116.17

Do lado esquerdo das cadeiras

André Uzêda

18 de outubro de 1998. O menino Antônio Felipe Vieira tem 11 anos e almoça com os pais, tios e um casal de primos no bairro do Campo Grande, reduto de classe abastada no centro de Salvador.

A cabeça passa ao largo do prato servido no dia. Ainda assim, sem muito entusiasmo, se propõe a devorá-lo.

Desprovido de qualquer habilidade bruxa para antecipar o tempo, o pequeno aguarda que aquele domingo salte depressa para as 17 horas. O horário reserva o início da partida entre Vitória x Flamengo, válido pela vigésima quinta rodada do Campeonato Brasileiro. Embora ligeiramente entediado, Felipe aguarda as horas que restam para o embate futebolístico com a certeza da tarefa bem executada.

No início da manhã finalmente conseguiu convencer o pai a levá-lo ao jogo. O tio Porto, companheiro inseparável das jornadas esportivas até o Barradão, resistiu de imediato.

Vai ser casa cheia, engarrafamento e possível confusão, ponderou, vicejando uma prudência natural.

***

5 de dezembro de 1993. Um ônibus apinhado de palmeirenses passa barulhento pelo Vale do Canela. Pela arquitetura do apartamento, o som dos beberrotes alviverdes invade primeiro o quarto de Antônio Felipe. O menino se inclina na janela do cômodo e exibe a camisa vermelha e preta. “Aqui é Vitória”, diz, sem dizer, apenas com o gestual.

As duas equipes rivalizam pela final do Campeonato Brasileiro. Os paulistas têm um elenco intergalático, com Roberto Carlos, Mazinho, César Sampaio, Zinho, Edílson, Evair e Edmundo, alguns dos quais seriam campeões do mundo no ano seguinte. Isso talvez explique a chinfra daqueles zombeteiros ali embaixo, ante um modesto Vitória, formado pelo talento de Alex Alves, Pichetti, Dida e Roberto Cavalo.

Enquanto sacode seu uniforme, modelo infantil, as mãozinhas do torcedor de seis anos se desprendem da fâmula que, bravamente, travou silenciosa trincheira na presunção palmeirense. A camisa desliza em zigue-zague pelos ares até sumir no vão escuro que separa o prédio da rua.

— Felipe, você deixou cair nossa camiseta da sorte?

Entra em cena Antônio Ribeiro Vieira. Até aquele momento ele assistia orgulhoso o espetáculo protagonizado pelo caçula. O menino leva seu primeiro nome. Uma ligação que deixa entrever o vínculo entre os dois.
O pai resolve montar uma força tarefa quando a camisa — ou melhor, amuleto — imprime fuga e parte rumo ao ignorado.

O pai e os dois irmãos mais velhos, Leandro e Vitor, descem para procurar o uniforme em operação tática terrestre. Cabe à mãe a execução aérea, munida de um binóculos e uma paciência de Jó até o resgate do ‘Soldado Ryan’ 100% poliéster.

 

O Vitória, para Antônio Felipe. Edição do vídeo: Daniel Teixeira

***

Felipe está sentado em minha frente numa mesa de madeira. Exibe uma calvície precoce para seus 28 anos.

Fomos colegas de escola católica, de irmãs Sacramentinas, entre o último ano de ensino fundamental até o segundo do médio. Quando o conheci, a história que marcaria profundamente sua vida estava a caminho de completar seu terceiro ano. A despeito do bom humor, sua marca registrada desde moleque, guardava um olhar melancólico de quem ressignifica sua existência após passar por uma experiência traumática.

Enquanto ele me conta, aos risos e gestos, como renunciou em 2010 a um último dia de micareta no Rio Grande do Norte para assistir ao confronto que poderia selar a permanência do Vitória na Série A, me ocorre um diálogo, um tanto quanto piegas, que há tempos li na graphic novel “Batman – Guerra ao Crime”.

“Não são tanto as tragédias que definem nossas vidas, mas sim as escolhas que fazemos para lidar com elas.”

Já marcavam vinte minutos que o árbitro paulista Paulo César de Oliveira havia iniciado o jogo quando Beto arranca da intermediária. O goleiro Sérgio abandona a meta para afastar o perigo e se choca com o zagueiro Reginaldo, do Vitória. Iranildo pega a sobra e, por cima, lança Romário. Impiedoso, o camisa 11 completa para o fundo das redes.

