114.5

Dois grandes cidadãos na luta antirracista

Marcel Diego Tonini

No mês de novembro que acabou de passar, tive a feliz oportunidade de ser um dos convidados para estar no “Fórum de Debate: Discriminação Racial no Futebol”, organizado pelo Museu do Futebol, no último dia 17[1]. Lá tive o prazer de reencontrar alguns amigos, como os pesquisadores Maurício Rodrigues e Roberta Pereira da Silva, a professora e militante Joice Aziza de Mendonça e o ex-jogador Bizi (Carlos Roberto Bento), que tanto me ajudou a refletir sobre racismo no futebol, em especial no mestrado[2]. Conheci, também, a simpática Fabiana Araújo Lima, produtora do Museu, e o ótimo mediador Fábio Mendes, jornalista que recentemente publicou o livro “Campeões da raça: heróis negros da Copa de 1958” (https://amzn.to/2KW6zAS). Se isso não bastasse, tive o imenso privilégio de conhecer pessoalmente e debater publicamente com dois grandes cidadãos que estão na luta antirracista, seja no futebol, seja na sociedade brasileira: Marcelo Carvalho e Silvio de Almeida.

Marcelo Carvalho é o principal responsável pelo Observatório da Discriminação Racial no Futebol. Em decorrência dos casos de racismo de grande repercussão nacional no ano de 2014, os quais envolveram os jogadores Tinga[3] e Arouca[4], e o árbitro Márcio Chagas[5], ele teve a ideia do projeto e colocou em prática no mês de maio daquele ano o Observatório, cujo objetivo é registrar, acompanhar e divulgar os episódios de racismo no futebol brasileiro. A partir da promoção de alguns eventos, ademais, busca também contar sobre a participação do negro na história desse esporte e discutir acerca das causas e das características do racismo à brasileira. Para tanto, convida pesquisadores, jornalistas, atletas e autoridades do esporte para participar desses encontros. O Observatório possui um site e divulga todo ano um relatório da discriminação racial no futebol[6]. Como forma de superar tal problema social exposto por essa modalidade esportiva, promove campanhas de conscientização, defende punições mais severas para os casos que se tornam públicos, e se propõe a pensar em mecanismos de (re)educação de atletas desde sua formação, e de cobrança junto às entidades responsáveis pela organização das competições e pela justiça desportiva.

Marcelo Carvalho, em palestra na UFRGS. Foto: Marcelo Carvalho/Facebook (reprodução).

Silvio de Almeida, por sua vez, é filósofo, advogado, mestre em Direito Político e Econômico, doutor em Filosofia e Teoria Geral do Direito, e pós-doutor pela Universidade de São Paulo. Além de professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie, na Fundação Getúlio Vargas e na Universidade São Judas Tadeu, é presidente do Instituto Luiz Gama, uma associação civil sem fins lucrativos, formada por um grupo de juristas, acadêmicos e militantes dos movimentos sociais, que atua na defesa de causas populares, com ênfase nas questões sobre os negros, as minorias e os direitos humanos[7]. Entre outros, é, ainda, autor do livro “O que é racismo estrutural?”, publicado neste ano pela editora Letramento. Sua relação com o futebol, no entanto, não advém apenas pelo gosto por esse esporte e pela possibilidade de se pensar o Brasil através dele, mas, sobretudo, pelo fato de ser filho de Barbosinha, goleiro do Corinthians entre os anos de 1967 e 1968. Silvio, portanto, conhece através da realidade vivida por seu pai o que é ser atleta negro no futebol brasileiro, em especial por ter sido goleiro[8]. Esta posição, como se sabe, é carregada de estereótipos racistas, exatamente porque o negro Barbosa, de quem seu pai herdou o apelido pela semelhança física, foi acusado como o principal responsável pela derrota brasileira na “final” da Copa do Mundo de 1950, disputada neste país.

Silvio de Almeida, quando participou como um dos entrevistadores no programa Roda Viva, da TV Cultura. Foto: Silvio de Almeida/Facebook (reprodução).

De modo a iniciar o debate, Fábio Mendes elaborou algumas perguntas para que abordássemos vários temas relacionados direta ou indiretamente com a questão racial no futebol. Para este texto, selecionei alguns tópicos abordados na discussão[9] e reproduzo algumas falas dos dois debatedores[10].

