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Do concurso Monroe ao craque do brasileirão: um melhor para chamar de seu…

Georgino Jorge de Souza Neto

No primeiro quartel do século XX o futebol se espraia pelo território brasileiro como uma mania incontrolável. Sendo a principal atração dessa “febre esportiva” – movimento assim denominado pelo historiador brasileiro Nicolau Sevcenko –, o futebol logo penetra no mais profundo do cotidiano, se enraizando como prática cultural fundante de um modo particular de ser do brasileiro, alcançando tentacularmente as muitas camadas da nossa sociedade.

Escapando ao controle da esfera da elite, que num primeiro momento assume não apenas a organização da modalidade no país, mas também reivindica para si a exclusividade da prática e do seu entorno (como torcida, fundação de clubes, entidades representativas, dentre outros), o esporte bretão logo se populariza por sua força inexplicável de expansão e adesão.

Neste contexto, o futebol se alia a uma série de estratégias para a configuração de um outro ordenamento societário, pautado em valores republicanos e modernos, cujos hábitos denotavam o pertencimento (ou não) a este novo mundo. O esporte, notadamente o futebol, se tornaria assim uma insígnia que alçava os sujeitos a uma condição singular no conjunto da dinâmica social.

Rapidamente as disputas de poder no espaço futebolístico corresponderiam às forças que atuavam sobre e para além dele. Ter o melhor time, o melhor jogador, possuir o melhor estádio, demarcava analogamente os pontos hegemônicos regionais (a mais pujante economia, as cidades mais desenvolvidas, os indivíduos mais civilizados). Esta emulação se concentrava numa perspectiva binária: o eixo Rio-São Paulo. No entanto, Minas Gerais requeria para si uma posição de destaque nestas disputas, se consolidando quase sempre como uma terceira força.

Tendo a recém-inaugurada capital Belo Horizonte como um espaço apropriado para as vivências da modernidade, os mineiros se esforçavam para concretizar a categoria de destaque e potência nacional.

No futebol este cenário não se constrói de outra forma. Rio de Janeiro e São Paulo protagonizavam o panorama futebolístico do país, angariando os mais importantes títulos e sendo a base dos escretes representativos do Brasil. Contudo, Minas Gerais sempre buscava participar com mais proeminência deste movimento, não se conformando com as sombras dos cariocas e paulistas.

Isto fica evidenciado quando, em 1930, a companhia de cigarros Veado realiza um concurso nacional: quem é o melhor footballer do país? A estratégia de publicidade da empresa enxergava no imenso alcance do fenômeno futebolístico uma forma de potencializar a comercialização das suas marcas. Para votar, o consumidor usava como cédula um maço vazio de qualquer cigarro da marca – como o modelo Monroe, que dava nome à competição. O prêmio era um carro “baratinha”, da fabricante Chrysler. Quem votasse também concorria a prêmios de até 7 contos de réis.

Russinho, do Vasco, premiado com carro, em 1930. Foto: Acervo Jornal do Comércio/Museu do Futebol.

O concurso faria inflar o ego bairrista das principais cidades brasileiras, cada qual tentando conquistar o título com o jogador representante de um dos seus clubes. A disputa, neste caso, colocava frente a frente o orgulho de se pertencer a um time, a uma cidade, a um Estado. Promovido pelos principais periódicos das cidades mais influentes do país, o certame teve alcançado o seu êxito, pela repercussão tomada. Explicado pelo periódico responsável pela sua organização em Belo Horizonte, onde lia-se:

GRANDE CONCURSO NACIONAL MONROE – Os fumantes dos afamados cigarros da CIA. VEADO vão eleger o leader dos foot-ballers do Brasil, votando no Grande Concurso Nacional “Monroe”, instituído por aquella Companhia e patrocinado pelo Diário da Noite, do Rio, Diário de São Paulo, Estado de Minas, de Bello Horizonte.[1]

Abaixo do anúncio, vinha estampado o cupom (que devia ser recortado e colocado nas urnas juntamente com um maço vazio)

Além de encher os bolsos dos comerciantes, a disputa trazia uma simbólica conquista: a do Estado que abrigaria o melhor jogador e, por conseguinte, do melhor futebol. Rio de Janeiro e São Paulo já vinham reivindicando tal posto, e a figura de Belo Horizonte parecia ser meramente decorativa. Mas o interesse dos mineiros não era menor, como anunciava o Estado de Minas:

Bello Horizonte quer mesmo que parta das nossas montanhas o melhor footballer mineiro. Aqui vêem vocês o redactor sportivo do Estado de Minas, Curtiss de Lima, entregando maços de cigarros Monroe aos festejados “players” Tupã, do America, e Ivo Mello, do Athletico, para que possam elles exercer o direito do voto. Edgard Vieira, conhecido juiz e chronista sportivo, o auxilia nesse trabalho.[1]

