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As diversas faces de Sócrates – De corintiano a gênio dos gramados – Parte I

Max Filipe Nigro Rocha
Reprodução: Poster de Placar nº542, p.42

Reprodução: Pôster da Revista Placar, nº542, p.42.

Mais conhecido no Brasil do que seu homônimo grego, Sócrates Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, o Magrão, o Doutor, ou apenas Sócrates, talvez tenha sido um dos primeiros jogadores “modernos” e o último dos futebolistas “românticos”. Explico.

Sua perspectiva romântica, reforçada pela boemia, pela recusa em assumir a perspectiva tradicional de jogador de futebol e pelo espirito inquieto e questionador encantava seus contemporâneos – entre eles Juca Kfouri – e sugeria uma possibilidade de alteração das relações de força que cercavam o mundo do futebol. Um novo tipo de ator político surgia.

Já sua modernidade pode ser observada na sua originalidade de unir as demandas específicas dos jogadores de futebol às reivindicações populares por abertura política no início dos anos 80. As pautas já conhecidas da Democracia Corinthiana, a saber: abolição da obrigatoriedade da concentração, a implantação do voto nas decisões internas que envolviam os jogadores e a ruptura das relações tradicionais de autoridade no clube, além da racionalidade e da frieza anunciada pelo Doutor propunham uma radical ruptura à massa alvinegra.

Sócrates encarnava o espírito inovador ao propor um novo pacto com a torcida por meio de um jogo cadenciado e uma relação que rompia com a dicotomia clássica de amor ou ódio que por vezes devorava os profissionais da bola. A trajetória dessa relação foi mediada sistematicamente pela Revista Placar e seu então editor-chefe, Juca Kfouri. Sua ativa participação na campanha das Diretas-Já também apresentava um novo papel dos jogadores que politizavam os gramados na condição de agentes políticos.

A cobertura da revista a respeito da trajetória de Sócrates no Corinthians tinha como objetivo legitimá-lo frente à nação alvinegra e se encontrava inserida em um projeto mais amplo do semanário esportivo, que tinha por objetivo implantar uma reforma modernizadora capaz de – simultaneamente – resgatar o futebol-arte enquanto essência do futebol brasileiro e modernizar as arcaicas estruturas administrativas do esporte nacional.

No que diz respeito a Sócrates, sua imagem de jogador frio do time e exemplo de racionalidade precisava ser adequada à mística alvinegra, processo que Placar se encarregaria de desenvolver tanto por meio de suas reportagens quanto pelas fotografias. Portanto, a reelaboração da figura socrática e consequentemente do significado do corintianismo exigia uma ruptura de paradigma que permitisse que o time passasse a apontar os rumos que a massa torcedora deveria seguir.

É nesse viés que pouco a pouco o semanário buscava construir a imagem do jogador de acordo com os pré-requisitos alvinegros. A renovação de Sócrates anunciada em letras garrafais na capa da revista com a seguinte frase: “Fico porque amo a fiel” (PLACAR, nº 530, 27/junho/1980) apresentava o início desse processo. Em matéria interna dirigida por Juca Kfouri, buscava-se a construção de um elo entre a torcida sequiosa por um ídolo e o craque sem torcida, no qual o famoso jornalista esportivo reconhecia que “o craque […] além de cabeça, tem muito coração. (PLACAR, nº 530, 27/junho/1980, p.3).

Assim, pouco a pouco o Doutor aproximava-se do modelo de jogador ideal projetado pela publicação esportiva. Embora o artifício de fantasiar os jogadores fosse recorrente nas páginas do semanário, Sócrates foi sem dúvida o indivíduo que mais se dispôs a interpretar novos papéis que ajudavam a realocar a posição dos jogadores de futebol na sociedade. De governador do Estado de São Paulo a Imperador D. Pedro I, passando pelo Pensador de Rodin e violinista da orquestra alvinegra, era na condição de um simples aposentado que o craque estreava nos palcos placarianos.

 

Doutor e Corintiano

Apresentado como um recatado avô de 50 anos, homem de posses, médico e professor de medicina entusiasmado com o direito ao voto, a projeção da revista deslocava a imagem do jogador de futebol de sua posição tradicional ao mesmo tempo em que apresentava Sócrates em uma perspectiva mais humana e palatável para os torcedores.