Ao solicitar que nós nos apresentássemos e falássemos de nosso envolvimento com a temática, Marcelo Carvalho discorreu sobre seu trabalho no Observatório da Discriminação Racial no Futebol, revelou como os números trazidos pelos relatórios produzidos têm ajudado na conscientização de atletas negros, argumentou acerca da importância do envolvimento deles e desconstruiu a falsa impressão do futebol como um espaço do paraíso racial no Brasil. Vejamos:

[…] Em 2015, a gente lançou o primeiro relatório anual da discriminação racial no futebol. […] Ele traz, por exemplo, que em 2014 houve 20 casos de racismo no futebol brasileiro. Quando a gente fala em casos de racismo, as pessoas vão se lembrar de três ou quatro casos. Vão se lembrar do caso do Aranha, que foi um caso que teve repercussão nacional. E, geralmente, se tem a impressão de que ninguém é punido. Então, o relatório vem para quebrar esse paradigma. De 20 casos de racismo em 2014, houve nove punições. Não foram todos os casos que foram punidos, mas houve punição. Isso mostra que existe alguém analisando esses casos.

E também serve, por exemplo, para, quando eu vou conversar com os atletas, mostrar para eles que é necessário que eles reivindiquem a punição. Aí uma vez eu ouvi um atleta dizer numa reportagem que ele não faria nada contra o caso de racismo que ele sofreu, afinal a sociedade vai dizer que ele é mais um cara que está fazendo vitimismo e que não acontece nada. Com o relatório, eu consegui mostrar para ele que houve punições. Consegui fazer com que esse atleta hoje, nas suas redes sociais, em todo caso de racismo dentro ou fora do futebol, vai lá nas páginas dele e fala, se manifesta.

Por que eu escolhi o futebol? Porque um atleta de futebol tem muita representação em nossa sociedade. […] Eu falo sempre para os atletas: “Poxa, se tu falas qualquer coisa em relação a racismo, pedindo punição, sendo contra, existem um monte de moleques negros que vão perceber em ti alguém que pode mudar a cabeça deles.”.

E, também, a gente precisa passar a imagem de que futebol não é o paraíso racial. Porque as pessoas acham que, como no futebol tem bastantes negros, não acontecem casos de racismo. Pelo contrário, no futebol tem muito caso de racismo e existe o espaço demarcado para o negro, que é jogar dentro das quatro linhas. A gente não tem técnicos negros, dirigentes negros. Nas grandes emissoras, a gente não tem negros como âncoras esportivos de programas. Sendo que a maioria dos que trabalham nessas áreas é ex-atletas. Por que os ex-atletas negros não podem estar ali? Então, o trabalho do Observatório é este: denunciar.

Em seguida, Fábio Mendes nos estimulou a falar sobre como temas aparentemente díspares, futebol e discriminação racial, se relacionam, levando em consideração que um atrai e o outro repele conversa entre pessoas. Quando Silvio de Almeida tomou a palavra, todos os presentes tiveram, pela primeira vez, uma aula pública sobre racismo no Brasil.

Futebol e racismo é uma contradição? É uma unidade contraditória, ou seja, a gente não consegue pensar em futebol sem pensar em racismo. Não existe possibilidade, nunca existiu essa possibilidade, principalmente se a gente pensar o futebol como um produto da modernidade, do século XIX. A história do futebol está ligada à formação da economia moderna, ao processo de expansão da sociedade mercantil. Nós não conseguimos separar futebol de economia, economia de imperialismo. Falar de imperialismo e colonialismo é falar da construção da ideia de raça, tal qual foi construída no século XIX. Portanto, não existe possibilidade de pensar futebol sem pensar em raça e no processo de construção da ideia de raça. Não se pode entender o que é futebol sem estudar o que é raça. Quem estuda futebol e não entende as determinações da raça está estudando pela metade. Com todo o respeito, não está entendendo o que é o futebol. […] O futebol é um repositório de um imaginário social, que é o da competitividade, da violência, da disputa. O futebol só repõe esse imaginário a todo momento por meio das regras, virilidade, força, de uma certa masculinidade. […] O futebol é, também, um repositório de uma prática ideológica que vai naturalizando certos papéis sociais, que vai, do ponto de vista lúdico, imagético, reproduzindo uma certa configuração do mundo, […] que reflete um pouco as práticas socioeconômicas.