O Vitória joga com seu padrão tradicional, vermelho e preto. O Flamengo, de branco. O primeiro gol é dos cariocas, mas o menino não consegue conter um sorriso bobo de quem pela primeira vez assiste seu ídolo em ação. Romário marcaria ainda mais dois naquele jogo, sendo o terceiro com a fina estirpe de peito, findando o placar em 4 a 1. O sérvio Petkovic descontou para os baianos.

O Baixinho era uma unanimidade entre os garotos daquela idade. Grande craque da Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos, ganhou ainda mais notoriedade no imaginário infantil ao ser cortado do Mundial da França às vésperas da bola rolar em Saint-Denis, quatro anos depois. Com o fracasso daquele escrete nacional ficou no ar uma condicional bem particular, daquelas que costumam perseguir grandes desgraças. Como se um detalhe, uma pequena ação pudesse redefinir o caleidoscópio de infortúnios fadado a se abater sobre todos nós. Até hoje os mais incautos repetem a ladainha: “Se o Romário tivesse jogado aquela Copa…”

Romário fez um triplete na goleada do Flamengo sobre o Vitória. Foto: reprodução.

 
Antes mesmo de venerar o craque dos elásticos, Felipe teve um ídolo que dispensava o uso deles, mesmo que para modelar sua vasta cabeleira. Daquele time de 1993, da camisa amuleto e vice-campeão brasileiro, o atacante Pichetti era de longe seu preferido. E não só de gols e belas jogadas havia sido construída a inexorável idolatria.

Uma das primeiras lembranças que o garoto tem registrada no seu hipocampo cerebral é de uma partida em que deixou o estádio faltando cinco minutos para se findar o confronto.

O pai quis evitar o engarrafamento pós-jogo saindo com antecedência, mas, de forma premonitória, antes de ultrapassar o portão sentenciou: “O Vitória ainda vira esse jogo com um gol de Pichetti”.

Não fazia nem dois minutos que pai e filho haviam ganhado a rua quando um estrondo anunciou a virada rubro-negra.

Aos brados, o homem da rádio dirimia qualquer dúvida acerca do lapso paranormal ali materializado: “Goooool de Pichetti”, dizia pelas ondas do dial.

— Você acertou! Foi gol de Pichetti, pai.

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É até engraçado falar, mas o filho imaginou estar com o pai quando voltou ao Barradão. Foto: André Uzêda.

18 de outubro de 1998. Uma multidão de quase 24 mil torcedores deixa o estádio silenciosa, após a goleada flamenguista. Antônio Vieira não parecia dos mais tristes. Muito antes. Falava com alegria das habilidades do carrasco daquela noite.

Felipe acompanha o pai e o tio Porto — que acabou convencido pela dupla e embarcou na jornada, ignorando seus próprios apelos por precaução.

O resultado deixou os baianos com poucas chances de se classificar no Brasileiro, ainda disputado em formato de mata-mata, no qual apenas os oito melhores times da primeira fase migravam para a corrida final. O Vitória acaba de ser ultrapassado pelo próprio Flamengo e agora está em 11°, com 26 pontos. Dois a menos que o Atlético Mineiro, último na faixa de classificação.

Enquanto se encaminham para o carro uma confusão entre torcidas irrompe próximo a um ponto de ônibus. Antônio segura seu time e orienta uma estratégica parada em um bar, enquanto os brigões se desfazem e são contidos pela polícia.

Nascido em Conceição da Feira, a 120 km da capital, Salvador, Antônio era funcionário da Petrobrás. Tinha um gosto especial pela culinária e outro ainda mais apurado pelo futebol. Além de Vitória era também torcedor do Vasco da Gama — quando o Cruzmaltino venceu o Brasileiro de 1997, organizou uma bacalhoada para festejar o título.

Na Copa de 1998, viajou para acompanhar o Brasil em território europeu. Foi vítima de um golpe de uma falsa agência de turismo e não pôde assistir a estreia diante da Escócia. Antecipou sua volta antes da final e esteve ao lado do filho para consolá-lo quando Zidane desmantelou o sonho do penta em Paris.

Inventava mil formas de entreter os filhos e de se aproximar ainda mais deles por meio do futebol. Diante da impaciência dos meninos em chegar mais rápido ao estádio, brincava que a cada sinal vermelho que pegassem no caminho seria um gol do Vitória no escore final. Para fazer valer a superstição, muitas vezes brecava o carro diante de uma vacilante luz amarela só para garantir o tento imaginário. “GOOOOOL DO VITÓRIA”, gritavam os garotos ao leve toque no pedal.

