouco nobres, lembro que desejo é desejo, e encontrar no futebol um lugar para sua realização é, em princípio, legítimo. Por outro lado, ao pouco ou nada fazerem para transformar o modelo amador de gestão, não deixam de viver na função tremendo exercício de narcisismo demarcado pelo discurso recorrente de que são abnegados pela agremiação que representam. Homens no jogo da vaidade, no jogo de futebol: infantes.

Ilha de Santa Catarina, março de 2019.