O que produz o racismo não é o racista, é o contrário. É o racismo que produz o racista. Ou seja, o racismo é um processo histórico e político, em que você vai reproduzindo relações sociais baseadas na distinção e na diferença de raças. Então, é necessário que se criem as condições sociopolíticas para que esse racismo se reproduza. O racismo não é apenas um ato, uma violência sofrida por um jogador, é a criação das condições para que as desigualdades raciais continuem existindo. Então, o racismo se reproduz no silêncio, no vazio, na omissão, na não discussão. Então, o racismo precisa de um espaço no qual o sangue das pessoas vitimadas pela violência racial possa escorrer. Sem isso não existe o racismo enquanto processo. E, para que esse processo e a criação dessas condições continuem funcionando, existindo e se reproduzindo, é central que você tenha certas estruturas sociais que estejam relacionadas e que permitam que esse processo continue existindo. […] O futebol não poderia ser desse mundo se não tivesse o racismo como elemento estrutural.

Posteriormente, Fábio Mendes promoveu o debate sobre o papel da mídia na abordagem do racismo no futebol, tanto em relação à grande imprensa, quanto aos canais independentes que têm surgido recentemente, os quais têm outro viés e, por isso mesmo, discutido com profundidade este e outros problemas sociais do Brasil. Marcelo Carvalho voltou a falar da falta de espaço nas principais redes de comunicação para aprofundar o debate sobre racismo no futebol, dando como exemplo a ausência de negros no cargo de treinador. Em suas palavras:

[…] Uma das grandes vitórias que eu considero do trabalho do Observatório é que a gente conseguiu dar os números. Mas quando a gente fala em números, a gente fala da ponta do iceberg, porque os dados de racismo são a ponta do iceberg. A gente ainda não conseguiu conversar com a grande mídia sobre o racismo com o treinador de futebol, o capitão dos times. A gente consegue só conversar de incidentes. O debate é interditado quando a gente vai falar de treinador. Então, na Copa do Mundo, a gente conseguiu falar sobre o Aliou Cissé, único treinador negro e o menor salário dentro da Copa. Aí apareceu uma enxurrada de pessoas no site do Observatório questionando: “Não. Treinador é capacidade! Se ele ganha menos, é porque o país é pobre.”. Sabe? As pessoas vêm defender algo que eu fico pensando: “Poxa! Por que tu vens defender isso? Por que não vem tentar entender por que não existe treinadores negros? Qual o problema de ter um treinador negro? Qual o problema do Roger Machado hoje ser um treinador negro? É um cara que estudou, que conhece futebol. Como que é visto o trabalho do Roger? Por que na seleção brasileira de futebol a gente nunca teve um treinador negro? A internet nos possibilita discutir isso. Esse, eu acho, é o grande avanço da web.

Silvio de Almeida, por sua vez, partiu do racismo estrutural para falar da necessidade de sermos antirracistas, da existência de fóruns permanentes de discussão sobre a questão racial, e, por fim, da importância que o futebol deveria ter em nossa sociedade, retomando nesse ponto a forma como a imprensa trata o assunto. Segue sua argumentação:

O racismo – isso a gente aprende com o Foucault – é uma tecnologia de poder, não é só uma mentalidade. Uma tecnologia porque se converte em uma série de ferramentas que vão ser fundamentais para você reproduzir desigualdades. […] O fato de o racismo ser estrutural não é álibi para que as pessoas possam ser racistas à vontade. Inclusive, por saber que o racismo é estrutural no Brasil, as pessoas têm mais responsabilidade de olhar para si e para as instituições às quais pertencem e propor formas anticíclicas contra o racismo. Ou seja, o racismo é o seguinte: se você ficar parado, ele te pega. É sempre necessário, para que você possa combater o racismo, ser antirracista. Não adianta dizer assim: “Eu não sou racista e, portanto, não tenho responsabilidade nenhuma.”. Ser não racista numa sociedade estruturalmente racista não é suficiente. É necessário que haja contramedidas. Tem que ser antirracista.

Por isso que tem de ter em qualquer lugar, seja no Museu do Futebol, sejam nos clubes de futebol, espaços permanentes de discussão sobre a questão racial. Se não tiver espaço permanente, se não tiver uma dinâmica para uma compreensão de como as relações sociais podem, apesar da sociedade, se contrapor a essa dinâmica, não adianta. Vai ter racismo, vai ser racista. A gente só vai ver essas discussões sabe quando? […] 13 de maio e 20 de novembro. Não adianta fazer essa discussão sobre racismo só nessas datas. Não adianta! Tem que ser uma discussão permanente, porque nós estamos falando de algo que permanentemente violenta, mata as pessoas e retira possibilidades, inclusive, do nosso país.