“Hoje vai ser goleada”, continuava, satisfeito por ensinar direção defensiva aos ditames da pedagogia.

Naquela parada no bar, escanteou a conversa sobre Romário e falou sobre a família. Poderia ter falado sobre as eleições presidenciais, que consagraram Fernando Henrique Cardoso à reeleição inédita no dia 4 daquele mesmo mês. Ou sobre a estreia do blockbuster “A Máscara do Zorro”, com Antônio Bandeiras, marcada para dali a uma semana.

Mas não. Optou por elogiar a esposa e os filhos. Este não era o tipo de assunto que Antônio costumava ter na saída do estádio. Sorveu a bebida, pagou a conta e deu sinal para o grupo prosseguir, agora que o caminho estava mais tranquilo.

***

25 de agosto de 2015. Terça-feira à noite. O Vitória, líder, é o norte da Série B. O adversário é o Oeste, 11º colocado.

Felipe vai ao Barradão acompanhado do irmão Vitor e da cunhada, e encontra o amigo Fábio no caminho. Até a entrada topa com outros tantos torcedores que o interpelam mais de uma vez. A assiduidade lhe conferiu um posto de destaque entre seus pares.

— Vai ficar onde, cabeça?, pergunta um apressado.

— Do lado esquerdo das cadeiras. Me procure por lá, diz Felipe, enquanto retira seu cartão de sócio para vencer as catracas.

Ele gosta de assistir ao jogo em pé. No mesmo lugar que costumava ir com o pai. Cruza os braços e olha fixo para o retângulo verde, onde vê o rubro-negro penar para superar a retranca das linhas inimigas.

Nesse jogo, Felipe opta por não beber. Não quer desperdiçar o dia seguinte numa incurável ressaca quando precisa estudar para a segunda fase do exame da OAB, marcada para dali a duas semanas.

A superstição de ter um copo em mãos lhe faz pedir ao amigo que passe a cerveja durante um ataque do Vitória. Apenas para segurar o vasilhame de plástico. Vander despediça a boa chance do contra-ataque.

Antônio Felipe ao lado do irmão Vitor Vieira, em jogo no Barradão. Foto: André Uzêda.

— Uma merda dessas aí, mermão, nem segurando uma grade de cerveja, ri.
 
O Oeste, treinado por Roberto Cavalo, abre o placar numa falha do goleiro Gatito Fernandez. O Vitória só empata aos 27 do segundo tempo. Escudero bate escanteio e Rhayner desvia com a perna direita.

O jogo termina em 1 a 1.

Alguns torcedores ensaiam uma vaia. Felipe declina sua participação no coro.

— Vaiar pra quê? Série B não tem jogo fácil não. Vai ser assim até o final.

***

O Fiat Uno do tio Porto que os levaria de volta para casa já estava no campo de visão. Antônio vem abraçado com o filho poucos passos atrás do cunhado. Um estampido surdo ecoa no vazio. Surge uma gritaria. Felipe sente o peso do pai sobre seu corpo franzino. Não aguenta a carga e vai desmoronando, em câmera lenta, abraçado ao genitor.

Já no chão, o pai olha o desespero do garoto e pede “calma”. “Está tudo bem”, diz.

Há sangue em sua camisa.

Porto retira o carro para levar o homem ferido depressa até o hospital. É interpelado antes por policiais que o colocam em uma viatura. As sirenes abrem caminho na multidão. O Fiat Uno segue o comboio da diligência. Dentro do veículo, tio e menino não trocam uma palavra.

Em poucos minutos o carro chega até o Hospital São Rafael. Antônio Vieira é submetido a uma cirurgia imediatamente. Há uma preocupação especial dos familiares com Felipe. Ele presenciou todo o ocorrido está sob forte estresse emocional. Sugerem sua ida para casa para tomar um banho e descansar.

A exemplo da final do Brasileiro de 1993, quando, por iniciativa própria, resolveu fincar sua camisa na janela e responder a provocação dos paulistas, Felipe decide permanecer no hospital. Quer aguardar as notícias do seu companheiro de estádio.

Ao fim de quatro horas na mesa de cirurgia, o choro da mãe pelos corredores antecipa o pior. Antônio Ribeiro Vieira, de 45 anos, havia sido atingido um pouco acima do abdômen. No caminho de destruição, o projétil perfurou também uma ramificação da aorta — a mais providencial artéria do corpo humano.

