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“Donos do Campo” e “Donos da Bola”: o dilema de Neymar

José Carlos Marques

venenoremedioEm maio de 2018 (ou seja, daqui a exatos cinco meses), a obra Veneno remédio – o futebol e o Brasil, de José Miguel Wisnik, completará dez anos de vida. Acolhido em alguns círculos intelectuais de forma bastante alvissareira quando lançado em 2008, o livro publicado pela Editora Companhia das Letras parece não ter desfrutado até hoje, especialmente junto ao público boleiro, do mesmo reconhecimento e prestígio – a despeito de termos ali, ao longo de 450 páginas, um desfile de ricas e diferentes chaves interpretativas do futebol brasileiro.

Professor de literatura na USP, pesquisador, crítico, músico e compositor com igual destreza em todas essas diferentes “posições”, Wisnik cometeu a ousadia de propor algumas leituras sobre o ludopédio a partir de conceitos e analogias oriundos da literatura, da crítica estética, da filosofia, da sociologia etc. Pois bem: logo no início do texto, vemos que o próprio autor reconhece o fato de que seu “Veneno remédio” poderia não ter um leitor evidente: quem vive o futebol costuma não gostar de ler reflexões mais profundas sobre o próprio futebol, para além das superficialidades de jornais e revistas especializados; e quem vive a leitura/literatura costuma não dar muita bola para o futebol – com o perdão do trocadilho. Daí que a obra poderia estar fadada a viver num limbo incômodo entre o descaso de uns e o desinteresse de outros.

Longe de querer reafirmar a singularidade do livro, que se sustenta facilmente pelo seu rigor ensaístico, gostaria apenas de reaplicar uma das proposições reavivadas por Wisnik e que serve de rico exemplo para testarmos os limites de suas chaves interpretativas: refiro-me à dicotomia entre os “Donos do Campo e os “Donos da Bola”, que ele toma emprestado de uma reflexão de Chico Buarque por ocasião da Copa do Mundo de 1998 na França.

Segundo esse juízo dicotômico, os “Donos do Campo” seriam representados pelos ricos (os garotos europeus), que privilegiaram a ocupação do território por meio da melhor distribuição do controle da bola. Interessados em manter o domínio do espaço, eles teriam grande intimidade com o campo, não tendo necessariamente interesse em agarrar-se à bola para além do necessário. Já os “Donos da Bola” seriam representados pelos pobres (os garotos imigrantes e latino-americanos), que se agarrariam à bola de modo esbanjador, exibicionista, com grande perícia e habilidade no trato com o objeto esférico. Os primeiros seriam os equilibrados; os segundos, os equilibristas. Num jogo entre países ricos e países pobres, teríamos portanto um embate entre os “Donos do Campo” e os “Donos da Bola”.

Esse modelo binário repete em certa medida a oposição entre o “futebol em prosa” e o “futebol em poesia” proposto de maneira originalíssima pelo cineasta italiano Pier Paolo Pasolini em texto publicado em 1971, logo após o triunfo da Seleção Brasileira na Copa do México de 1970. Ainda que faça algumas relativizações sobre essas dicotomias, Wisnik parece ficar seduzido sobremaneira pelas binariedades, quase que propagando a mesma oposição polarizada que é repetida por grande parte da imprensa brasileira, segundo a qual teríamos de um lado um modelo baseado no preparo físico e nos arranjos táticos das equipes (modo europeu – ou rico – de se jogar futebol) e, de outro lado, um modelo baseado na habilidade, no talento e na técnica dos jogadores (modo latino-americano – ou pobre – de se jogar futebol).

A meu ver, o grande risco das soluções binárias é não conseguir dar conta daquilo que se demora na fronteira entre um e outro lado, naquilo que reside justamente na dissolução das margens ou na mistura dos paradigmas. Ter que ser uma coisa ou ser outra é justamente abolir a possibilidade de que algo possa viver nos limites entre uma e outra coisa (como é o caso da crônica, gênero híbrido que mescla literatura e jornalismo numa formulação única).