[…] O Brasil é um país que não tem elite. […] O que o Brasil tem mais próximo de elite é o que a gente mata, inclusive do ponto de vista imagético. Eu costumo até brincar: o único príncipe que eu respeito hoje é o Paulinho da Viola. Esse é elite no Brasil! Nei Lopes? Esse é elite. Vocês percebem o que eu estou dizendo? Pixinguinha é elite no Brasil. O Brasil não tem classe dominante, o que é outra coisa, é uma gente violenta, que não pensa no futuro do país, que destrói o povo. É por isso que o futebol não tem a importância que deveria ter, inclusive para a gente estudar outros setores da vida social.

O resultado disso é que nós temos uma imprensa subdesenvolvida, que só sabe ver o racismo na sua manifestação mais imediata, que é o racismo interpessoal, individualista. Que a gente trata como? Com direito penal ou com educação. Ou seja, a gente só consegue ver o jogador que xinga o outro de “macaco” no campo de futebol, mas a gente não vê que isso é resultado de toda uma série de mecanismos institucionais e estruturais que dão espaço para esse tipo de coisa acontecer.

As pessoas deveriam ter vergonha de ser racistas. No Brasil, quando a pessoa entra dentro de um estádio, ela não tem vergonha de absolutamente nada! Porque ali ela compra ingresso exatamente para odiar as outras pessoas. É esse tipo de dinâmica que está sendo construído no Brasil. Vejam: o futebol eu acho que é uma condensação material de relações que explicaria o Brasil muito bem, mas muito bem mesmo, aquilo que o país tem de mais fundamental e essencial. Portanto, é preciso pensar como a gente pode reconstruir minimamente aquilo que a gente chama de esfera pública.

Fábio Mendes, mediando o debate entre os convidados. Foto: Fábio Mendes/Facebook (reprodução).

Por fim, Fábio Mendes incentivou abordar o processo de “arenização” do futebol no Brasil e sua relação com a discriminação racial. Marcelo Carvalho, assim, criticou o papel desempenhado pelos clubes, com exceção ao E. C. Bahia, e questionou as campanhas contra o racismo feitas pelas agremiações e, sobretudo, pela Confederação Brasileira de Futebol. Vejamos:

[…] Entrando na questão do papel dos clubes, cabe ressaltar uma importância vem nascendo no Bahia. O Bahia, hoje, tem o Núcleo de Ações Afirmativas, que é um grupo que nasceu para trabalhar essas questões fora das quatro linhas o ano inteiro. É o primeiro clube no Brasil que eu tenho notícia que faz um papel desses. E uma outra coisa que eu sempre digo onde eu vou falar é que não existe um clube no Brasil que faz uma campanha contra o racismo. Nenhum clube no Brasil fez isso! O que os clubes fazem são ações pontuais para falar de racismo, geralmente no dia 20 de novembro ou quando acontece um caso de racismo com o clube ou que o clube esteja envolvido. Aí se entra no campo com aquela faixa contra o racismo. Aí a CBF tem a campanha “Somos iguais”. Eu os questionei: “Poxa, se vocês estão afirmando que todo mundo é igual, cadê a campanha contra o racismo?”. Agora mudaram: “Somos todos iguais”. O cara do marketing teve uma ideia maravilhosa, né?! Eu acho que ele passou seis meses para ter essa ideia de “Somos iguais” para “Somos todos iguais”. O que era branco e preto agora é colorido. Sabe? Qual é o papel que a CBF tem e deveria ter no combate ao racismo?

Silvio de Almeida, novamente, refletiu sobre futebol a partir da economia. Explicando os modelos fordista e pós-fordista, ele fez a distinção entre racismo de integração e racismo de eliminação. Ao retomar a discussão, entendeu o processo de arenização como uma arianização do futebol. Justificou, desse modo, o porquê do fim das gerais nos estádios brasileiros. Uma lógica perfeita! Aprendamos:

[…] você tem aqui uma espécie chamada de racismo de integração. Por isso que se tem o discurso da democracia racial aqui no Brasil. Como que isso se demonstra no futebol? Na geral. Eu me lembro quando assistia aos jogos no Maracanã, que passava no Canal 100. Aí filmavam a torcida, todo mundo em pé, e você via aquele monte de negro sem camisa, desdentado. Só que você tinha o quê? As divisões nos estádios: numerada… Tinha pobre, tinha rico, tinha miserável, mas estava todo mundo dentro do mesmo lugar, do mesmo espaço, torcendo para o mesmo time. Tinha o torcedor chique, o torcedor preto e pobre, mas estavam no mesmo estádio. Isso é racismo de integração. Não se misturam, mas está no mesmo espaço. Esse é um tipo de inclusão que a gente chama de “unidade contraditória” dentro da economia. Tem hierarquias sociais muito fortes, a presença do Estado, repressão, que nos anos 1960 no Brasil era muito forte […]. O Edifício Copan é o símbolo do fordismo. Tem quitinete, apartamento gigante, gente rica, gente pobre, comércio ali no meio… Tem de tudo ali. É no centro de São Paulo. É isso aí. É a integração. Vai continuar tendo pobre e rico, preto vai continuar morrendo e tal, mas é a inclusão excludente.

