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Do Estádio ao Estúdio

Tiago Rosa Machado

No dia 02 de abril deste 2012 o programa Roda Viva da TV Cultura recebeu o histórico narrador de futebol Silvio Luiz (para sermos justos com a percepção que ele mesmo tem de seu trabalho, mais correto seria rotulá-lo como “legendador de imagens”). Dentre várias respostas e declarações – mesclando análises críticas, histórias folclóricas e de bastidores e outras ideias gerais sobre futebol ou política – Silvio marcou sua opinião sobre um assunto bastante relevante que, não fosse a jocosidade com a qual abordou o tema, passaria desapercebido do público que acompanha e/ou gosta de futebol: as transmissões televisivas de futebol narradas a partir dos estúdios das emissoras. Para o narrador de 78 anos, a tendência crescente de narrações via estúdio, fundamentadas no combate ao alto custo financeiro que as narrações in loco despendem, implicam em uma sensível perda de qualidade analítica por parte daqueles que empunham o microfone e também diminuem o prazer proporcionado pela transmissão esportiva.

Silvio Luiz

Numa visão geral, parece-nos que a principal razão seja mesmo o corte dos altos custos que envolvem os deslocamentos dos profissionais. Entretanto, é fundamental perceber que o aparato tecnológico fundamental para a transmissão do jogo – com ou sem a presença de narrador, comentarista(s) e comentarista de arbitragem (para seguirmos o modelo adotado pela emissora hoje hegemônica no Brasil), além do repórter de campo que, mesmo com as narrações via estúdio é o enviado solitário para o local do jogo – é obrigatoriamente deslocado para as praças de jogo, seja pelas próprias emissoras ou via serviços terceirizados. A recente readequação dos espaços nos vários estádios que abrigam (e abrigarão) jogos das primeiras divisões do campeonato nacional, sobretudo com vistas a atender às mais modernas demandas do impositivo padrão FIFA, testemunham inegavelmente em nome da fundamental importância que as transmissões televisivas assumiram num futebol alçado à condição de espetáculo midiático globalizado, amplamente mercadorizado e fundamentalmente lucrativo. Em tempos de “Naming rights” e “Arenas Multiusos”, os obsoletos estádios já não comportam a demanda física e tecnológica necessária para transmissões de grande porte e o deslocamento ou não de três ou qautro profissionais a mais parece não ser o fiel da balança neste cálculo de cifras milionárias movimentadas pelo mundo do futebol.

Também é fato que as transmissões televisivas experimentaram um alargamento em sua cobertura nos últimos anos, abarcando a totalidade dos jogos das primeiras divisões nacionais e das elites dos principais campeonatos estaduais. No caso brasileiro, há uma proposital promiscuidade entre a emissora detentora dos direitos de transmissão, que opera em rede aberta, e os canais de esportes que a mesma mantém conjuntamente com o sistema pay-per-view na TV fechada, compartilhando os mesmos profissionais envolvidos na transmissão. Até o presente momento, no entanto, nas transmissões restritas aos canais de TV fechada há quase sempre o cuidado de realizá-las com duplas (narrador e comentarista) que trabalham diretamente dos estádios. Mas, registre-se, é uma tendência atual e, ainda assim, não absoluta.

Não podemos deixar passar desapercebido os positivos avanços conquistados com a ampliação das transmissões televisivas. Podemos citar as possibilidade de se acompanhar o time com o qual se tem afinidade, jogando ele em qualquer lugar que seja; também a produção de um extensivo registro documental das partidas disputadas, o que abre campo para análises técnicas, táticas e de desempenho, além da possibilidade de verificações mais fundamentais (paradoxalmente ainda tão falhas nos registros dos quais dispomos), como escalações, substituições, anotações de gols etc; além disso, tornou-se viável e mais acessível o emprego de técnicas de estudo dos jogos, seja por meio de medições operadas por softwares ou mesmo por organizações mais precisas de dados como posse de bola, chutes a gol, passes errados, faltas etc.

Um outro fator, aparentemente externo, que indiretamente impulsiona esse novo mercado televisivo são os crescentes avanços tecnológicos empregados na capturação das imagens, sua transmissão e decodificação nos mais modernos aparelhos televisores. Os novos equipamentos que operam em [full] HD e em 3D, juntamente com a digitalização dos sinais, literalmente adicionam novas dimensões à subjetivação torcedora, ainda bastante distantes de seu potencial exploratório e da apreensão dos estudiosos da área. Não raro é possível se deparar, até mesmo dentro dos estádios, com afirmações de pessoas que preferem assistir aos jogos pela televisão do que ir às praças nas quais ocorrem as disputas. É evidente que uma série de fatores envolvem tal predileção (desnecessário mencionar a falta de estrutura dos times para comercializar os ingressos, recepcionar dignamente o torcedor, proporcionar conforto, segurança, transporte eficiente etc), mas obviamente há nessas afirmações uma transfiguração da figura torcedora, acompanhada pelas formas de percepção e ação direta no entorno e no desenvolver do jogo, aspectos fundamentais do personagem torcedor ao longo de toda a história do futebol.