O homem da camisa da sorte, dos gols premonitórios, aquele capaz de transformar até uma enfadonha regra de trânsito em diversão sai de campo prematuramente.

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A primeira noite é sempre a pior.

Ações frívolas regressivamente analisadas passam a ter um peso mastodôntico em relação ao que efetivamente tiveram na consumação da calamidade.

“Se não tivéssemos ido ao jogo…”

A ferida é coberta por uma fibrose de traumas.

“Me sentia culpado pela morte do meu pai. Fui eu quem tive a ideia de ir ao Barradão naquele dia. Isso me atormentou boa parte da minha vida.”

O garoto passa a ir regularmente ao psicólogo. E a mãe faz questão de doar suas camisas e outros adereços relacionados ao Esporte Clube Vitória. Em nome do fim da angústia do filho, sepultado junto ao corpo do pai, em Conceição da Feira, adormece também a paixão de Felipe pelo rubro-negro. É o caminho proposital que a mãe enxerga para aliviar suas contrições.

Como parte do processo de recuperação, detalhes sobre as circunstâncias que motivaram o disparo são ignorados pela família. A história ventilada diz que um homem tentou assaltar um taxista nas cercanias do Barradão e atirou em resposta à reação da vítima. Um dos mísseis sonegou o primeiro alvo para acertar um outro, inadvertidamente.

Outra variante interposta à época é de uma briga por pontos de drogas no bairro do Pau da Lima, endereço do estádio Manoel Barradas. Antônio foi vítima de uma bala perdida, precipitando uma modalidade que se tornaria tendência na Bahia na década seguinte.

Sem conseguir dimensionar o fato, uma espécie de marco fundador da violência em estádios baianos, os jornais dedicam poucas linhas sobre o assunto.

Correio da Bahia noticia a morte de Antônio Vieira. Foto: Reprodução.

*** 

O ano é de 2002. Felipe não era belo, mas havia mil garotas a fim.

No colégio, dá de ombros para as obrigações escolares e aposta na simpatia para amealhar fãs e admiradoras. Gasta tardes em rodas de paquera e organizando grupos de bate-papo pela internet — numa época que, discada, esta ferramenta ainda engatinhava em popularidade.

A relação intestinal com o futebol é relegada a mero apêndice de sua vida. Não usa mais camisas do Vitória. É acometido por uma estranha Síndrome de Estocolmo e passa a acompanhar o Flamengo — à distância, na conveniência da TV.

Leva uma vida sem maiores sobressaltos. Mas ainda incompleta. Como um marinheiro que, depois de sobreviver a oceanos agitados, se benze na perspectiva de um longo período em terra firme.

Lá pras tantas, a quarentena se torna insuportável. As mãos coçam. Quer um timão para guiar.

***

9 de junho de 2004. Quarta-feira. O tio Porto chama Felipe para uma conversa.

O Vitória está na semifinal da Copa do Brasil. Oficialmente, havia quase seis anos que o agora rapazote não ia a um estádio de futebol.

Oficiosamente, sem o conhecimento da mãe, aproveitou os anos de rebeldia adolescente para acompanhar ao lado de amigos alguns poucos Ba-Vis na Fonte Nova — estádio no centro da capital baiana.

O que o tio oferecia era uma oportunidade única. Uma chance de regressar ao Barradão. Muito daquela noite ensejava um acerto de contas com o passado.

O adversário era o Clube de Regatas do Flamengo. O mesmo da outra noite. A noite em que a vida lhe infligiu um peso que não estava preparado para suportar — que foi ao chão com o remorso da carga.

Felipe vestiu o manto com a estoicidade de um Bruce Wayne, transformando a orfandade precoce em motivação para uma capa e um capuz. Com os brios de um John Wayne ante os facínoras de western, arremata:

— Vamos, tio! Vamos classificar o Vitória nesta porra!

***

Os primeiros dez minutos no estádio são de lágrimas. Sobrinho e tio se abraçam e choram.

***

O Vitória perdeu aquele jogo por 1 a 0. Numa falha do goleiro Juninho. Uma semana depois, foi desclassificado no Rio de Janeiro.

Fatos menores.

O jovem de 17 anos abria caminho para libertar o menino de 11. Nos anos seguintes, na vida de Antônio Felipe, todos os caminhos passaram a levar ao Barradão. Aliás, quase todos.

Aquele onde seu pai foi assassinado é sumariamente ignorado com um rigor religioso. Cria novas rotas de acesso.