Agora o que é o pós-fordismo? É outra coisa, é a crise a partir de 1973. A ideia é: “Estamos em crise fiscal, tem que diminuir o tamanho do Estado, diminuir os direitos sociais. Tem que ter um tipo de produção mais flexível. […]”. Aí já não tem mais integração. Porque não tem espaço para todo mundo, não tem como pagar previdência, direitos trabalhistas. Não tem mais como. Aí, Ashele Mbembe, intelectual camaronês, vai dizer: “A única forma de lidar com isso é por meio da violência e da eliminação.”. É o que a gente chama de racismo de eliminação. Vamos trazer para o futebol agora? É o seguinte: vejam as imagens da Copa do Mundo de 2014. O Brasil parece o quê? Parece a Suécia. Não tem negro. E veja: dane-se que não tenha negro! Ninguém está nem aí. É só para quem puder pagar o valor.

[…] Lembra-se do que eu falei, de consumo específico? Quem não puder ter pay per view não vai ver certos jogos. Não ver ter condição de ver e não vai ver mesmo! E não importa que não possa ver! As pessoas estão pouco se lixando para isso. Um mundo como esse só trabalha de que maneira? […] Dentro da lógica do torcedor-consumidor. O sujeito vai ao estádio portando o direito de fazer o que quiser, inclusive de ser racista. […] Torcida organizada. Vocês perceberam agora por que da criminalização delas? Porque você precisa dissolver qualquer que possa parecer esse tipo de integração social, a qual, na verdade, é uma desintegração também da subjetividade, para que as pessoas fiquem absolutamente acessíveis e abertas para esse tipo de cooptação por essa lógica do futebol enquanto mercadoria, acumulação flexível.

Tem que entender a arenização, e aí a questão racial, como, também, uma arianização do futebol. Você vai transformar o futebol em um produto que possa ser consumido não apenas pelos brasileiros. Por isso que ter negro ou não não tem a menor importância. Até porque a ideia é vender para outras pessoas de outras paragens do futebol, que, inclusive, não estão nem aí de ir aos estádios. Não querem ir aos estádios porque não querem ter o desconforto de ter que se deslocar numa cidade como a nossa, que tem um transporte público de péssima qualidade. Quem vai atrás de time é torcida organizada. O cara vai lá, torce, tal. Agora essas pessoas não. Têm o pay per view, assistem da sua casa e têm o direito de ver pessoas que elas acham bonitas. Não têm que ficar vendo aquele monte de gente desdentada, negros sem camisa que são da geral. Ou seja, tirar a geral é uma forma de você higienizar a imagem do futebol. Dão aquele close e aparece um cara sem dente tocando aquele bumbo. “É uma coisa muito feia! Aquilo lá não combina.”. Ou seja, precisa ter uma imagem “bonita”, “plástica” e tal para você conseguir vender sua mercadoria just in time.

[…] Isso não poderia funcionar se a sociedade não fosse racista. Perceberam? Esse tipo de distinção social, essa naturalização da desigualdade não funciona se a gente não tem no nosso imaginário e nas práticas, que reforçam o imaginário e que por ele são reforçadas, que algumas pessoas são inferiores a gente. Isso é fundamental que haja. Tem que haver racismo para que esse tipo de lógica da exclusão possa funcionar. Não só da exclusão, mas da morte, da eliminação, do genocídio, que nós sabemos que acontece nas periferias. Matam o ano inteiro milhares de jovens que poderiam jogar futebol e que tinham o sonho de jogar futebol. São eliminados porque uma economia como essa, esse modo de constituir a economia não tem espaço para essas pessoas.

