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Disputa de pênaltis: medos na disputa

Alexandre Fernandez Vaz

Para Otavio.

No início da carreira, atuando pelo Futebol Clube do Porto, sua segunda equipe como profissional, Diego Ribas foi um dos cobradores na longa disputa contra o Once Caldas pela Copa Intercontinental de 2003. O clube colombiano vencera a Libertadores ao derrotar o Boca Juniors. Jovem e irreverente, o Menino da Vila não apenas converteu a primeira cobrança da série, como foi expulso logo depois por provocar Henao, o goleiro adversário. Depois dele, outro brasileiro, Carlos Alberto, também teria êxito, ajudando o time azul e branco a vencer, depois de nove chutes para cada equipe, por oito a sete.

Há poucas semanas no Maracanã, desta vez atuando pelo Flamengo, Diego desperdiçou o primeiro pênalti de seu time na decisão pela vaga nas quartas de final da Copa do Brasil. Cobrou fraco e no meio do gol, facilitando o trabalho do bom goleiro Santos, do Athletico. Parece que o retrospecto de sucesso do meia-atacante não era dos melhores em sua atual agremiação, mas dispor-se a fazer a cobrança – ainda mais a primeira, como há tantos anos fizera pelo Porto –, não é incumbência que todos assumem.

É preciso ter coragem para assumir a responsabilidade de cobrar uma penalidade, mais ainda em uma disputa depois de jogo em que se decide título ou mesmo a passagem para a fase seguinte de uma competição. A perna pesa, dizem muitos jogadores, assinalando também que a caminhada do meio de campo até próximo da marca de cal é das mais longas e demoradas que se pode ter no futebol.

A primeira disputa de pênaltis de que me lembro é a de uma das partidas semifinais do Campeonato Brasileiro de 1976. Em um Maracanã tão lotado quanto enlameado, Fluminense e Corinthians empataram em um gol no tempo regulamentar, gols de Carlos Alberto Pintinho para o Tricolor e de Ruço para o Timão. Na prorrogação tudo permaneceu igual e nos pênaltis a equipe paulista derrotou a constelação de craques de Laranjeiras: Rivelino, Carlos Alberto Torres, Pintinho, Doval, Edinho, Gil. Um timaço, que deveria ir à final contra o Internacional de Porto Alegre no Beira-Rio. Em seu lugar, viajou o entrosado e esforçado alvinegro.

É o acaso que leva uma equipe a vencer uma disputa de pênaltis? Não é. Houve empate, o melhor time não venceu no tempo que lhe coube, nem o mais frágil surpreendeu. Agora que se enfrente os nervos e que haja a concentração nessa jogada de precisão, como a classificava Nelson Rodrigues.

Em 1977 vi dois jovens desperdiçarem suas penalidades, interrompendo a ascensão de seus times. O primeiro foi Tita, que recém subira para os profissionais do Flamengo, que perdeu a final do Carioca para o Vasco. Conta-se que aquela derrota foi o ponto zero da construção do rubro-negro mais que vencedor dos anos seguintes. Os jogadores teriam se reunido para o jantar depois do jogo e dali saiu o pacto entre eles. No ano anterior, contra o mesmo Vasco, Zico perdera o seu na decisão da Taça Guanabara. Suponho que não foram mais que dez pênaltis, os não convertidos por ele ao longo da carreira.

O segundo foi um jogador da seleção brasileira juvenil (suponho que Guina, do Comercial de Ribeirão Preto, mas não tenho certeza) que viu sua cobrança chocar-se com o travessão do goleiro mexicano, na semifinal da primeira edição do Mundial da categoria, jogado na Tunísia. O torneio acontecia na África no âmbito da política expansionista de João Havelange, então presidente da FIFA. Favorecidos pelo fuso-horário, meu irmão e eu assistíamos aos jogos à tarde, e na seleção treinada por Evaristo de Macedo estavam jogadores que fariam sucesso no futebol, como o atacante Baltazar, um dos primeiros Atletas de Cristo, e o zagueiro Juninho Fonseca, da Ponte Preta, que atuaria ainda pelo Corinthians. Ambos passaram pela seleção brasileira adulta.

Momento da cobrança de pênalti de Alexandre Pato com cavadinha e em seguida defesa fácil de Dida. Foto: Reprodução/SporTV.

Vi o Corinthians vencer o Mundial de 2000, no Rio, contra o Vasco, quando Dida defendeu uma das cobranças. Ele que pouco pôde fazer naquele mesmo ano contra o Palestra, na semifinal da Libertadores (Marcos cresceu como poucos durante a competição e naquela noite defendeu a cobrança de Marcelinho). O mesmo Dida que no ano anterior impedira duas vezes no mesmo jogo que o são-paulino Raí marcasse de pênalti. Anos depois, o goleiro, desta vez pelo Grêmio e contra o Corinthians onde fora multicampeão, não teve dificuldades para evitar o gol de Alexandre Pato que, em pueril cavadinha, chutou alto, no meio do gol, lentamente. Um atacante, que como já destacou Sérgio Settani Giglio[1] aqui no Ludopédio, nunca chegou a alcançar todo seu potencial.

A disputa de pênaltis do Corinthians contra o Fluminense, em 1976, foi a mais emocionante a que assisti. Tanto quanto ela, no entanto, houve outra, um ano depois. Ao reler o breve romance Die Angst des Tormanns beim Elfmeter (O medo do goleiro frente ao pênalti), de Peter Handke, lembro-me da ocasião. Criança, vi meu irmão, mais velho que eu, apresentar-se para a primeira cobrança em um torneio estudantil. Bateu com confiança, no canto direito do goleiro, a bola morreu na rede depois de tocar a trave. Meus medos se foram naquele exemplo.

Florianópolis, agosto de 2019.

Nota

[1] https://www.ludopedio.com.br/arquibancada/esperancas-e-frustracoes-futebol-ou-o-que-poderia-ter-sido/