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Do amadorismo à profissionalização: de 1930 até hoje

Marina Oliveira de Almeida

A década de 1930 marcou o momento do reconhecimento oficial da profissionalização do futebol no Brasil. Foi nesse período que o futebol ganhou maior expressão e deixou de ser apenas lazer, permitindo que uma minoria ganhasse a vida através do futebol.

Nos anos anteriores a profissionalização do futebol o que se observava no Brasil era a insustentabilidade do futebol amador. Os jogadores eram pagos de maneira informal para se dedicar apenas ao futebol. Esse período ficou conhecido como amadorismo marrom, e se caracterizava por uma briga constante entre amadoristas e profissionalistas. A questão principal que se colocava no momento anterior à profissionalização do futebol era o aumento do nível dos campeonatos e consequentemente a busca por melhores jogadores para seus escretes. Entretanto, para trazer e manter bons jogadores, os clubes deliberaram, de maneira oculta, que o caminho para a manutenção de um futebol de nível mais alto, era realizar algum tipo de pagamento em dinheiro para esses jogadores. Segundo Fábio Franzini,

Cada vez mais, a necessidade de vitórias era questão de sobrevivência para os clubes, que se pegavam obrigados a atrair os melhores jogadores para seus quadros[…]. Isso não apenas implicou o estremecimento de barreiras econômicas, sociais e raciais que definiam um “perfil ideal” para os atletas, como disseminou por praticamente todos os clubes atitudes como a oferta de dinheiro e outras vantagens para aqueles que viessem a vestir sua camisa. A suposta essência do esporte, o amadorismo, era solapada pela realidade […]1.

Vila Izabel X Risco – Festival 9 de Julho – Campo do Baruel- Zona Norte. Foto: Cassimano – Flickr.

A briga entre amadoristas e profissionalistas se dava nesse aspecto, segundo os amadoristas, o futebol deveria ser praticado apenas por amor, apenas como hobby, para o deleite do praticante, pois o dinheiro corromperia o esporte. A palavra amador significa, inclusive, aquele que ama, nesse acaso aquele que ama o esporte, e não o faz para ganhar dinheiro. Para garantir esse amadorismo, eram realizadas buscas para confirmar que os jogadores possuíam outra profissão e recebiam por essa profissão, caso não fosse confirmado como profissional de outra área o jogador era retirado do campeonato.

Para driblar essas buscas, os clubes ajudavam seus jogadores a procurarem empregos, nos quais não precisariam trabalhar realmente, mas eram registrados, com a intenção de que passassem o tempo do suposto trabalho treinando. O futebol tinha uma grande dificuldade em se manter exclusivamente amador, porque na prática ele já era profissional. E “o futebol já não era mais um simples esporte praticado por amadores, o jogo ficava cada vez mais sério e disputado e, portanto, fazia-se necessário a criação de normas de profissionalização do esporte.”2

A necessidade da profissionalização foi surgindo juntamente com o prazer de ver o time jogar cada vez melhor, não se contentando com o amadorismo. Além disso, os próprios atletas não se contentavam com a situação de jogar como profissional e não ser profissional, o que contribuiu cada vez mais com a necessidade do esporte se profissionalizar.

[…] os atletas percebiam muito bem, e não aceitavam mais a situação contraditória que viviam no início da década de 1930. Mesmo que fizessem do futebol sua única profissão, o que era cada vez mais comum, eles não dispunham de qualquer garantia formal que lhes permitisse exercer seu trabalho com segurança e tranquilidade.3

Mesmo que a pressão para a profissionalização fosse grande, por parte dos clubes que tinham interesse nisso e também por parte dos jogadores como dito acima, ela não era realidade em todos os clubes de futebol no Brasil, pelo contrário, essa briga era de uma minoria de clubes, mas clubes com grande expressão. Os clubes que se mantiveram como amadores após a profissionalização, não fizeram necessariamente uma escolha, muitas vezes sequer tiveram opção, prosseguiram como amadores, pois não teriam condições de bancar o profissionalismo.

Pensando na cidade de São Paulo, esses clubes que permaneceram no futebol amador, foram empurrados para as várzeas e periferias da cidade, prejudicando não só dessa forma o amadorismo. Com a crescente profissionalização do futebol, a demanda por pés-de-obra cresceu de forma contundente, a ponto de prejudicar os clubes amadores com a saída desses jogadores para atuar no futebol profissional. O que podemos observar é que o futebol de várzea passou a ser a alternativa de manutenção do futebol não profissional, passou a ser a alternativa de quem gostaria de manter um trabalho que não estivesse ligado à bola, mas sim dominá-la nos momentos livres.

Lama – Foto: Cassimano – Flickr.

Alguns clubes que se mantiveram amadores diante da profissionalização, e persistem amadores até hoje. É o caso do Esporte Clube Sampaio Moreira, que servirá de exemplo para analisarmos algumas peculiaridades do futebol amador da cidade de São Paulo.

O Sampaio Moreira foi fundado em 1929, em pleno amadorismo marrom, como um clube com poucos recursos para manter-se, segundo o histórico em seu site “seus fundadores não tinham dinheiro nem para a compra de um jogo de camisas. Sensibilizado pela rapaziada, o senhor Tomaz Aurichio4 ofertou o primeiro fardamento”5. O clube não considerou, no momento da oficialização do profissionalismo, se tornar profissional, pois estava ainda se estabelecendo como clube amador. Localizado na zona leste da cidade de São Paulo, o clube já foi considerado um dos melhores da cidade de São Paulo, e teve seu auge no futebol de campo nas décadas de 1940 e 1950, guardando diversos troféus e taças na sede social do clube. O nome do clube faz referência a um grande proprietário de terras do Tatuapé, o qual doou o terreno para a sede do clube, sede que se mantém até hoje.