Aproveitando o gancho, Marcelo Carvalho falou do fim dos campos na periferia e da origem das escolinhas de futebol, um processo que acaba por excluir os negros pobres do esporte. Em suas palavras:

[…] Estão acabando os campos de periferia. Aí, quando acabam os campos de periferia, nascem as escolinhas de futebol pagas. Aí um moleque hoje para poder ser jogador de futebol vai ter de frequentar uma escolinha paga. Porque alguém pensou: “Se acabaram os campos da periferia, eu vou montar aqui um campo de Futebol 7 para aquele moleque que não tenha onde jogar ter que jogar aqui.”. Aí acabou de vez. Quem é que vai ter dinheiro para investir no filho? “Meu filho tem potencial para ser jogador de futebol, mas eu não tenho como investir nisso.”. Antigamente, jogava, algum olheiro via e levava para um clube.

E, então, Fábio Mendes concluiu o pensamento:

Aí você cria não só a elitização do público, mas a elitização também da prática, do próprio atleta, do criador do esporte.

Foto ao final do debate com o público presente e resistente. Foto: Fábio Mendes/Facebook (reprodução).

O debate foi tão profícuo que durou quase duas horas, sendo poucas as intervenções de Fábio Mendes. Quando abriu a participação para o público presente e para aqueles que acompanharam a discussão pelas redes sociais, faltou tempo para que todos pudessem interagir, embora tenhamos chegado a quase quatro horas de debate. Foi, portanto, uma manhã-tarde muito prazerosa e proveitosa, na qual tenho certeza de que não só eu tenha aprendido demais com as falas de Marcelo Carvalho e Silvio de Almeida. O Brasil precisa de mais cidadãos como eles para engrossar a luta antirracista e conscientizar a população.

 

Para quem quiser conferir o debate na íntegra, inclusive a partir das perguntas da plateia, confiram este link: <https://www.ludopedio.com.br/futebol-e-discriminacao-racial/>.


[1] Reitero aqui meu agradecimento ao Museu do Futebol, à Daniela Alfonsi e à Fabiana Lima por esse convite.

[2] TONINI, Marcel Diego. Além dos gramados: história oral de vida de negros no futebol brasileiro (1970-2010). 2010. 432 f. Dissertação (Mestrado em História Social)-Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011.

[3] Negro insultado, insultante, respectivos clubes, local e data: Paulo César Fonseca do Nascimento – Tinga (Cruzeiro), torcedores do Real Garcilaso, Cusco, Peru, 12 fev. 2014.

[4] Marcos Arouca da Silva (Santos), torcedores do Mogi Mirim, Mogi Mirim-SP, Brasil, 6 mar. 2014.

[5] Márcio Chagas da Silva, torcedores do Esportivo, Bento Gonçalves-RS, Brasil, 5 mar. 2014.

[6] Disponível em: http://www.observatorioracialfutebol.com.br/.

[7] Disponível em: http://www.institutoluizgama.org.br/index.htm.

[8] De modo a descrever melhor quem foi seu pai e a evidenciar como a negritude era (e ainda é) vista como uma barreira para a ascensão profissional de um negro que se aventurasse no gol, ou, de outro modo, como o preconceito se transformava em discriminação racial no futebol, reproduzo na íntegra a sinopse biográfica contida no aplicativo Almanaque do Timão: “Barbosinha, goleiro, 1967/1968, 34 jogos, 33 gols sofridos. Depois de sofrer dois gols de falta do palmeirense Tupãzinho no clássico que alijou o Corinthians da disputa do título paulista de 196 (0 x 2, 19/11), Lourival de Almeida Filho (*São Paulo, SP, 11/9/1941 – + São Paulo, SP, 20/10/2015), o Barbosinha, tornou-se um homem marcado. Acusado de frangueiro por alguns, de vendido por outros, passou a ser marginalizado no Parque São Jorge. Ao crontrário da versão que entrou para a história, no entanto, Barbosinha (assim chamado pela semelhança físca com Barbosa, goleiro do Brasil, na Copa do Mundo de 1950) voltou, sim, a vestir a camisa do clube depois daquele dia, ainda que uma única vez. Foi em um amistoso contra o Bahia de Feira de Santana (7 x 0, 23/1/1968). Depois, passou por outros clubes, como Atlético-PR e Tiradentes-PI. Ao se aposentar dos gramados, tornou-se fiscal da Prefeitura Municipal de São Paulo.” (UNZELTE, Celso Dario. Almanaque oficial do Sport Club Corinthians Paulista. 2018).

[9] Para não estender ainda mais o texto, optei por deixar de fora as falas feitas a partir da interação com o público, ainda que elas tenham possibilitado outras reflexões do mesmo modo importantes.

[10] Apenas para informação, eu editei minimamente a transcrição literal.