Cria também com seus amigos um grupo especial para acompanhar o acesso do Vitória, que no biênio 2004–2005 despencou da primeira para a terceira divisão. O nome é Leões Etílicos. O felino faz referência ao mascote do rubro-negro. E o adjetivo, bem, remete à quantidade de álcool ingerida durante as partidas.

— Conheci um cara chamado Fábio que virou um companheiro de estádio e, depois, um grande um amigo. Ele me incentivou a acompanhar todos os jogos do Vitória no Barradão. E não mais ir só em um ou outro. Passamos a viajar também para ver o Vitória fora de casa. Com os Leões Etílicos levávamos uma chopeira para dentro do estádio e bebíamos durante todo o jogo. Era uma festa.

O auge dos mamíferos beberrões é um Vitória x Remo em 16 de novembro de 2007. Felipe e Fábio organizam uma carreata para comemorar o retorno do Vitória à primeira divisão, ocorrida um jogo antes, na goelada por 4 a 1 sobre o CRB.

Encontro da torcida Leões Etílicos, fundada por Antônio Felipe (o primeiro em pé, na direita). Foto: arquivo pessoal.

 
O que era para ser apenas uma brincadeira despretensiosa toma corpo, copo e proporção. A carreata reúne dezenas de curiosos e, ao som do hino do Vitória, bloqueiam a Avenida Paralela — pista de maior velocidade da capital baiana.

Em clima de festa, numa simbiose pouco comum, Vitória e torcedor exorcizavam seus fantasmas. O clube se libertava das humilhações nas divisões inferiores do futebol brasileiro. Felipe redescobre no estádio a felicidade de amar seu clube.

***

31 de maio de 2009.

Faltava ao menino Felipe uma última etapa.

O Vitória vem da conquista de um tricampeonato estadual imbatível diante do rival. Começa o Brasileiro arrasador e enfrenta o Grêmio no Barradão.

O Leões Etílicos foi dissolvido há algum tempo. Felipe estuda direito e já estagia num prestigiado escritório de advocacia. Continua indo aos jogos ao lado de Fábio, mas já não tem tanto tempo para os compromissos da animada charanga.

Por algum motivo perdido na memória, o inseparável companheiro não pode ir naquele embate contra os gaúchos. O tio Porto também se ausenta. Aos 22 anos, pela primeira vez na vida, Antônio Felipe decide ir a um jogo só.

O Barradão de Antônio e Felipe. Foto: André Uzêda.

Desde que retomou o casamento com o rubro-negro, o futebol tem sido uma ação coletiva, radiada por festa, amigos e bebidas. Agora não. É um momento de introspecção. Um mergulho em si próprio. Na dimensão dos seus traumas. Hora de lamber suas próprias feridas. É só Antônio Felipe.
Antônio e Felipe.

“Senti uma calma tremenda ali naquela hora. Era um jogo nervoso. Tenso. Mas eu estava em paz. É até engraçado falar isso, mas senti como se meu pai estivesse ali do meu lado torcendo pelo Vitória também. Era como se ele estivesse ao meu lado me pedindo ‘calma’. Me senti bem.”

Esta é a história de um torcedor que sofreu um duro golpe na infância. Que fez, porém, de sua sua vida a mais bela exibição de uma partida de futebol. A história de alguém que soube virar o jogo.

Assim como o nome Antônio — no grego, “aquele de valor inestimável” — , o amor pelo Vitória foi o espólio deixado pelo pai ao menino. Um sentimento que precisou ser desenterrado do seu âmago. Ressignificado da desgraça para o milagre. Pai, filho e o Vitória. A santíssima trindade.

Felipe não deixou que a tragédia definisse sua vida, embora seus impactos sejam inegáveis. Ele resolveu fazer suas escolhas a partir dela.

Esta é a história do meu amigo, de quem muito me orgulho.

***

Antônio Felipe e seu pai. Foto: arquivo pessoal.

Aos 49 minutos do segundo tempo, Leandro Domingues domina uma bola fora da área e manda um petardo com veneno no ângulo do goleiro gremista. O Vitória vence nos acréscimos por 1 a 0.

É GOOOOOL DO VITÓRIA.

É GOOOOOOOOL DE ANTÔNIO FELIPE.

— Você acertou! Foi gol de Pichetti, pai.


Publicado originalmente no Puntero Izquierdo, que é uma revista digital de publicação de histórias de futebol.