Contudo, o esforço do periódico local em eleger um representante do futebol belo-horizontino parecia não surtir efeito. Os resultados evidenciavam a força dos adversários cariocas e paulistas. Até mesmo dentro da cidade de Belo Horizonte a apuração surpreendia, pela distância do “player” carioca Russinho, que superara, em muito, os concorrentes dos clubes horizontinos. Na divulgação de uma parcial, de 10 de fevereiro de 1930, constatava-se:

O resultado desta apuração causava a revolta de muitos torcedores, indignados com a colocação dos jogadores dos seus clubes. Um deles externava este posicionamento, devidamente registrado pelo Estado de Minas:

João Rodrigues, o conhecido torcedor do Athletico, em conversa, hontem, com um nosso redactor, mostrava a indignação de que está possuído pela má vontade dos horizontinos para com seus jogadores. Emquanto os nossos astros como Mario, Tonico, etc. são relegados, os players cariocas obtem, nesta Capital, milhares e milhares de votos. – É o desprezo do que é nosso, disse Rodrigues.[1]

Para a lógica capitalista do jornal belo-horizontino, pouco importava o sentimento de pertencimento, ou bairrismo, dos torcedores. Para o periódico, dito por ele próprio, “aliás, aos votantes pouco se lhes dá votar nos cariocas ou mineiros; o que elles fazem questão é saborear o delicioso Monroe!”[2].

No entanto, embora fosse o concurso promovido pelo Estado de Minas, outros jornais também se arvoravam em emitir suas opiniões, não distantes do torcedor atleticano. Para a Folha Esportiva, em um artigo com o sugestivo nome de “Não é mais tempo de se ter modéstia”, os jogadores mineiros não poderiam ser preteridos em detrimento dos “players” de outras cidades, e afirmava:

A respeito de um concurso de football que por ahi se pratica, lemos há dias, em um jornal carioca, uma carta aberta em que um paulista incitava os seus conterrâneos com termos inflammados e bairristas, a levarem a ganho, no concurso, o nome de um dos jogadores da paulicéa, que elle considera os melhores do mundo. […] Aqui em Minas as cousas se passam diversamente. Os nossos torcedores não têm interesse nenhum pelos jogadores, mal pensando que estes movimentos os animam sobremodo. Milhares de votos poderiam ser dados a um jogador nosso, Ninão ou Souza, Mario ou Said, qualquer um emfim, e no final do concurso, embora elle não fosse vencedor, teria ao menos uma votação consideravel. Que será feito das milhares de carteirinhas de cigarros que aqui são vendidas por semana? Serão jogadas fóra? Não. Sabemos de fonte segura que são remettidas para o Rio e de lá vendidas aos cabos eleitoraes de Fortes ou Russinho, ou serão mandadas para Amado. É verdade que estes tres jogadores merecem o titulo de leader dos footballers brasileiros, mas é também verdade que os nossos jogadores não o merecem menos. É preciso que se deixe de parte a modéstia e se faça justiça, mesmo que, para isto, tenhamos que ter um forte regionalismo. Para nós os nossos jogadores têm que ser os melhores do mundo.

Fato é que nada disso seria suficiente para tirar do Rio de Janeiro e São Paulo a centralidade das votações. Por fim, Russinho (jogador do Vasco da Gama) venceu com 2.900.649 votos. Cerca de 6 milhões de maços Veado foram vendidos por causa da promoção.

Éverton Ribeiro, com o prêmio Craque do Brasileirão 2014. Foto: Rafael Ribeiro/CBF.

Quase nove décadas depois, o concurso “Craque do Brasileirão”, promovido pela rede de televisão detentora dos direitos de transmissão da maior parte dos campeonatos nacionais, renova a lógica da disputa de forças hegemônicas do futebol brasileiro. A disputa, que ocorre desde 2005, teve 14 edições e em apenas 2 delas o melhor jogador não foi do eixo Rio-São Paulo. Nas duas ocasiões, o meia Éverton Ribeiro foi o eleito, atuando pelo Cruzeiro Esporte Clube. Em seguida, o mesmo sai para o mercado árabe por dois anos e retorna ao futebol brasileiro contratado pelo Flamengo. Com exceção de três vencedores, todos os demais atuaram fora do país após o prêmio, sendo que mais da metade deles ainda permanece por lá. Ao melhor jogador, não mais uma baratinha Chrysler, mas um promissor contrato no exterior com um grande salário. Nem Minas, nem Rio ou São Paulo: o melhor do Brasil certamente não joga mais por cá…


[1] ESTADO de Minas. Belo Horizonte, p. 5, 13 fev. 1930.

[2] ESTADO de Minas. Belo Horizonte, p. 5, 13 fev. 1930.

[1] ESTADO de Minas. Belo Horizonte, p. 5, 04 jan. 1930.

[1] ESTADO de Minas. Belo Horizonte, p. 06, 02 jan. 1930.