Outra percepção que nos parece fundamental é atentar que esse processo de ampliação do oferecimento das transmissões veio acompanhado de uma série de nuances que, ao mesmo tempo que se veem obrigados a dialogar com as tradições torcedoras, o fazem também de modo a determinar novos padrões e tendencionar comportamentos, sobretudo em relação ao torcedor que acompanha o futebol fundamentalmente via mediação televisiva. Toledo (2010) anotou recentemente algumas transformações nas manifestações do torcer, sobretudo a partir de uma série de políticas públicas e outras campanhas particulares adotadas pelos clubes após o episódio trágico do Pacaembu em 1995. Para o autor, essas ações vêm “acentuando uma postura mais individualizante e ‘mental’ ao ato de torcer”, forjando uma conduta que se cristaliza no “torcedor de poltrona”, em detrimento direto da emoção, da plasticidade e da corporalidade outrora amplamente encontradas nas arquibancadas. Evidentemente, tais processos estão intimamente conectados ao empoderamento exercido pelas emissoras de TV nas disputas políticas em torno do futebol.

Já quase não nos causa estranhamento a determinação dos horários de início dos jogos (como os jogos às 22 horas no meio da semana ou partidas aos sábados às 21 horas), a pulverização das partidas ao longo de toda a semana (com o início das séries A e B do Campeonato Brasileiro, à exceção das segundas-feiras, via de regra, teremos jogos em todos os dias da semana) ou mesmo os esdrúxulos amistosos da Seleção Nacional (quase sempre contra seleções sem grande representação no futebol mundial e disputados em locais ainda mais estranhos e convenientes somente aos interesses financeiros das obscuras partes envolvidas), além do desmantelamento da já capenga organização independente dos clubes em relação à negociação dos direitos de transmissão das partidas, agora realizada direta e hierarquicamente entre cada clube e a emissora de TV, que privilegia uns em detrimento de outros.

Com efeito, um expediente bastante contraditório utilizado nas transmissões da principal rede de TV brasileira é a sonorização de estúdio, ou, para sermos menos eufêmicos, as dublagem do som ambiente dos estádios. Ela pode ser empregada em diversas situações: quando se pretende deliberadamente “ouvir” o torcedor das arquibancadas, e já se tem de antemão o áudio que se quer veicular; quando algum grito vindo das torcidas faz uso de linguajar agressivo ou de baixo calão, ou até mesmo desrespeitoso em relação aos profissionais envolvidos na narração; ou então quando meramente trata-se de uma modulação das manifestações torcedoras aos padrões televisivos. Tal fato já foi verificado naquela que talvez seja a mais instigante sala do Museu do Futebol (instituição vinculada ao Governo do Estado de São Paulo, mas concebida e montada pela Fundação Roberto Marinho), a sala da Exaltação. Nessa sala, um ambiente de passagem, concebido como uma elevação entre os espaços do Museu, visita-se as entranhas do Estádio do Pacaembu, na qual se pode ver sair do solo os pilares que sustentam a arquibancada do frontão monumental, a única originalmente suspensa, já que as laterais apoiam-se no terreno escavado pelo vale que abriga o estádio municipal. Por entre os pilares, um emaranhado de telas e projeções foi montado, no qual se vê e se ouve uma seleção de torcidas empenhando seus cânticos juntamente com alguma gestualidade. Também nesse espaço a fundação responsável pela organização do museu optou por dublar os gritos dos torcedores para oferecer um produto mais palatável, de melhor audibilidade e mais adequado a alguns padrões predeterminados.

Fotografia da instalação Torcedores do Museu do Futebol – Eduardo Zárate (Flickr).

Por fim, uma ideia que parece congregar muitos destes elementos encontrados no estágio atual futebol brasileiro parece ser a da pasteurização de suas formas. Nela estão contidas a potencialização da mediação entre o torcedor e seu time por meio dos veículos de comunicação, as formas esperadas e circunscritas de interação com o torcedor, a imposição de uma padronização arquitetônica aos estádios que seja chancelada pela FIFA, a crescente elevação dos custos dos ingressos (como forma de produção de um corte de classes) e a consequente subordinação quase irrestrita aos anseios da detentora dos direitos de transmissão. Como bem observou Silvio Luíz, e na linha de seu raciocínio, os novos valores que se impõe desprezam uma visão mais aguçada, crítica e envolvida dos profissionais da mídia esportiva; consequência direta disso é a sensível diminuição do prazer envolvido na relação time-torcedor. Sinal dos tempos, estes novos valores são legitimados e, pouco a pouco, colocam em xeque os valores que outrora foram preponderantes.

Referências bibliográficas
TOLEDO, Luiz Henrique de. Torcer: a metafísica do homem comum in Revista de História, São Paulo, n. 163, p. 175-189, jul./dez. 2010.