Todas estas longas reflexões servem-me justamente para lançar alguns desafios interpretativos sobre a dificuldade que Neymar ainda enfrenta para finalmente poder sagrar-se o melhor jogador do mundo, seja pela escolha da entidade que gere o futebol no mundo (a Fifa), seja pela escolha da revista France Football. Para brincar com os perigos das soluções binárias, arrisco-me a dizer que Neymar notabilizou-se inicialmente por ser um dos mais bem-acabados exemplos de “Dono da Bola”. Virtuoso e excessivo, o astro da Seleção Brasileira e atualmente do PSG agarra-se à bola com paixão e malabarismo barroco, exagerando quase que invariavelmente nas firulas e nos dribles por vezes desnecessários e provocativos.

Liga dos Campeões - Anderlecht x PSG na Bélgica. Foto C.Gavelle/PSG

Neymar sonha em ser escolhido o melhor jogador do mundo. Foto: C.Gavelle/PSG.

O salto necessário que ele tem que executar é notabilizar-se também como “Dono do Campo”, ou seja, conscientizar-se de que é preciso balancear o seu lado equilibrista com o lado equilibrado que parece inexistir até o momento. E permito-me usar a ideia do “Dono de Campo” de maneira bastante metafórica: os grandes gênios de todos os tempos no futebol foram aqueles que souberam conjugar sobremaneira esse pêndulo entre ser o dono da bola e o dono do campo, ou seja, aqueles que conseguiram fazer com que seu talento individual também fosse rearranjado em prol de arranjos táticos e territoriais, cujos exemplos mais ilustrativos são Pelé, Maradona e Messi.

Para além disso, um “Dono do Campo” impõe sua liderança naturalmente perante os colegas não apenas por ser o craque do time (o virtuoso, ou o “Dono da Bola”), mas justamente por dominar os espaços todos – os do campo, os do vestiário, os do treinamento, os do clube etc.

Enquanto Neymar tiver que se digladiar com colegas de time para saber quem é o cobrador oficial de pênaltis e faltas da equipe (como ocorreu no PSG); enquanto Neymar abandonar treinos coletivos por se indispor com companheiros do próprio clube (como ocorreu no Barcelona); enquanto Neymar aparecer em coletivas de imprensa ao lado do técnico Tite para chorar diante das câmeras em função das cobranças que recebe (como ocorreu na Seleção Brasileira); enquanto Neymar persistir em anunciar disfarçadamente os infortúnios de residir numa mansão em Paris distante dos “parças” (como tem sido ventilado vez ou outra); enquanto Neymar insistir em menosprezar adversários e continuar indispondo-se com árbitros e treinadores, teremos apenas um “Dono da Bola”, que se irrita sempre que perde a posse dela.

A partir do momento em que Neymar afirmar-se também como um “Dono do Campo” e romper a dicotomia apresentada por Wisnik a partir da romantização de Chico Buarque, teremos um jogador completo, capaz de romper outra binariedade que já dura 10 anos – a que reveza o prêmio de melhor do mundo entre Messi e Cristiano Ronaldo. O brasileiro, entretanto, parece preferir padecer da “Síndrome de Peter Pan” e recusa-se a ingressar no mundo dos adultos – ele que está prestes de completar 26 anos agora em 5 de fevereiro.

Neymar fará um bem a si mesmo se perceber a necessidade de romper com a categoria de “Dono da Bola” que ele mesmo tem imposto a si mesmo e passar a ser também um “Dono do Campo”, o que exige responsabilidades extras. Os jogos do PSG com o Real Madri pela Liga dos Campeões no início de 2018 e a Copa do Mundo na Rússia que se avizinha são ótimas ocasiões para ele colocar isso à prova e pulverizar o tal juízo binário. A partir daí ele poderá começar a fazer parte da História com H maiúsculo. Sem dicotomias ou binariedades.