Atualmente, o Sampaio Moreira mantém o futebol de campo apenas para amistosos, não participando de nenhuma liga de futebol de várzea. Segundo, o seu Alcídes, secretário do clube, o time não participa de nenhuma liga de futebol varzeano, a Copa Kaiser é um exemplo mais próximo, porque fica muito dispendioso ao time.

Aqui é necessário repensarmos até que ponto essas competições são completamente amadoras. Se ser amador no esporte significa apenas que o jogador tem outra profissão, podemos inferir que essas competições se encaixam nesse parâmetro. Entretanto, se pensarmos que a circulação de dinheiro dentro do torneio é muito grande, impedindo inclusive a participação de alguns times, é preciso repensar o amadorismo contido ali. Realmente acredito que os jogadores joguem por amor, por amor à camisa, por diversão e deleite, sem pensar sobre todo esse dinheiro que circula, mas até que ponto essa organização não se amparam nos moldes do profissionalismo?

A copa é extremamente lucrativa para a Kaiser, para divulgação da marca, que não tem condições de se inserir no futebol profissional brasileiro, já que esse é quase uma “propriedade” da Companhia de Bebidas das Américas (AmBev). A alternativa foi procurar o futebol amador, no qual não há a proibição de se beber na arquibancada. Segundo uma notícia do Portal UOL, sobre a Copa Kaiser,

Em 2012, a marca gastou R$ 6 milhões no torneio, entre organização de seis etapas regionais (São Paulo, São José do Rio Preto-SP, Blumenau-SC, Curitiba-PR, Porto Alegre-RS e Belo Horizonte-MG), e uma final nacional, além de ações de ativação de patrocínio. O negócio é tão bom que até mesmo a troca de donos não afetou a competição: em 2010, a cervejaria holandesa Heineken comprou a marca Kaiser da mexicana Femsa e o investimento foi mantido. 6

Observa-se que o investimento é alto, e não se pretende deixar de investir, o que nos permite concluir que existe um retorno financeiro à empresa bastante considerável. Não que isso seja um problema, mas voltando a pensar no caso do Sampaio, que não pode disputar a competição porque teria que investir mais no time, e não possui condições para tanto, a Copa Kaiser pode significar muito mais financeiramente à organização do que o amor ao futebol de várzea.

Entretanto, não há somente um lado financeiro visto nessa situação, a Copa Kaiser é bastante importante para os times da várzea, é um dos poucos campeonatos que possuem uma organização regular, que valorizam bastante o futebol de várzea. Segundo a gerente de marketing da Kaiser, Vanessa Brandão, eles estão presentes no futebol de verdade, aliando futebol e cerveja,

Futebol e cerveja andam sempre juntos. Diferente de se associar a um campeonato profissional ou aos times profissionais, nós estamos no futebol de verdade. Se a gente se posiciona como a cerveja de verdade, a gente também que estar com o futebol de verdade. Da várzea saem talentos para o futebol de todo o mundo. A cada ano, pelo menos seis jogadores saem de times da Copa para equipes profissionais, do Brasil ou de outros países. A marca abraça essa causa por acreditar nesses valores. É aqui que acontece o futebol de verdade, é aqui que estão as pessoas de verdade, onde está o momento de beber cerveja. 7

Torcida no jogo E.C. Verona (Cid. Tiradentes) X Titanus (Guainazes), Zona Leste – SP – Foto: Cassimano – Flickr.

A fala da gerente traz mais uma questão para ser abordada, a saída de jogadores para os times profissionais. Não é essa, teoricamente, a finalidade de um campeonato amador, mas o que se vê aqui é que é uma constante a profissionalização de jogadores amadores. Algo que foi visto fortemente no início da profissionalização em São Paulo, se repete até a atualidade. Esses jogadores jogam por amor à camisa e ao futebol, mas caso apareça a oportunidade de se profissionalizar, é esse o caminho seguido por alguns deles.

Pode-se observar que há uma série de relações entre o futebol amador e o futebol profissional, mesmo que a intenção seja mostrar-se diferente e valorizar o dito “futebol de verdade”, a Copa Kaiser, principalmente em sua organização e aspecto financeiro, se pauta em exemplos profissionais.

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[1] FRANZINI, Fábio. Corações na ponta da chuteira – capítulos iniciais da história do futebol brasileiro (1919 – 1938). Rio de Janeiro, DP&A, 2003. p. 60-61

[2] BERTUOL, Mayara Karoline; CALÇADO, Danilo. A profissionalização do futebol. São Paulo, 2010.

[3] FRANZINI, Fábio. Corações na ponta da chuteira – capítulos iniciais da história do futebol brasileiro (1919 – 1938). Rio de Janeiro, DP&A, 2003., p. 62.

[4] Em conversa com o secretário, ele disse que esse era um morador da região do Tatuapé que ficou bastante ansioso com a vinda de outro time para a região, e colaborou como clube no inicio, não só com o jogo de camisas.

[5] Retirado de http://www.sampaiomoreira.com.br/ Acesso em 12 de dezembro de 2012.

[6]Noticía do dia 27 de novembro de 2012, retirado de
http://esporte.uol.com.br/futebol/campeonatos/copa-kaiser/ultimas-noticias/2012/11/27/varzea-vira-alternativa-no-mercado-cervejeiro-para-lutar-contra-monopolio-do-futebol-profissional.htm Acesso em 13 de dezembro de 2012.

[7] Idem. Acesso em 13 de dezembro de 2012.

Como citar

ALMEIDA, Marina Oliveira de. Do amadorismo à profissionalização: de 1930 até hoje. Ludopédio, São Paulo, v. 42, n. 8, 2012.