Reprodução: Placar nº555, p.18-19

A especulação a respeito do futuro do jogador – que assumia a condição de médico, professor e agente político ao reivindicar a participação na política institucional – aproximava-se da imagem do novo jogador de futebol anunciada pela publicação conforme discutido previamente. A fotografia feita em estúdio caracterizando-o como médico de cabelos grisalhos – com avental, receita médica, placa de identificação constando nome completo e o título de Doutor – atribuía a Sócrates um status social até então renegado aos boleiros da época. Alçado à condição de futuro profissional da saúde e docente, o agora intelectual socrático recebia o aval da revista para se posicionar politicamente sobre os assuntos cotidianos.

Em paralelo ao processo de elaboração da imagem do boleiro enquanto porta-voz da categoria profissional, o semanário desenvolvia uma campanha que permitisse à massa torcedora reconhecer no craque socrático a alma corintiana tão desejada. A crise de hegemonia reconhecida e estimulada pela revista necessitava de um agente que causasse a ruptura definitiva com o modelo administrativo avaliado como atrasado. Reconhecido como craque, o Doutor seria capaz de arregimentar em torno de si um novo consenso e consequentemente a formação de uma nova hegemonia liderada pelos tecnocratas modernos. Contudo, seria apenas a partir do momento em que o boleiro fosse reconhecido como representante e portador-mor da essência corintiana que ele poderia assumir a condição de ídolo e então angariar tal apoio.

É com essa finalidade que a publicação esportiva direcionava o seu olhar para as atuações do jogador que remetessem ao tradicional modelo de futebol praticado no Parque São Jorge. Gesticulando, disputando com os adversários em divididas e correndo atrás de bolas quase perdidas, o Doutor alvinegro incorporava simultaneamente o papel de guerreiro, líder, craque e mais um louco do bando alvinegro a ponto do semanário esportivo anunciar que o Timão tem mais um fiel em campo. (PLACAR, nº 539, 29/agosto/1980, p.2). No que tange à representação imagética do Doutor nas páginas do semanário, é fundamental apontar o gradativo desaparecimento das fotografias que sugerissem a presença do futebol-arte por meio de jogadas de efeito como um drible ou um característico toque de calcanhar. Em seu lugar, Sócrates aparecia em cenas nas quais a disputa de bola, a comemoração dos gols e a integração com a torcida fossem o foco principal.

A nova condição do jogador enaltecida pela publicação esportiva permitia que ele fosse renomeado como “Dr. Sócrates Corintiano Sampaio de Souza Vieira de Oliveira”, agora ídolo devidamente reconhecido pela torcida.

Reprodução: Placar nº 545, p.22-23

Finda a primeira etapa de reelaboração da imagem do jogador na medida em que agora o craque já era reconhecido como ídolo da fiel torcida, o projeto de Placar podia finalmente encontrar uma possibilidade concreta de consolidação. Escolhido a dedo pela publicação, Sócrates oferecia um rico material passível de assimilação e recriação por parte da revista. Seu caráter questionador e crítico, que apontava as deficiências da estrutura administrativa do futebol e sugeria uma possível conciliação entre a gestão empresarial e a prática democrática se encaixavam com perfeição no modelo proposto pelo semanário que, a partir de então, se encarregava de oferecer todo o espaço possível a seu porta-voz, além de enaltecê-lo sempre que possível.

 

Doutor-Pensador

Antes de ser alçado à condição de agente político, o ídolo corintiano deveria ser revestido e reconhecido como gênio dentro e fora dos gramados. Nessa medida, podemos constatar a aproximação constante que a publicação esportiva fazia entre Sócrates e Pelé. A comparação com o Rei do futebol pela Placar oferece-nos a exata dimensão da projeção de sua figura, que reconhecia nas ações do jogador alvinegro tanto os elementos constitutivos do novo jogador de futebol quanto a reencarnação do talento e da genialidade do eterno camisa 10 da seleção brasileira.

Em 1970, maravilhado com as genialidades de Pelé na Copa do Mundo, o poeta argentino Horário Ferrer […] dedicou-lhe um poema que a certa altura dizia: “E gols, tche, gols para pôr num quadro e guardar […] Se estivesse entre as 43 mil pessoas que tomaram o Beira-Rio no domingo – entre as quais 100 enlouquecidos – Horácio Ferrer por certo se lembraria de seu verso e mais certamente ainda sentiria ânsia de se repetir ao ver o gol de Sócrates (PLACAR, nº 616, 12/março/1982, p.8) (grifo nosso).

No entanto, era a genialidade extracampo que o semanário fazia questão de destacar, pois abriria caminhos para atribuir a Sócrates o futuro papel de representante político da proposta de modernização defendida. As declarações dadas pelo craque socrático expressavam uma concepção de futebol muito próxima daquela defendida por Placar, fato que permitia que a revista se reconhecesse nas palavras do jogador-pensador. O ataque direto feito pelo jogador aos antigos dirigentes, apontados como responsáveis pela fragmentação entre corpo e alma dos profissionais da bola, e o reconhecimento do desvirtuamento que o futebol sofria, cada vez mais distanciado da concepção de espetáculo – de futebol-arte –, encontrava uma acolhida calorosa por parte do semanário que travava uma batalha incessante em nome de uma reforma da estrutura administrativa do esporte em questão.

No que diz respeito ao embate entre emoção e razão, entre raça e classe, Sócrates também expressava a possibilidade de reformular a imagem do jogador de futebol. Embora houvesse alguns desencontros entre as duas leituras em questão, o depoimento socrático caminhava na mesma direção proposta pela publicação esportiva uma vez que se propunha a repensar os elementos constitutivos da identidade alvinegra.

Se as críticas do Doutor à estrutura administrativa do futebol e ao engessado padrão de comportamento esperado dos integrantes da equipe do Parque São Jorge encontravam eco na filosofia placariana, a defesa que o jogador fazia a respeito da possibilidade de conciliar a abertura democrática e a gestão empresarial era a cereja do bolo que faltava para que a revista passasse a reconhecê-lo como pensador.

Nesse contexto, a figura do craque passava a ser encarada como um produto portador de qualidades de ambas as correntes e, portanto, o amálgama ideal entre a arte e a empresa, conforme anunciava o famoso publicitário Washington Olivetto: – Acho que [Sócrates] está entre os cinco maiores jogadores do mundo, tecnicamente. Com a vantagem de ter um tipo físico, um design, que favorece a divulgação de sua imagem […] (PLACAR, nº 643, 17/setembro/1982, p.26) (grifo nosso).

A postura do jogador alvinegro ao reconhecer que o novo modelo de gestão do clube do Parque São Jorge seria capaz de salvaguardar o talento nato dos boleiros brasileiros se coadunava com a leitura que Placar tinha da questão. A administração empresarial garantiria a preservação da arte nacional na mesma medida em que apontaria a direção rumo ao desenvolvimento futuro. Ao mesclar emoção e razão, Sócrates e Placar criam ter descoberto o Santo Graal que garantiria a salvação do futebol brasileiro por meio do resgate do feitiço perdido. Com isso, a tragédia do Sarriá na Copa de 1982 não passava de um interregno soturno que por um breve instante ofuscou a epifania do futebol-arte, mas não devia colocar em dúvida qual a trajetória a ser seguida no futuro pela seleção nacional e pelos clubes.

Devido à capacidade de costurar novamente o punhado de retalhos em que a identidade futebolística nacional havia sido transformada depois da derrota na Copa da Espanha, Sócrates podia ser retratado pela publicação como “O pensador”, de Rodin. Em reportagem intitulada de “Como vemos nossos ídolos”, o craque alvinegro aparecia encenando a posição clássica da famosa estátua entre outros tantos profissionais da bola.

Reprodução: Detalhe de Capa de Placar nº 681

Diferentemente dos demais jogadores retratados, Sócrates era o único a interpretar uma característica alheia ao universo do futebol e assim o Doutor rompia mais uma vez o quadro tradicional de representações do esporte em questão.

Como pensador, a representação produzida por Placar era o ponto fora da curva que sugeria uma rearticulação dos significados já cristalizados. Único personagem da reportagem que se apresentava vestido com o uniforme de jogo completo – de chuteiras, inclusive –, ele simbolizava a inversão de sentidos e a modernidade propiciada pela ascensão do novo grupo de dirigentes esportivos e da consequente consolidação da Democracia Corintiana por parte dos jogadores alvinegros.

Ao vestir a camisa do Corinthians e assumir a condição de intelectual, o craque adquiria – de acordo com a revista – o reconhecimento de ser um agente político em campo já que conciliava a reflexão e a ação e, portanto, era qualificado para interferir no desenvolvimento ulterior do esporte nacional. De acordo com o semanário, Sócrates era o único profissional que tinha suas reais características expressadas na reportagem em questão: Nome de filósofo e pose de pensador […] Sócrates é exatamente o que aparenta ser. […] um gênio. (PLACAR, nº 681, 10/junho/1983, p.19) (grifo nosso).

[Continua…]